A Cópia Perfeita

A cena era caótica — ou talvez fosse apenas dentro de Letícia. O olhar de André cravou-se nela como uma sentença. Não havia dúvida: se olhares matassem, ela não teria tempo nem de reagir.

Helena, sentada à direita dele, impecável em um vestido mídi azul-petróleo, os cabelos loiros cuidadosamente modelados, não dizia uma palavra. Ainda assim, seus olhos ardiam. Letícia sentia aquele fogo sem precisar encará-la diretamente — era um peso no ar, sufocante. Silvia, de costas para ela e de frente para André, parecia não notar nada, e isso tornava tudo ainda mais absurdo.

Foi quando Silvia percebeu. O silêncio prolongado, o olhar fixo demais, a tensão que não precisava ser dita. Ao se virar, seus olhos encontraram Letícia — e, por um instante, ela pareceu tão imóvel quanto o resto do ambiente.

Letícia mal teve tempo de organizar os próprios pensamentos. Saiu do transe ao ouvir o grito de alegria e ver os braços abertos vindo em sua direção. Silvia se aproximava com um sorriso largo, genuíno, completamente alheia ao clima pesado que engolia o lugar.

— Letícia, meu bem… há quanto tempo, meu Deus. Que alegria te ver. Como consegue, depois de tantos anos, estar ainda mais linda?

Silvia falava sem fôlego.

— E essa menina… meu Deus… que menina linda é essa? Como pode se parecer tanto com você? Parece que estou te vendo criança outra vez.

Enquanto ouvia aquilo, André não precisou desviar o olhar para saber que a comparação era verdadeira. Das poucas imagens de Luísa às quais tivera acesso — sempre por meio de postagens de pessoas conhecidas —, a semelhança com a mãe era inegável. Letícia ele conhecera pessoalmente, ainda menina; Luísa, porém, era como vê-la repetida no tempo.

As fotos chegaram até ele de forma totalmente não intencional, embora uma lembrança específica ainda o incomodasse. A única vez em que buscara, por conta própria, alguma informação sobre a vida de Letícia e Heitor, arrependera-se amargamente. Vira um post recente: os dois exibiam tatuagens feitas um para o outro.

A ironia o atingira em cheio. Letícia — a mesma que lhe dissera não ver sentido algum em marcar a pele para sempre, sem chance de arrependimento. E agora estava ali, marcada — como uma mercadoria — por outro.

Antes que Letícia tivesse tempo de responder, Luísa adiantou-se com um sorriso aberto, voltando-se para Silvia:

— Olá, senhora. Eu me chamo Luísa. É um prazer conhecer uma amiga tão linda da mamãe.

Silvia levou a mão ao peito, visivelmente encantada. Não era exagero da menina: mesmo tendo passado dos cinquenta, Silvia estava mais bonita do que nunca. Elegante, segura, dona de uma presença difícil de ignorar.

— Meu Deus… além de linda, é doce e bem-educada. Um anjinho. Igual à mãe.

Letícia sorriu de leve. Seus olhos, porém, permaneciam fixos em Silvia, como se, naquele instante, todo o resto tivesse deixado de existir. As duas pessoas sentadas à mesa pareciam invisíveis.

André já havia percebido o incômodo de Helena e desviara o olhar. Ainda assim, não conseguiu conter o leve escurecer da expressão ao ouvir Letícia completar, num riso cúmplice:

— Mas não se deixe enganar por essa carinha, viu? A Luísa vale por cinco crianças… puxou ao pai.

Foi como um soco no estômago.

André sentiu o impacto no mesmo instante em que Helena deixou escapar um sorriso discreto, satisfeito.

Silvia, alheia a tudo, sorriu de forma saudosa:

— Ah… Heitor Medeiros. A fama o precede.

Puxou ao pai.

André engoliu seco.

Por que aquela mulher dizia isso na frente dele? E ainda por cima diante da própria mãe? Era provocação? Queria esmagá-lo ali mesmo? E Silvia elogiava Letícia diante de sua esposa — não havia um pingo de consideração?

Todos esses pensamentos atravessavam sua mente, mas ele permaneceu em silêncio.

Após alguns segundos observando a carinha travessa de Luísa, Silvia comentou, rindo:

— Que engraçado… Luísa é a sua cara. Mas esse sorrisinho de quem aprontou me lembra alguém… mas quem?

Antes que pudesse concluir o raciocínio, Helena — que até então guardara todo o seu veneno — resolveu falar:

— Carinha de anjo, mas atitudes de diabinha. No final, não é só a fisionomia que sua filha herdou de você, Letícia.

Fez uma pausa curta, calculada.

— Parabéns. Reproduziu uma cópia perfeita.

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