Artur já conhecia Filipe havia algum tempo. Sabia seu nome, sua idade, suas manias de falar demais quando estava animado e de se calar quando sentia que estava atrapalhando. Já tinham dividido brinquedos, lanches e algumas risadas tímidas. Mas, até então, tudo havia acontecido sob o olhar atento de adultos, como se ambos estivessem sempre em território neutro.
Confiar era outra coisa.
Desde a separação dos pais, Artur aprendera a observar antes de se entregar. Não porque fosse desconfiado por natureza, mas porque crescera rápido demais. Percebera cedo que promessas mudam, que pessoas vão embora, que adultos erram. Então ele criara um tipo de distância silenciosa: estava presente, mas não totalmente. Participava, mas não se deixava depender.
Naquela manhã de sábado, Henrique precisou sair mais cedo do que o previsto. Nada urgente, nada preocupante. Apenas uma reunião rápida. Ainda assim, explicou tudo ao filho com cuidado.
— Volto antes do almoço. A Ágata vai ficar com vocês, tudo bem?