Mundo de ficçãoIniciar sessãoQuando Eduarda e Letícia abriram a porta da sala privada da boate onde a reunião anual acontecia, as conversas cessaram instantaneamente, e todas as atenções se voltaram para elas.
Letícia vestia um macacão champanhe de alças finas, com decote drapeado que valorizava o colo de forma sutil e elegante. O caimento do tecido acompanhava o corpo com leveza, sem excessos. A clutch verde-esmeralda combinava com os brincos, acrescentando um toque sofisticado. Os cabelos castanhos, lisos com ondas suaves nas pontas e levemente iluminados, estavam jogados de lado, emoldurando o rosto com delicadeza. A maquiagem era leve e bem-acabada, destacando a pele clara, os olhos claros de expressão serena e os lábios naturais. Sua beleza tinha algo de etéreo — uma aparência doce que contrastava com a segurança silenciosa da postura e tornava difícil desviar o olhar. Eduarda usava um vestido branco justo, com um decote profundo que descia quase até o umbigo, destacando os seios fartos e a cintura fina. A pele morena oliva estava levemente bronzeada pelas tardes passadas no clube. Os cabelos pretos, longos e cortados em camadas, emolduravam o rosto com movimento. Os acessórios dourados reforçavam o ar marcante. Seu olhar era firme e confiante, direto, sem suavidade. Assim que perceberam que todos estavam vestidos de preto, entenderam de imediato o que havia acontecido. Nos convites, havia apenas uma sugestão de paleta — branco, off-white e champanhe. Aquilo, obviamente, não era coincidência. Letícia se surpreendeu com tamanha infantilidade. Ao fundo, os cochichos começaram a se espalhar; a maioria murmurava que elas apenas queriam chamar atenção. Sentiu o peso dos olhares sobre si, mas não desviou o rosto. Eduarda percebeu antes mesmo que Letícia dissesse qualquer coisa — bastou o leve enrijecer do maxilar, o silêncio mais atento. Sem tocá-la, Eduarda se aproximou o suficiente para que apenas Letícia ouvisse. Sorriu de lado, cúmplice, e murmurou se não seria melhor irem embora. Letícia sustentou o olhar por um segundo a mais, respirou fundo e negou quase imperceptivelmente. Aquilo soava como um presságio da noite que estava por vir — e ambas sabiam disso. Antes que pudessem decidir entre entrar ou recuar, Pedro surgiu. Vestia calça branca e camisa com as mangas dobradas até os cotovelos; os três primeiros botões estavam abertos, evidenciando o escapulário de ouro que repousava sobre o peito. Ao notar todos vestidos de preto, fingiu surpresa e comentou, em tom brincalhão: — Parece que só erraram o convite dos Lários. A observação arrancou risos imediatos do salão. De todos — menos do trio de amigas, que trocou um olhar rápido e silencioso. Elas sabiam bem que o convite de Pedro não havia sido erro algum. Acontece que Pedro saíra de casa pouco depois das garotas e, ao se despedir da mãe, foi questionado por estar de preto, já que a paleta de cores havia sido definida pelos anfitriões. Ela ainda brincara: disse que sabia o quanto ele não gostava desses eventos, mas pediu que não fosse um estraga-prazeres. Bastou isso para que ele entendesse o que estava acontecendo. Subiu as escadas correndo e, em menos de dez minutos, já estava no carro. Acelerou, acreditando que, se chegasse a tempo, ao menos diminuiria o constrangimento das duas. Com um sorriso aberto, Pedro comentou que não queria estragar a harmonia do evento e que, se preferissem, poderiam ir embora. A maioria gesticulou imediatamente que não era necessário. A voz de Carla se sobressaiu às outras: — Imagina, Pedro. Com certeza foi um erro de envio. A Melissa deve não ter prestado atenção. Melissa sorriu sem graça. Não era ela a responsável pelos convites, mas já estava acostumada a receber a culpa de Helena e Carla sempre que isso lhes fosse conveniente. Pedro entrou no meio das duas e pousou as mãos de leve em suas costas, um gesto discreto, quase protetor, apenas o suficiente para tirá-las daquele estado estático diante da porta. Inclinou-se entre elas e murmurou, baixo: — Quanto mais vocês ficarem paradas aqui, mais todo mundo vai continuar encarando. Em seguida, elevou a voz, casual, para que todos ouvissem: — Vamos pegar algo pra beber. Já no bar, Pedro pediu apenas uma água. Eduarda, um dry martini. Letícia, sem hesitar: — Um uísque duplo. O copo mal tocou o balcão e Letícia virou tudo de uma vez só. Pedro arregalou levemente os olhos; Eduarda arqueou a sobrancelha e lançou um olhar rápido para ele, do tipo viu isso?. Letícia percebeu os dois ao mesmo tempo. — Pra aguentar isso aqui hoje… — disse, apoiando o copo vazio no balcão — eu vou precisar. Não chegou a terminar a frase. — Letícia… A voz de Helena surgiu atrás dela, doce demais para ser inocente. Letícia ainda estava de costas, mas virou o rosto para Pedro e Eduarda com uma expressão que dizia claramente viram do que eu estava falando?. Pedro respondeu com um meio sorriso tenso; Eduarda apenas revirou os olhos, contida. Sem se virar para Helena, Letícia se apoiou no balcão e falou para o barman, com calma cirúrgica: — Outra dose, por favor. — Ainda bem que eu pedi água. Eduarda sorriu de canto. — Alguém precisa estar sóbrio aqui. — Exatamente, — completou ele, lançando um olhar rápido para Letícia O segundo copo chegou. Letícia o pegou, ergueu-o levemente na direção dos dois, num brinde torto, e passou entre eles, balbuciando com um meio sorriso: — Cheers. Deu um passo à frente. Depois outro. O som ao redor parecia distante demais. Os cochichos, mais baixos. O ar, denso. Então, finalmente, Letícia virou-se para trás. — Tudo bem, Helena? — disse em tom curto, controlado, educado demais para ser gentil. E naquele instante, antes mesmo que qualquer palavra fosse dita, todos ao redor entenderam: a noite ainda não tinha começado de verdade.






