Mundo ficciónIniciar sesiónComprei um marido na internet. Parecia uma boa ideia na hora do desespero. Prazo: 30 dias para casar ou perder 20 milhões. Candidato: Theo, 29 anos, nenhuma foto, respostas curtas. Aceitei. Casei. A herança está garantida. Só não contava com os detalhes: Theo não tem sobrenome. Theo não tira a jaqueta de couro nem para dormir. Theo verifica portas e janelas como quem foge de alguém. E agora, num jantar de família, um convidado acabou de chamá-lo por outro nome. Um nome que não está na certidão de casamento. Um nome que, segundo a internet, pertence a um homem morto. — Você não vai perguntar de onde eu vim? — Você vai responder a verdade? — Não. Casei com um estranho. Ele é um foragido. E o pior: acho que estou começando a gostar dele.
Leer másEu ia vender meu casamento antes mesmo de ter vivido um.
Foi o primeiro pensamento que me veio à cabeça quando acordei, às 3h17 da madrugada, com o gosto amargo de ansiedade na boca.
Mas não. Vender não era a palavra certa. Eu não ia vender nada. Eu ia comprar um marido. Como quem compra uma geladeira usada na OLX: com desconfiança, parcelado e com grandes chances de dar defeito em três meses.
O despertador tocou, mas eu já estava acordada há quarenta minutos, contando as rachaduras do teto e tentando ignorar o aperto no peito que vinha se tornando meu único companheiro de quarto.
O Lucas estava dormindo no quarto ao lado. Eu sabia que ele dormia porque não ouvia os gemidos baixos que ele tentava esconder de mim durante a madrugada. Só o som pesado de uma respiração exausta, arrastada, como se cada inspiração custasse uma moeda que ele não tinha mais.
Minhas pernas doeram quando sentei na cama. O taco do chão rangeu sob meus pés descalços quando me levantei. Eu fazia aquela rota todas as noites. Dez passos até a cozinha. Abrir o armário de MDF que já estava descascando nos cantos. Pegar os frascos na ordem exata, sem precisar ler os rótulos.
Dexametasona. Ondansetrona. Omeprazol.
Nomes que eu nunca soube pronunciar direito antes do diagnóstico e que agora saíam da minha boca como uma segunda língua.
Eu encostei na pia por um segundo, só um segundo, e fechei os olhos. O cansaço não era só do corpo. Era de fingir. Fingir o dia inteiro que eu estava no controle, que as contas iam se pagar, que o tratamento ia dar certo, que eu não estava morrendo de medo.
Minhas pálpebras pesavam. Naquele dia, especificamente, eu tinha passado onze horas fora de casa.
De manhã, uma reunião com um cliente que desistiu do projeto de reforma no meio da conversa. "O orçamento ficou alto, Isadora. A gente vê no próximo semestre." Não ia ter próximo semestre. Eu já tinha perdido três clientes nos últimos dois meses. O escritório, que nunca foi grande, agora era só eu e uma carteira vazia.
Depois, três horas no hospital. O Lucas fez a segunda sessão de quimioterapia da semana. Ele riu de uma piada que a enfermeira contou – uma piada sem graça, mas ele riu, e aquilo doeu mais do que qualquer olhar de dó que eu já tivesse recebido. Era o jeito dele de dizer "estou bem" sem usar as palavras.
No meio da tarde, uma ligação do banco. O empréstimo consignado estava com duas parcelas atrasadas. A atendente foi educada, mas aquela educação doía mais que um xingamento. Ela disse "senhora, precisamos regularizar" com uma voz tão doce que parecia melado. Eu disse "sim, semana que vem" sabendo que era mentira.
Agora eram 3h20. A madrugada cheirava a remédio e desespero disfarçado.
Entrei no quarto do Lucas com os frascos na mão. A luz do poste lá fora entrava pela cortina fina, desenhando sombras no rosto dele. Parecia tão pequeno para dezessete anos. O cabelo, que antes era cheio e cacheado, agora caía ralo sobre a testa. O braço esticado sobre o cobertor tinha marcas roxas das agulhas.
Meu coração apertou. Sempre apertava.
— Lucas — toquei de leve no ombro dele. — Hora do remédio.
Ele mexeu a cabeça, resmungou alguma coisa, mas abriu os olhos. Os olhos ainda eram os mesmos. Brilhantes, vivos, um tom de mel que puxou à minha mãe. Era o que eu mais gostava nele. Os olhos.
— De novo? — resmungou, a voz grossa de sono.
— De novo.
— Parece que eu só vivo pra tomar remédio.
