Mundo ficciónIniciar sesiónCheguei quarenta minutos adiantada.
Não foi estratégia. Foi desespero puro. Não conseguia ficar em casa, andando de um lado para o outro, olhando para o relógio a cada trinta segundos. O Lucas tinha ido para o hospital fazer uma transfusão – uma vizinha se ofereceu para acompanhá-lo, e eu aceitei com um misto de alívio e culpa.
Então peguei o ônibus e vim.
O Café Cultura ficava na esquina da Praça das Flores, um lugar que tentava ser sofisticado, mas entregava a humildade nos detalhes: as mesas de madeira lascada, os guardanapos de papel reciclado, o mofo disfarçado atrás da cortina de renda.
Escolhi uma mesa perto da janela. Queria ver quem chegava.
Pedi um café que não consegui tomar. Fiquei girando a xícara, olhando para o relógio do celular, contando os minutos.
14:23.
14:31.
14:42.
Cada segundo era uma pequena morte.
O que eu estava fazendo ali? Esperando um desconhecido. Um desconhecido que não mandou foto. Que escreveu "por razões de segurança". Que provavelmente era um golpista ou pior.
Você pode ir embora agora, uma voz dizia. Finja que nada disso aconteceu. Dá um jeito de conseguir o dinheiro de outra forma.
Que outra forma? Vender o rim? O fígado? A dignidade já estava em liquidação.
14:47.
Eu ia embora. Ia pagar o café e ir embora. Desistir dessa loucura.
Levantei meio corpo da cadeira.
Foi quando a porta do café abriu.
Ele entrou como quem não quer ser notado.
Mas foi notado. Por mim. Pela atendente que parou de secar as xícaras. Pelo senhor no fundo que ergueu o olhar do jornal.
Theo era... complicado de descrever.
Bonito não era a palavra certa. Bonito é limpo. Bonito é leve. Ele não era leve.
Era bonito no sentido desconfortável. A mandíbula desenhada como corte de diamante, o nariz reto, a boca que não parecia saber sorrir. Cabelos castanhos desalinhados, como se ele tivesse passado a mão várias vezes sem vontade. Olhos cor de mel – mas um mel escuro, denso, que escondia alguma coisa no fundo.
E havia algo cansado nele. Não o cansaço de uma noite mal dormida. O cansaço de quem carrega peso há muito tempo. As olheiras não eram marcas de insônia. Eram trincheiras.
Ele vestia uma jaqueta de couro surrada, dessas que contam histórias sem dizer uma palavra. Jeans preto. Coturno. Parecia saído de um filme de ação de baixo orçamento. Ou de uma fuga.
Ele me encontrou com o olhar antes de dar três passos. Como se já soubesse exatamente onde eu estava.
Atravessou o café.
Sentou na minha frente.
Não pediu licença.
— Isadora.
Não era uma pergunta. Ele sabia.
— Theo — respondi, tentando parecer mais calma do que estava. — Eu imaginava que você fosse mais... antissocial.
Ele quase sorriu. Quase.
— Sou. Mas aprendi que é mais fácil resolver as coisas pessoalmente.
— Por razões de segurança?
O olhar dele mudou um milésimo de segundo. Um piscar de alerta. Depois voltou ao normal.
— Isso.
A atendente veio. Ele pediu um café preto, sem açúcar. Ela saiu. O silêncio entre nós durou tempo demais.
Ele me estudava. Eu o estudava de volta. Parecia um duelo de pôquer onde nenhum dos dois queria mostrar as cartas.
— Por que você não manda foto? — perguntei, direta. Não tinha paciência para joguinhos.
— Porque fotos deixam rastros.
— Rastros.
— Digitais. Metadados. Localização. Se alguém estiver procurando por mim, uma foto pode ser o fio que puxa o novelo.
Meu estômago deu uma cambalhota.
— Alguém está procurando por você?
Ele me encarou. Os olhos de mel escuro ficaram opacos.
— Não vou mentir para você. Sim. Alguém está. Mas não vou dizer quem, nem por quê. E não vai colocar você em perigo: esse é o meu problema. O seu problema é conseguir seu dinheiro. São mundos diferentes.
— Mundos diferentes que vão dividir o mesmo teto.
— Teto esse que você está me oferecendo, não é?
Ele tinha um ponto.
O café dele chegou. Ele bebeu um gole, sem pressa. O silêncio se alongou.
— Por que você? — ele perguntou, baixando a xícara. — Por que uma mulher bonita, jovem, com a vida pela frente, está comprando um marido na internet?
A pergunta pegou desprevenida.
— Bonita? Acho que você precisa de óculos.
— Evasiva também. Não respondeu.
Respirei fundo. Podia mentir. Podia inventar uma história de amor frustrado ou medo de ficar sozinha. Mas alguma coisa no jeito dele – na maneira como ele me olhava, como se já soubesse que eu estava escondendo alguma coisa – me fez querer dizer a verdade.
