Mundo ficciónIniciar sesiónApós ficar viúva, Letícia decide retornar à sua cidade natal para recomeçar. A escolha não é apenas por ela, mas principalmente pelos filhos — o desejo de criá-los perto dos avós paternos, que sempre a acolheram com carinho e a fizeram sentir que ali ainda existia um lugar seguro. O que ela não esperava era que esse retorno também a colocaria frente a frente com partes do passado que nunca foram totalmente resolvidas. Antigas inimizades ressurgem, olhares carregados de julgamentos reaparecem e, entre esses reencontros, surge aquele que foi seu primeiro amor — a pessoa que mais a feriu e que, até hoje, a culpa por uma tragédia que marcou sua família. Enquanto tenta reconstruir a própria vida e proteger os filhos, verdades mal compreendidas começam a se insinuar, mostrando que nem tudo foi como parecia. Em meio à dor, ao silêncio e às memórias, ela percebe que voltar para casa não é apenas um ato de coragem — é também o início de um lento e necessário processo de cura.
Leer másEra a primeira vez que Letícia preenchia um formulário com essa palavra. Seus olhos se encheram de lágrimas, mas ela respirou fundo. Havia dois serzinhos que precisavam muito que ela fosse forte agora.
— Letícia, que bom que você voltou. Espero que as crianças puxem mais a você do que à peraltice do Heitor. Elas riram. — Dona Celina, sinto lhe decepcionar, mas a Luísa só puxou a mim na aparência. No resto, é tudo do pai. Já o Eduardo é mais calminho. Riram novamente, enquanto Dona Celina lhe contava algumas das artes que Heitor havia aprontado naquela época — afinal, ele era oito anos mais velho e não haviam frequentado a escola no mesmo período. — Como era sorridente e amado aquele menino… — concluiu Dona Celina. — Você acredita que, todos os anos, no meu aniversário, ele me mandava flores com um bilhete usando um dos meus “bordões”? O último foi: “galinha que acompanha pato morre afogado”. E, por fim, assinava: seu peralta favorito. Ela sorriu entre lágrimas. — Nesse último aniversário, obviamente, não recebi nada. Tenho que te confessar: foi o que mais senti falta, com toda certeza. Entre sorrisos e lágrimas, elas se despediram. Era verdade. No último ano não havia como ter presente enviado, nem cartão pensado com carinho. Heitor não estava mais lá. Já ia fazer um ano. Que saudade. — Dona Celina, muito obrigada por aceitar a matrícula das crianças em cima da hora… e mais ainda por ter vindo me receber pessoalmente. — Oh, querida, imagina! Eu mal pude acreditar quando sua sogra me contatou. Nem parecia real saber que os filhos da minha aluna mais brilhante estudariam aqui. Que bom poder te rever… você passou por tanta coisa nessa vida e está aqui, ainda mais linda e doce do que há sete anos. Letícia estava prestes a se emocionar de novo quando o celular vibrou. Era Eduarda, sua cunhada e melhor amiga de uma vida inteira. Ela sorriu e se despediu. — Dona Celina, agora eu tenho mesmo que ir. A Duda está com as crianças, e temo que meus filhos apareçam com um pônei… ou quem sabe uma girafa. — Tchau, querida. Nos veremos muito. No carro, Eduarda cantava aos berros com os sobrinhos e fazia planos para os próximos trezentos fins de semana. — Lulu, Edu, no próximo final de semana podemos ir… A frase foi cortada com a porta do carro se abrindo. — Aonde a senhorita está pensando em levar meus filhos, dona Eduarda? As crianças explodiram em festa. — Mamãe, mamãe! A xixia Duda vai levar a gente pá paia! — disse Edu, em seu próprio idioma, derretendo o coração das duas. — Bom, isso vamos ver… Agora vamos almoçar, porque eu estou morrendo de fome e já passou da hora desses monstrinhos