Sentei na borda da cama dele. O colchão gemeu. Coloquei os comprimidos na mão dele, um por um, e ele foi colocando na boca como quem engole pedras.
— Falta quanto tempo? — ele perguntou, depois de beber água.
— Pra quê?
— Pra acabar.
O silêncio entre nós durou três batidas do meu coração.
— Falta pouco — menti. — Você vai melhorar.
Lucas me olhou. Aquele olhar que sabia demais para alguém da idade dele. O olhar de quem já tinha visto a mãe ir embora, o pai sumir no mundo, e agora via a irmã definhando aos poucos também.
— Isa — ele falou devagar, como se estivesse ensaiando aquilo há dias —, e se a gente... parar?
Meu peito congelou.
— Parar o quê?
— O tratamento. Eu sei que tá caro. Eu sei que você não tá dormindo. Eu ouço você andando de um lado pro outro de madrugada. Eu sei que a gente não tem dinheiro. E eu tô cansado. Não é mais fácil...
— Não fala isso. — Minha voz saiu mais cortada do que eu queria. — Nunca mais fala isso.
Ele abaixou os olhos. Na penumbra, vi uma lágrima escorrer pelo rosto magro dele.
— Eu não quero ser um peso pra você.
Eu segurei a mão dele. A mão fria, os dedos finos, as unhas roxeadas.
— Você não é peso. Você é a única razão. — Apertei os dedos dele. — Eu vou dar um jeito. Sempre dei. Confia em mim?
Ele não respondeu na hora. Ficou me olhando, procurando alguma coisa no meu rosto que justificasse a confiança. Eu não sabia se ele achou. Mas no fim ele assentiu, devagar, e fechou os olhos.
— Vou ficar bem — ele sussurrou, mais para si mesmo do que para mim.
— Vai.
Esperei ele pegar no sono de novo. Só então levantei, voltei para a cozinha, guardei os frascos no armário. Encostei as mãos na pia fria. Olhei para o relógio do micro-ondas: 3h46.
Amanhecia em algumas horas. Mais um dia de tentar. Mais um dia de quase.
O telefone tocou às 9h14 da manhã.
Eu estava na sala, com uma xícara de café que já tinha esfriado fazia uma hora, tentando recalcular um orçamento para ver se sobrava algum centavo para o aluguel que vencia na semana seguinte. Não sobrava.
O número não estava na minha agenda. Atendi com desconfiança.
— Alô?
— Isadora Mendes?
— Sou eu.
— Meu nome é Dr. Sérgio Alencar. Sou advogado. Represento o espólio de sua tia-avó, Guiomar Mendes.
Eu precisei de três segundos para processar. Guiomar. A tia-avó que eu via uma vez por ano, nas festas de fim de ano, que chegava com um periquito no ombro e falava sozinha. Ela tinha morrido?
— Meus pêsames — eu disse, automático. — Eu não sabia...
— Faleceu há duas semanas. Cremação foi restrita, como ela desejava. Mas o motivo do meu contato é outro. A senhora foi lembrada no testamento.
O coração deu um pulo. Lembrada. Testamento. Eu nunca tinha recebido nada de ninguém. A ideia de herança parecia coisa de novela das seis.
— Quanto? — saiu antes que eu pudesse filtrar. — Desculpa, eu não queria parecer...
— Não precisa se desculpar. É uma pergunta legítima. — Houve uma pausa. — A herança é de vinte milhões de reais.
Eu larguei a caneta.
Vinte milhões.
Não era possível. Gente como eu não recebe vinte milhões. Gente como eu conta moeda pra comprar pão. Gente como eu tem nome no Serasa e dorme com o estômago roncando. Vinte milhões era um número que eu só via em sorteio da Mega-Sena.
— Vinte... — minha voz saiu trêmula. — É sério?
— É sério. Sua tia-avó acumulou uma fortuna considerável ao longo da vida. Investimentos, imóveis, ações. Ela não tinha filhos. A senhora era a parente mais próxima.
Eu comecei a chorar. Não foi um choro bonito, de novela. Foi um soluço feio que saiu do fundo do peito, mas eu nem me importei.
Vinte milhões. O tratamento do Lucas. As contas. O aluguel. Poder comprar um tênis novo pra ele sem ter que parcelar em dez vezes.
— Isadora? A senhora está bem?
— Sim — eu engoli o choro, limpei o nariz com a mão, nem me importei. — Sim, estou. Muito bem. O que eu preciso fazer?
O silêncio do advogado durou dois segundos. Dois segundos que eu deveria ter percebido como um aviso.
— Há uma condição.
As palavras chegaram como água fria.
— Que condição?
