CAPÍTULO 5

No dia seguinte, acordei antes do despertador.

Não que eu tivesse dormido. Tive aquela noite fragmentada de quem está prestes a fazer uma loucura – acordar a cada hora, olhar para o teto, relembrar cada detalhe do encontro, duvidar de todas as decisões da vida.

Theo sumindo no beco.

Theo dizendo "alguém está procurando por mim".

Theo com aqueles olhos cansados de quem já viu coisa demais.

E eu, Isadora, arquiteta falida, irmã superprotetora, prestes a casar com esse homem.

Que vida.

Olhei para o lado. O Lucas ainda dormia. Na noite anterior, ele teve febre – uma das malditas reações da transfusão. Passei horas ao lado dele, trocando pano frio na testa, ouvindo a respiração irregular. Só por volta das 4h da manhã ele conseguiu dormir de fato.

Eu não.

O despertador tocou às 7h. Eu já estava vestida.

Escolhi a roupa com cuidado. Não queria parecer uma noiva – Deus me livre – mas também não queria passar a impressão de que estava indo assinar um atestado de óbito.

Calça preta. Blusa branca. Um colar simples que minha mãe deixou. Batom – o mesmo da entrevista de emprego que eu não passei, mas isso não era culpa do batom.

Olhei no espelho.

Você vai casar hoje, Isadora.

O espelho não respondeu. Sábio.

Passei no quarto do Lucas antes de sair. Ele estava acordado, mexendo no celular com os olhos preguiçosos.

— Vai trabalhar? — perguntou, a voz rouca.

— Vou resolver um negócio. Volto à tarde.

— Que negócio?

Engoli seco.

— Documentos. Coisa de advogado. Chato.

Ele grunhiu, aceitando a resposta vaga. Desde o diagnóstico, ele tinha aprendido a não fazer perguntas demais. Eu tinha aprendido a não responder.

— Tem comida no micro-ondas — disse, pegando a bolsa. — A vizinha vem ver você ao meio-dia.

— Isa.

Parei na porta.

— Obrigado. Por tudo.

Não consegui responder. Apenas sorri – um sorriso que não chegou aos olhos – e saí.

O cartório ficava no centro, num prédio antigo de janelas altas e corredores que cheiravam a papel velho e burocracia.

Cheguei vinte minutos adiantada. Dessa vez, nem disfarcei: era estratégia. Queria ver ele chegar. Queria observar se ele repetiria os mesmos rituais de verificação do dia anterior.

Sentei num banco de madeira, perto da entrada. O movimento era calmo – duas senhoras registrando uma escritura, um casal jovem dando entrada no divórcio (trocavam olhares de ódio puro), um senhor reclamando do estacionamento.

O relógio de parede marcava 9h48.

9h52.

9h57.

E então ele apareceu.

Theo entrou como da outra vez: sem alarde, sem barulho. Mas seus olhos percorreram o recinto em dois segundos – saídas, janelas, pessoas, ângulos mortos. Achei que era coisa da minha cabeça, mas não era. Ele varreu o ambiente.

Depois me viu. Acenou com a cabeça. Atravessou a sala.

— Pontual — eu disse, levantando.

— Atraso pode custar uma vida.

— Isso foi dramático até para você.

Ele quase sorriu.

— Vamos?

O cartório era uma sala pequena no fundo do corredor. Um balcão de madeira escura, uma funcionária de meia-idade com óculos na ponta do nariz, uma pilha de pastas vermelhas e o cheiro de carimbo molhado.

A funcionária – Marlene, dizia o crachá – nos atendeu com a empolgação de quem está fazendo hora extra não paga.

— Documentos? — pediu, sem erguer os olhos da mesa.

Entreguei os meus. Theo entregou os dele.

Uma identidade. Um comprovante de residência (o endereço do Lucas, onde ele ainda não tinha pisado). Um CPF.

Dona Marlene examinou os papéis. Depois ergueu os olhos para Theo.

— O senhor não tem sobrenome no documento?

Meu coração parou.

Theo manteve a calma.

— Uso apenas o primeiro nome. É legal.

— É, é sim — Dona Marlene pareceu satisfeita —, mas é incomum. Vai constar apenas "Theo" na certidão. A senhora — virou-se para mim — está ciente?

— Ciente — ouvi minha própria voz dizer.

Não estava ciente de porra nenhuma. Quem não tem sobrenome? Pessoas escondidas. Pessoas com identidade falsa. Pessoas que dizem "alguém está procurando por mim".

Mas respirei fundo. Não era hora de perguntas.

Era hora de assinar.

Dona Marlene explicou os termos em voz alta, com a monotonia de quem repete a mesma ladainha há trinta anos.

"Casamento civil. Regime de comunhão parcial de bens. União formalizada perante o Estado."

Theo assinou primeiro. Pegou a caneta com a mão direita, mas hesitou um segundo – como se estivesse acostumado a usar a esquerda. Depois escreveu um nome só: Theo.

Traços firmes. Seguros. Quase bonitos.

Depois fui eu.

Minha mão tremia. Não de nervosismo – de noção da gravidade do momento. Estava assinando um contrato que amarrava minha vida à de um desconhecido que não tinha sobrenome e verificava saídas de ambientes fechados.