almoçarem. — Pois não, mademoiselle — brincou Eduarda, enquanto dirigia para o restaurante. — Se seus sogros souberem que levei vocês pra almoçar antes mesmo de passar em casa, me deserdam. — Já estou bagunçando a vida deles me hospedando com as crianças nesse primeiro mês… não quero incomodar mais, se é que isso é possível — concluiu Letícia, com um sorriso discreto. — Tá louca, Leh? Você é família. A casa é sua. Letícia não respondeu. Apenas sorriu, mas sabia que a família Lários sempre a tratara como uma deles. Nunca houve distinções, nunca perguntas demais — apenas acolhimento. Talvez por isso sentisse aquele aperto silencioso no peito sempre que pensava nos segredos que ela e Heitor haviam guardado por todos esses anos. Dez minutos depois, adentraram o restaurante rindo como duas adolescentes. Quem olhasse de fora jamais diria que haviam passado tanto tempo longe uma da outra. — Leh, vai na frente, já reservei a mesa pra gente. Esqueci meu celular no carro. — A tia Duda só não esquece a cabeça porque está grudada, Lulu. Vamos entrar. Ela informou o nome da reserva e, enquanto o recepcionista a conduzia até a mesa, sentiu o chão afundar sob seus pés. Ali, à sua frente, estava seu primeiro namorado. Aquele que a havia feito voar… e, logo depois, cortado suas asas.No dia seguinte, o clube estava cheio — mas era de se esperar. Afinal, era domingo.O sol batia forte sobre o gramado, espalhando crianças correndo em todas as direções, mochilas coloridas largadas perto das mesas, vozes se misturando num barulho constante de férias. Piscina aberta, monitores chamando grupos, música baixa vindo da área central.Pedro estacionou e desligou o carro devagar.Joaquim já estava inquieto no banco de trás, praticamente pulando.— Pai, olha quanta gente! — disse, abrindo o cinto antes mesmo de o carro parar por completo.— Calma, Joca — Pedro respondeu, rindo. — Um passo de cada vez.No banco de trás, Luísa e Eduardo observavam tudo com a mesma curiosidade, colados às janelas. Letícia conferia se tinha passado protetor solar nos dois, ajeitando a camiseta de Eduardo com um cuidado quase automático.— Dudu, boné — lembrou, colocando-o na cabeça dele. — Senão a gente volta pra casa.Eduardo fez que sim com a cabeça.Eduarda surgiu logo atrás deles, óculos escur
O telefone chamou uma vez.Duas.Antes da terceira, Carla atendeu.— Alô, meu amor… tudo bem?Pedro respirou fundo antes de responder.— Oi, Carla. É sobre o evento de amanhã…— Ah, sim — disse ela, rápida demais. — O Joca comentou que queria que eu fosse. Apesar de cair na sua semana. Ele disse que queria muito que a gente fosse junto.Houve um silêncio curto do outro lado da linha.— Então, Carla… — Pedro começou, medindo as palavras. — O Joca me pediu pra levar os primos amanhã. Aproveitar o último dia aqui pra brincar com eles no clube.A resposta veio afiada.— Você tá me dizendo que eu não posso ir no evento da escola do meu filho?Pedro fechou os olhos por um instante.— Não, Carla. Eu não disse isso. O clube não é meu, você pode ir a hora que quiser. Só estou dizendo que não há necessidade de irmos juntos. Aliás, essa é uma decisão que eu já tinha tomado desde o começo. Mas, como o Joaquim me fez esse pedido, estou te avisando pra evitar qualquer desconforto pra ele amanhã.—