— Sua tia-avó era... peculiar. Ela acreditava que o matrimônio é a base da maturidade feminina. O testamento é claro: para receber a herança integral, a senhora precisa estar casada até seu 28º aniversário.
O mundo parou.
— Até meu... o quê?
— Seu 28º aniversário. Que, segundo meus registros... — ouvi o som de páginas sendo viradas — ...ocorre daqui a trinta dias.
O concreto frio da parede do subsolo atravessava o tecido fino do meu blazer, espalhando uma sensação gélida pelas minhas costas. A dor em meus pulsos era constante, prensados sem piedade pela mão enorme de Gregório. O cheiro de suor, perfume barato e o mofo do lugar formavam uma mistura sufocante, fazendo meu estômago dar voltas dolorosas. A luz fluorescente acima de nós piscava em um ritmo doentio, projetando sombras dançantes sobre os rostos dos dois monstros à minha frente.Tentei puxar o ar, mas meus pulmões pareciam ter encolhido. O pânico subia pela minha garganta como uma maré alta, ameaçando me afogar.— Eu... eu só me perdi — forcei as palavras a saírem, a voz trêmula e arranhada, num desespero rasgado de quem tenta convencer a si mesma. Olhei nos olhos de Gregório, sustentando uma fachada frágil de confusão. — Eu estava procurando a saída de emergência... a porta do elevador travou. Eu não vi nada. Eu juro por Deus, eu não vi nada!Gregório soltou uma risada baixa, uma vibr
O ar na sala de arquivos parecia ter engrossado, transformando-se em algo tóxico, viscoso, que queimava ao entrar nos meus pulmões. O odor de mofo e fuligem deu lugar a uma fragrância pesada de perfume caro misturada ao cheiro acre do suor e do desejo cru que preenchia aquele canto escuro.Minhas mãos continuavam pressionadas contra os meus lábios com tanta força que senti o contorno rígido dos meus dentes contra a pele. Eu não piscava. Não conseguia mover um único músculo, imobilizada por uma mistura paralisante de horror e repulsa.Através da fresta estreita entre os armários de aço, o espetáculo grotesco continuava.Gregório Sterling.O homem que sentava à cabeceira da mesa do conselho com um ar de integridade inabalável, o padrasto que Victor relatou ter sido retratado como o pilar moral daquela família após a morte do seu pai. O marido de Eleanor. O pai de Daniel. Ele estava ali, ajoelhado no concreto imundo do subsolo, com as mãos grandes e aneladas cravadas com violência na car
O trajeto até o elevador de serviço pareceu durar uma eternidade. A cada passo que eu dava pelos corredores impecáveis do hospital, meu coração retumbava contra as costelas como um tambor de guerra. Minhas mãos suavam frio, e o leve enjoo ainda revirava o meu estômago. Engoli em seco, forçando a náusea para baixo. Eu não podia vacilar agora. Não quando estava a um passo de conseguir a única arma capaz de destruir a blindagem da família Sterling.Apertei o botão metálico e observei as portas se fecharem, isolando-me do som constante dos bipes e dos passos apressados das enfermeiras. O visor digital começou a descer, mergulhando nas entranhas do edifício.Subsolo 4.Quando as portas se abriram com um chiado mecânico, o ar que atingiu o meu rosto era denso, carregado de um cheiro acre de umidade misturado a fuligem. O silêncio ali embaixo era absoluto, quase opressor. Diferente da claridade estéril dos andares superiores, a iluminação do subsolo era precária, com lâmpadas fluorescentes p
A mão pesada de Victor continuava entrelaçada à minha, a palma quente trazendo um contraste reconfortante contra a minha pele ainda fria. O bip do monitor cardíaco preenchia o quarto em um ritmo finalmente constante, um som que nas últimas horas fora o meu único ponto de apego ao mundo real. Eu observava os detalhes do seu rosto, a sombra da barba por fazer, a palidez que aos poucos cedia lugar à sua cor natural, e me permitia, pela primeira vez no dia, soltar o ar que parecia preso no meu peito.Contudo, os olhos de Victor, perspicazes e analíticos mesmo sob o peso do cansaço pós-operatório, não se desviavam de mim.— Você está pálida, Isadora... — a voz dele saiu como um arranhão seco na garganta, baixa e pausada. O polegar dele subiu devagar, roçando a linha do meu maxilar com um afeto de quem tenta decifrar um mistério. — Seus olhos estão fundos e você está trêmula. Não tente me dizer que é apenas o cansaço da reunião no conselho. Tem algo mais acontecendo... Algo que você está gu





Último capítulo