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POV CATARINA

Mal haviam se passado vinte e quatro horas, mas eu me sentia como se tivesse vivido uma semana inteira. Na noite anterior, fiquei pensando na minha mãe. Se não fosse sua partida prematura, nada daquilo estaria acontecendo.

Acordei cedo. Desci para a cozinha e esbarrei com Corine e meu tio conversando na escada.

— Olha só quem caiu da cama! — disse meu tio, abrindo um sorriso fraternal.

— Bom dia, tio. Bom dia, Corine.

— Bom dia, minha flor. Seu tio está indo tomar café. Talvez devesse acompanhá-lo.

— Isso mesmo, minha sobrinha. Vamos. Corine mandou preparar um bolo de milho ótimo. Temos várias plantações aqui na fazenda.

— Não estou com muita fome, gente — falei. Acho que eu ainda estava triste por causa da minha mãe.

— Nada disso, Catarina. Venha. Assim que vir a mesa, seu apetite aparece rapidinho. O senhor também, seu Nestor. Venham os dois! — ordenou Corine, sempre maternal.

E de fato, o café estava ótimo. O bolo de milho com café era saboroso demais.

— Por falar nisso, Catarina, preciso te apresentar a fazenda. Mas devo fazer isso amanhã. Pode ser?

— Fica tranquilo, tio. Nem precisa. Eu me viro.

Ele se levantou da mesa após empurrar a cadeira para trás.

— Pois faço questão. Não quero que se perca aqui.

— Tá bem, então.

— Fica com Deus e tenha um bom dia. Às quatro da tarde devo voltar do escritório. Juízo!

— Pode deixar, tio — respondi, me sentindo acolhida.

— Tchau!

Meu tio deu um beijo no topo da minha cabeça e saiu.

Agradeci à Corine pelo café antes de voltar para o meu quarto. Logo José Eduardo se levantaria, e eu não queria discussões logo cedo.

Finalmente cheguei ao meu quarto sem vê-lo, o que foi um alívio. Sem ter muito o que fazer, fiquei mexendo no celular.

Juro que relutei ao máximo, mas foi mais forte que eu: não consegui controlar a vontade de abrir a galeria do celular para ver fotos da minha mãe.

Lá estava eu, debulhada em lágrimas, olhando o sorriso gentil dela, cozinhando o macarrão perfeito de domingo, que só ela sabia fazer. Olhei a data e senti um aperto por deduzir que ali ela já estava doente — e nós nem sabíamos. Me deu aquele desespero, vontade de voltar no tempo e ter passado mais tempo com ela. Só que era impossível.

Ao longe, ouvi batidas abafadas na porta. Engoli o choro para escutar melhor e ter certeza de que era isso mesmo.

Continuaram batendo.

Talvez fosse importante.

Me ergui após secar os olhos. Dei uma breve olhada no rosto no espelho e não achei que minha cara estivesse tão ruim.

Assim que abri a porta, minha garganta quase fechou e eu tossi.

— Você estava chorando?

José Eduardo reparava na minha fisionomia. Ele pareceu assustado.

— O que você quer? — falei sem muito ânimo, pouco me importando se ele notou minha cara de choro.

— Responda. Se meu pai te vir assim, ele vai achar que fui eu de novo.

— Essa é sua preocupação? Seu pai achar que você é ruim? Se for isso, fica tranquilo. Eu digo que tô chorando por causa da minha mãe! — falei.

— Eu sinto muito pela sua mãe.

Eu abri um sorriso amarelo, pouco confiante:

— Aham. Tá. Bom dia, José.

Eu já ia fechar a porta quando José Eduardo ensaiou uma fala.

— Escuta — começou, após limpar a garganta —, o que vai fazer no almoço?

— Nada. Por quê?

Fiquei o encarando. Meu primo estava visivelmente desconfortável, talvez até ansioso.

— Bem, eu tenho um almoço da empresa em que trabalho…

José olhava para os pés, envergonhado. Era diferente vê-lo inseguro daquela forma.

— Bom almoço, então.

— Pera, não fecha a porta. Que saco!

— Você tem um almoço da sua empresa e quer que eu faça o quê? Cheque o menu? — perguntei.

— Não, garota. Não é isso… Escuta, é que tipo… nesse almoço, preciso levar um par feminino.

Agora as coisas começavam a fazer sentido.

— Cadê a Natália?

Ele engoliu em seco. Certeza de que estava arrependido.

— Ela foi pra outra cidade. Não tenho mais ninguém além…

Acho que ele diria: “de você”.

Eu estava começando a gostar daquilo.

— Além de…? — perguntei.

A resposta era óbvia, mas seria gostoso ouvir a linda boquinha do meu primo dizendo de quem ele precisava de ajuda.

— De você, Catarina. Será que poderia ir comigo a esse almoço?

Eu ri. Ri com gosto. Como esse mundo gira.

— Esse almoço é importante pra sua carreira?

— Muito, Catarina. Muito mesmo! — ele se animou, supondo que eu aceitaria.

— Hum, então tá. Eu não vou, passar bem!

O sorriso dele murchou feito uma flor sem água. Seu semblante se fechou e ficou irritado.

— Qual é, Catarina!

— “Qual é, Catarina?”, poxa… você me destratou o quanto pôde, e agora quer um favor desses? Não. Não vou.

— Mas te salvei daquela piscina! Se não fosse por mim, estaria afogada!

— Hum… mas se quer saber, foi sua namoradinha que me empurrou lá.

— Que namoradinha? Tá doida? Eu não namoro!

Agora era a hora da minha pequena vingança contra a fubanga da Natália.

— A Natália. Ela disse que você iria pedi-la em noivado muito em breve.

Ah, não foi exatamente isso que ela disse. Eu aumentei só um pouquinho. Não faria mal, né?

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