Mas pensei no Lucas. Na febre dele na noite passada. Nos vinte milhões.

Assinei.

Dona Marlene carimbou. O barulho seco do carimbo ecoou na sala.

— Estão casados — anunciou, sem emoção alguma.

Ela entregou a certidão. Duas vias. Uma para mim, uma para ele.

Olhei para o papel. Meu nome. O nome dele. A data. O selo oficial.

Eu era oficialmente casada com um homem chamado Theo.

Só Theo.

Saímos do cartório em silêncio.

A porta pesada bateu atrás de nós. O sol da manhã me cegou por um segundo. Theo colocou a certidão no bolso interno da jaqueta – com cuidado, como quem guarda um documento valioso. Ou perigoso.

Paramos na calçada. O movimento do centro fervilhava ao redor, mas entre nós havia uma bolha de silêncio constrangedor.

— Então — eu falei, quebrando o gelo —, estamos casados.

— Estamos.

— É estranho.

— Muito.

Nós nos olhamos. Um ônibus passou buzinando. Uma mulher com sacolas de mercado esbarrou em mim, pediu desculpas sem olhar para trás.

— Quando posso me mudar? — ele perguntou.

A pergunta caiu como um balde de água fria.

A verdade é que eu não tinha pensado nessa parte. Na parte em que um homem estranho – bonito, misterioso, perigoso – iria dormir no quarto ao lado do meu irmão doente.

— Hoje — respondi, antes que meu cérebro pudesse me convencer do contrário. — Preciso do comprovante de residência para o advogado. Quanto antes você estiver lá, melhor.

Ele assentiu.

— Vou pegar minhas coisas. Chego no fim da tarde.

— O apartamento é pequeno. Só avisando.

— Já morei em lugares piores.

— O Lucas não pode saber que é casamento falso.

— Então vou fingir bem.

— E... — hesitei —, não conte a ele sobre... você sabe.

— Sobre o quê?

— Sobre alguém estar procurando por você.

Ele me olhou por um longo segundo. Seus olhos escuros pareciam estar calculando algo – riscos, talvez. Ou distâncias.

— Não vou colocar vocês em perigo — disse ele, firme. — Pode confiar.

— Eu não confio em ninguém.

— Pode confiar nisso, pelo menos.

Ele se foi como da outra vez.

Atravessou a rua sem olhar para os lados – não porque não tivesse cuidado, mas porque já tinha avaliado o trânsito antes de dar o primeiro passo. A cabeça virando levemente. Os ombros tensos. As mãos nos bolsos, mas os dedos se movendo lá dentro – como se estivessem prontos para agarrar alguma coisa.

Uma arma, pensei. Ele está pronto para pegar uma arma.

Fiquei na calçada até ele sumir na esquina. Depois respirei fundo e entrei de novo no cartório – tinha esquecido a bolsa no banco do corredor.

No caminho de volta, esbarrei com Dona Marlene. Ela carregava uma pasta e usava os mesmos óculos na ponta do nariz.

— Ah, a noiva! — ela exclamou, com um sorriso amarelo. — Ia mesmo falar com a senhora.

— Sobre o quê?

Ela baixou a voz, como se fosse compartilhar um segredo.

— Seu marido... ele não é daqui, né?

— Como assim?

— A identidade dele. O número de registro é de outro estado. Um lugar bem longe. E o papel... — ela fez uma pausa, coçando a orelha —, o papel é diferente. Selo diferente. Nada que impeça o casamento, não se preocupe. Tudo dentro da lei. É só... incomum.

Incomum.

Essa palavra voltou a ecoar no meu cérebro.

— Ele é de onde? — perguntei, tentando soar casual.

— Não posso revelar. Sigilo de documentos. Mas a senhora não perguntou a ele?

Não. Eu não tinha perguntado. E ele não tinha dito.

Agradeci a Dona Marlene, peguei minha bolsa e saí.

Na calçada, o sol parecia mais quente. O movimento do centro continuava igual, mas alguma coisa tinha mudado. Uma pulga atrás da orelha. Uma pequena chave virando dentro de mim.

No ônibus, a caminho de casa, segurei a certidão no colo.

Meu nome. O nome dele.

Só Theo.

Nenhum sobrenome. Nenhum nome do meio. Nenhuma filiação. Na coluna "nome do pai" e "nome da mãe", Dona Marlene tinha preenchido com um traço. Não informado.

Passei o dedo sobre o papel. Senti o relevo do selo.

Minha mão coçou para pegar o celular. Pesquisar. Digitar Theo no G****e. Ver o que aparecia.

Mas alguma coisa me segurou.

Se eu descobrisse algo agora – algo ruim, algo perigoso – o que eu faria? Anularia o casamento? Perderia os vinte milhões? Deixaria o Lucas sem tratamento?

Guardei o celular no bolso.

Apertei a certidão contra o peito.

Você não sabe quem ele é, uma voz disse dentro de mim. Você não sabe de onde ele veio. Você não sabe o que ele esconde.

Mas a outra voz – a mais alta – respondeu:

E daí? Vinte milhões. O Lucas. A escolha já foi feita.

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