Por que ainda importa?

André chegou em casa e, durante todo o percurso até ali, pensou no quanto a presença de Letícia era nociva. Ela tinha o poder de destruir tudo em sua vida. Um simples reencontro fora suficiente para fazê-lo brigar com a própria mãe.

Por que, depois de tanto tempo, ela ainda exercia esse poder sobre ele? Não devia se importar. Não podia.

De imediato, algo no silêncio da casa o deixou apreensivo.

No quarto, Helena era um retrato do caos: cabelo desfeito, maquiagem borrada, o corpo encolhido na cama. Ao se aproximar, os soluços tornaram-se audíveis.

— Helena… não chore — começou, sem muita convicção. — O que aconteceu mais cedo não vai se repetir.

Ela balançou a cabeça em negação e respirou fundo antes de falar:

— Meu amor, não é só isso. Acabei de receber o resultado dos meus exames… o último tratamento não surtiu efeito — disse, entre lágrimas.

André nunca soubera muito bem o que dizer nesses momentos. Ainda não aprendera a forma certa de consolar quando as negativas chegavam. Sentou-se na cama, puxou Helena para o colo e sussurrou:

— Sinto muito, querida… vai ficar tudo bem.

Ela buscou os lábios dele com urgência, abriu os três primeiros botões da camisa. Quando levou a mão ao quarto, André a afastou com cuidado.

— Desculpa, Helena… estou sem cabeça agora — disse, acomodando-a de volta na cama antes de se levantar. — As coisas com a minha mãe se complicaram.

Apesar de ter ficado, no fundo, radiante com a notícia de que as coisas haviam ido mal entre André e a mãe, Helena não pôde deixar de se sentir frustrada. Entendia o momento, mas era sempre irritante quando o marido recusava suas investidas. Uma suspeita incômoda se insinuou: será que a chegada de Letícia tinha algo a ver com isso?

Antes que André saísse do quarto, ela perguntou:

— Mas ainda vamos ao reencontro anual do colégio, né?

— Claro, querida — respondeu ele, sem muito ânimo. — Sei o quanto isso é importante pra você.

E não era mentira. André conhecia Helena bem o suficiente para saber o quanto ela gostava daquele palco. Entre antigos colegas, sentia-se triunfante, exibindo a vida que fazia questão de parecer perfeita.

Com a expressão de amiga preocupada, ela acrescentou:

— Acho que vai ser importante pra Carla também… você não pode chamar o Pedro de novo? Como um pedido pessoal. Se for você, acho que ele vai.

André suspirou, esfregando as têmporas.

— Helena, você sabe minha opinião sobre me meter na vida dos outros. Ele já disse que não tem interesse em ir. Além do mais, é o fim de semana do Joca com ele, e duvido que vá abrir mão disso. Ano passado eles já estavam juntos e ele não foi.

Não mentia. André sabia o quanto Pedro sofria com a distância do filho. Era o único que ouvia seus desabafos e conhecia bem o veneno que Carla despejava naquela relação. Mas não levava isso a Helena. Pedro pedira discrição — e Helena e Carla eram melhores amigas.

— Não é se meter na vida dos outros, meu amor — insistiu ela. — Eles não são desconhecidos. São nossos compadres. Precisamos ajudar.

Para encurtar a conversa, André cedeu:

— Ok… vou ver o que consigo fazer.

No escritório, fechou a porta, pegou o celular e respirou fundo, já sem paciência antes mesmo de ligar. Detestava aquele tipo de situação.

— Alô, Pedro.Como você está, irmão? — começou. — Escuta… vamos ao encontro hoje, cara. Acho que vai ser bom — mentiu.

Para sua surpresa, a resposta não foi negativa.

O que teria mudado?

A verdade era simples: antes mesmo da ligação, Pedro já havia decidido ir ao evento, depois que Eduarda comentara que Letícia estaria lá. Ele conhecia bem o veneno do trio Helena, Carla e Melissa — e sabia exatamente quem seria o alvo da vez.

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