Ou parte dela.
— Meu irmão. Ele está doente. Leucemia. O tratamento custa caro, e eu estou falida. Uma herança vai resolver tudo. Vinte milhões. Mas tem uma condição: eu preciso estar casada até meu aniversário.
— Que é daqui a...
— Vinte e nove dias.
Ele assentiu devagar. Não demonstrou surpresa nem dó. Só processou.
— Por que o fórum? — continuou ele. — Por que não pediu ajuda a um amigo, contratou um ator?
— Que amigo? — minha voz saiu mais amarga do que eu queria. — Que ator? Você sabe quanto custa um ator para fingir casamento por um ano? Mais do que eu tenho. Mais do que eu posso pagar. E além disso... não quero que ninguém saiba. É humilhante.
— Humilhante é matar alguém por dinheiro. Isso aí é só triste.
Eu quase ri.
— Você tem um jeito estranho de confortar os outros.
— Não estou confortando. Estou constatando.
A conversa se alongou.
Ele perguntou sobre a rotina, sobre o Lucas, sobre os cuidados que ele precisava. Anotou mentalmente os horários de remédio, os dias de quimioterapia, as restrições alimentares. Parecia mais um enfermeiro estudando um prontuário do que um candidato a marido de aluguel.
Eu perguntei sobre ele. Pouco. O suficiente para parecer confiável.
— Tem família? — arrisquei.
— Tive. Não tenho mais.
— Por quê?
— Porque morreram.
O jeito seco, direto. Como quem arranca um band-aid de uma vez. Não era fingimento. A dor estava ali, no fundo daqueles olhos cansados, mesmo que ele tentasse esconder.
— Sinto muito — eu disse.
— Não precisa. Foi há muito tempo. Ou há pouco. Depende do dia.
Ele não explicou. Eu não insisti.
— E trabalho? O que você faz da vida?
Ele hesitou. A primeira hesitação real.
— Já fiz muitas coisas. Agora estou entre empregos.
— Entre empregos ou foragido?
Ele me olhou. Dessa vez, o quase sorriso veio completo – um canto da boca se erguendo, um traço de ironia.
— Um pouco dos dois.
Fechamos o acordo na calçada do café, depois que ele pagou a conta – insistiu, disse que era "parte do contrato não oficial".
Estávamos de frente um para o outro. O vento bagunçava o cabelo dele. O sol da tarde batia nas costas dele, criando uma silhueta que parecia mais sombra do que gente.
— Então está feito — eu disse, estendendo a mão. — Um ano. Quinhentos mil. Você finge que me ama, eu finjo que acredito. Nada de sexo, nada de envolvimento real, e você some no fim do contrato.
Ele apertou minha mão.
A mão dele era quente. Firme. Mas as pontas dos dedos eram calejadas – não de escritório, de luta. De arma? De sobrevivência?
— Combinado — disse ele.
Não soltou minha mão na hora. Me olhou mais um segundo, como se estivesse tomando uma decisão.
— Isadora — ele falou, mais baixo agora —, você não vai perguntar de onde eu vim?
A pergunta flutuou entre nós.
Olhei para ele. Para a jaqueta surrada. Para os olhos cansados. Para a mandíbula tensa. Para o jeito que ele posicionou o corpo de lado, como se estivesse sempre esperando um golpe vindo do ângulo morto.
— Você vai responder a verdade? — perguntei.
Ele sustentou meu olhar.
— Não.
— Então não pergunto.
Ele se despediu com um aceno seco. Virou as costas e começou a andar em direção ao ponto de ônibus.
Eu fiquei na calçada, observando.
Ele caminhava rápido. Determinado. Mas a cada poucos passos, a cabeça virava levemente para a esquerda, para a direita. Verificando. Sempre verificando.
Vi quando ele parou no ponto. Não pegou ônibus. Ficou ali, imóvel, por trinta segundos – contados por mim –, os olhos percorrendo o movimento da praça. Carros. Pessoas. Um vendedor de pipoca. Uma mãe com criança no colo.
Qualquer um veria uma cena comum de fim de tarde.
Ele via alguma outra coisa.
Depois, sem aviso, ele se moveu. Não para o ponto de ônibus. Para o outro lado. Atravessou a rua no meio do quarteirão, entrou num beco entre dois prédios, e sumiu.
Não foi embora.
Ele sumiu.
Como se tivesse ensaiado aquela fuga centenas de vezes.
Fiquei na calçada por mais um minuto, o coração batendo mais rápido do que deveria.
Vou casar com um estranho, pensei. Um estranho que sabe sumir no meio da multidão.
No fundo do beco por onde ele desapareceu, um vulto se moveu por um segundo.
Ou foi impressão.
Ou foi ele.
Olhando para trás.
Conferindo se alguém o seguia.