Enquanto Norma terminava de organizar a cozinha, Letícia e Eduarda seguiram para a sala com as crianças. Luísa já estava sentada no tapete com Joaquim, e Eduardo tentava acompanhar a brincadeira do seu jeito.Ao chegarem, Letícia se sentou no chão com eles. Eduarda, mais elétrica, entrou já colocando fogo na situação.— Vamos brincar!Luísa abriu um sorriso animado.— Dinda, você pode ser um monstro, por favor?Joaquim entrou na brincadeira na mesma hora:— Tia, vamo brincar. Você é um monstro e vai pegar a gente!Eduardo observava tudo de perto, tentando acompanhar a irmã e o primo.— Isso, monstro! — gritou, empolgado. — Wooooorr! — rugiu, imitando.Eduarda cruzou os braços, fingindo pensar.— Não sei… vamos pensar num monstro. Acho que eu não quero, não.Enquanto falava, deu dois passos para trás, como quem realmente ia desistir.De repente, rugiu.Um rugido exagerado, alto demais, acompanhado de braços erguidos e caretas.As crianças gritaram e saíram correndo pela sala, rindo, tr
Norma foi a primeira a reagir, quase indignada:— Que isso, menino? — disse, firme. — Letícia, pra mim, é uma filha. Foi a melhor esposa que o seu irmão poderia ter tido. Cuidou dele melhor do que qualquer hospital teria feito.Olhou para ela com carinho sincero antes de continuar:— Mas é jovem. Precisa viver. E eu e seu pai pensamos exatamente a mesma coisa.Ricardo concordou com um leve aceno de cabeça.— Ouviu, minha filha? — Norma completou, sorrindo. — Você tá muito nova. Precisa namorar muito ainda.Letícia riu, tentando aliviar o clima.— Tio, tia… não sabia que vocês queriam se livrar de mim tão rápido assim.As risadas voltaram à mesa, mais altas agora.Norma, empolgada, não deixou o assunto morrer:— Para de besteira, menina. Mas me conta… como é esse seu chefe? Um físico numa boate, que coisa aleatória.— Eu também sou física, tia — Letícia sorriu. — Mas acho que foi só coincidência. Ele estava em outra sala, reservada pro aniversário de uma amiga… algo assim.Fez uma brev
Quando desceu para a mesa do café, todos já estavam reunidos na cozinha. O horário avançado denunciava o atraso — consequência direta das poucas horas de sono da noite anterior.— Bom dia — disse, para o ambiente inteiro.Mas o rosto entregava tudo o que a voz tentava disfarçar.A mãe foi a primeira a reagir, animada como sempre:— Bom dia, meu filho! Dormiu bem?Antes mesmo que ele respondesse, completou:— As crianças já tomaram café. Lulu e Joca acabaram de sair correndo pra sala, devem estar desmontando a casa agora.Pedro apenas assentiu com a cabeça, puxando uma cadeira e se sentando devagar, como se cada movimento exigisse mais energia do que o normal.Eduardo estava entre Letícia e Eduarda, distraído com um pedaço de maçã que mordiscava com concentração absoluta. As pernas balançavam sob a cadeira, alheio a qualquer tensão invisível que circulava pela mesa.Letícia ergueu os olhos quando Pedro se aproximou. O encontro foi rápido — breve demais para ser casual, intenso demais p
Ela caminhava em sua direção com passos contidos, quase cuidadosos, como se cada movimento tivesse sido pensado — ou contido — mais do que deveria. A porta fechada atrás dela parecia ter mudado o ar do quarto. Pedro permaneceu deitado por um segundo a mais do que o necessário. Então se apoiou nos cotovelos, num gesto automático, revelando o abdômen tenso sob a luz suave do abajur. Letícia sorriu. Um sorriso breve, involuntário, traído pela visão. — Tá tudo bem? — perguntou ele, confuso. Letícia não respondeu de imediato. Sentou-se ao lado esquerdo dele com calma, como quem já tinha tomado uma decisão silenciosa. — Tá, sim — disse por fim. — Eu só… pensei numa boa forma de te recompensar. A mão esquerda pousou sobre o peito direito dele com leveza. O toque era suave, quase inocente — mas o gesto seguinte o fez perder o fôlego. Ao se inclinar, ela o forçou a recostar de novo no colchão, sem pressa, sem violência. Apenas intenção. Pedro soltou o ar devagar, o corpo inte





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