Mundo de ficçãoIniciar sessãoFazendo um contraste perfeito com o almoço harmonioso de Letícia e Eduarda, André se levantou assim que elas saíram do campo de visão deles.
— Vamos embora. Deixo você em casa primeiro, depois deixo minha mãe e sigo para o escritório — disse, já impaciente. Helena ainda manteve o ar magoado por alguns segundos, mas por dentro estava satisfeita. Conhecia bem o marido e sabia que aquilo não era à toa. André não gostava de confronto, mas também não deixava certas coisas passarem — só precisava de um empurrão. E, nesse ponto, Helena sempre fora eficiente. Enquanto caminhava ao lado dele, pensou na sogra. André a idolatrava, fechava os olhos para quase tudo. Mas Helena sabia: ele não brigaria, não levantaria a voz… mas fazê-lo confrontar a tão idolatrada mamãe era a sobremesa perfeita para aquele almoço. Ela respirou fundo, quase sorrindo. Às vezes, vencer não fazia barulho. Logo após Helena sair do carro e entrar pelo portão, Sílvia, que até então permanecera em um silêncio sepulcral, quebrou o mutismo: — André, não se dê ao trabalho. Educar é papel da mãe para o filho, e não o contrário. André franziu o cenho, mantendo os olhos fixos na estrada. — Será que já chegamos à idade de inverter os papéis, dona Sílvia? O que foi aquilo no restaurante? A senhora claramente desrespeitou Helena… e ainda a provocou, convidando aquela mulher para ir à sua casa. Ele respirou fundo, tentando manter o tom controlado. — Mãe, você precisa respeitar Helena. Isso não vem acontecendo. Consegue imaginar como ela está se sentindo? Além do mais, você também me desrespeitou. Eu não esperava sequer estar no mesmo ambiente que Letícia, muito menos ouvir um convite para um chá de amigas. Existem limites… e hoje eles foram ultrapassados. O silêncio que se seguiu foi pesado. Sílvia não respondeu de imediato. Apenas olhou para o filho, como se o estivesse vendo pela primeira vez. Dessa vez, não conteve o que sempre pensara. — Você acredita mesmo que Helena é tão frágil assim, André? — disse, fria. — Ela foi capaz de dirigir ofensas a uma criança na sua frente, sem o menor medo de ser repreendida. Porque sabe que tem você preso a essa culpa eterna. Ela respirou fundo antes de continuar: — Não é possível que você vá ficar preso para sempre naquele dia, naquele maldito acidente. Ou talvez seja mais fácil se agarrar a essa culpa do que admitir que perdeu Letícia por ter sido um idiota. — Chega! — gritou André. A palavra cortou o ar como um estalo. E, naquele instante, Sílvia soube: tinha ido longe demais. Ela já havia cruzado a linha — e não pretendia voltar atrás. — Helena não pode engravidar por causa do acidente — disse, num tom quase casual. — É triste, meu filho, eu sei. Mas isso é motivo suficiente para você se martirizar para sempre? André sentiu o estômago revirar, mas ela continuou, implacável: — Ela nunca foi uma boa pessoa, André. E não é porque algo ruim aconteceu com ela que vai mudar quem ela é. Às vezes — acrescentou, fria — vendo tudo assim, esse apego doentio, essa dependência… talvez perder a criança tenha sido a melhor coisa que aconteceu a ela. O carro parou de repente. André virou-se para a mãe com os olhos em chamas, a respiração descontrolada. Por um segundo, pareceu que não encontraria palavras. — Você nunca mais — disse, cada sílaba pesada — nunca mais fale assim. Nem dela, nem do que aconteceu. Nunca mais. Sílvia sustentou o olhar, orgulhosa demais para recuar. Mas naquele instante André soube: algo tinha se quebrado de um jeito que não teria conserto. O carro reduziu a velocidade ao se aproximar do portão da casa de Sílvia. André estacionou com cuidado, desligou o motor e ficou alguns segundos em silêncio, como se precisasse se recompor. — Chegamos — disse, sem olhar para ela. Sílvia ajeitou a bolsa no colo, esperando algo mais. Um pedido de desculpas, talvez. Ele não veio. — Acho melhor a gente encerrar essa conversa por aqui — continuou André, agora mais calmo, porém distante. — Hoje não vai sair nada de bom disso. Ela o encarou, surpresa com o tom contido. — Você está me pedindo pra sair do carro? André finalmente virou o rosto. O olhar era firme, cansado. — Estou pedindo pra você ir pra casa. A gente conversa outra hora… se for possível. Sílvia segurou a maçaneta por um instante, hesitando. Pensou em se desculpar, apesar de acreditar em cada palavra que havia dito. Ela desceu do carro. O portão se abriu lentamente e, antes de entrar, olhou para trás. André já tinha ligado o motor. Sem despedidas, ele partiu.






