O apartamento cheirava a café requentado e preocupação.Lucas ainda estava no sofá, o cobertor azul sobre as pernas magras, o celular apoiado na barriga. A televisão ligada num volume baixo, mas ele não estava prestando atenção. Estava me olhando.Desde que entrei, ele não tirou os olhos de mim.Sentei na ponta da poltrona rasgada, a certidão de casamento ainda dentro da bolsa, apertada contra meu peito como um segredo sujo.— Isa — ele começou, devagar —, você tá estranha desde que chegou. O que houve?— Nada.— Você sempre diz "nada" quando é alguma coisa.Respirei fundo. Ensaiei a frase na cabeça umas três vezes antes de abrir a boca.— Eu casei.O silêncio durou cinco segundos.— O quê? — Lucas endireitou o tronco no sofá, os olhos arregalados. — Casou? Com quem?— Com um cara. O Theo. A gente estava namorando há uns meses... — engoli em seco — ...e resolvemos dar um passo. Foi rápido, eu sei. Mas é pra valer.Mentira. Mentira deslavada, escancarada, suja.Mas o que eu podia dizer
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