Mundo de ficçãoIniciar sessãoEu deveria ter desconfiado pelo nome do site.
Resolve Tudo.
Nada que se chama "Resolve Tudo" resolve qualquer coisa. É igual buffet de aniversário que promete "tudo incluído" e falta o refrigerante.
Pois bem. Na manhã seguinte ao anúncio, acordei com 47 mensagens na caixa de entrada do fórum.
47.
Minha primeira reação foi surto. Minha segunda foi ansiedade. Minha terceira, depois de ler as primeiras cinco mensagens, foi desespero puro.
Porque 47 propostas de casamento falso significam 47 motivos para nunca mais confiar na humanidade.
Vou poupar vocês dos piores. Mas alguns eu não consigo guardar só para mim. Seria um desserviço à literatura.
Mensagem #7
Assunto: "proposta seria"
"Bom dia linda. Eu tenho 64 anos mas pareço de 45. Sou viúvo, aposentado, tenho casa própria e muita disposição. Posso mandar foto? Você é linda pelos traços do seu anúncio. Aceito os 500 mil mas quero encontros reais também se é que me entende."
Abaixo da mensagem, uma foto.
Um senhor de sunga fio dental, em pé na laje de casa, ao lado de uma churrasqueira suja de carvão.
Eu fechei a mensagem tão rápido que quase quebrei o mouse.
Não. Não. Não.
Mensagem #12
Assunto: "contrato"
"Oi, tudo bem? Me interessei pelo seu anúncio. Mas preciso que você pague 5 mil adiantados via Pix para eu poder fazer minha mudança para sua cidade. Assim que eu chegar a gente assina o contrato e começa o casamento. Confia que dá certo."
A mesma pessoa que escreve "confia" com todas as letras está pedindo Pix adiantado para um casamento falso.
Eu quase respondi com um "confia que te bloqueio". Mas me segurei. Dignidade. Estava com pouca, mas ainda tinha um fio.
Mensagem #19
Assunto: "Solução discreta"
"Sou casado há 12 anos, mas meu casamento é aberto. Minha esposa sabe de tudo. Podemos fazer um contrato de 6 meses apenas, pois vou me mudar para o exterior depois. Você é linda. Posso levar meus filhos nos fins de semana? Eles são bem educados."
Eu li três vezes para ter certeza de que não era pegadinha.
O cara queria levar os filhos no falso casamento.
Emocionante. Quase aceitei só pela coragem. Quase.
Mensagem #25
Assunto: "Para Isadora"
"Seu anúncio é um poema.
A solidão também é uma poesia.
Por que não escrevemos juntos nossa história?
Posso ser seu marido de verdade.
Não preciso do dinheiro.
Preciso do seu amor."
Anexo: uma foto dele segurando um violão e um gato preto no colo.
O gato parecia mais interessado no casamento do que ele.
Mensagem #31
Assunto: "Parceria"
"Topo o casamento. Mas tenho uma ideia de negócio. Podemos abrir uma empresa de aluguel de maridos falsos juntos. Você arruma as clientes, eu faço o atendimento. 50% para cada. O que acha?"
O que eu achava?
Que eu tinha acabado de criar um novo mercado de trabalho sem querer.
Mensagem #38
Assunto: "Sem título"
"Posso matar seu ex se precisar. Incluso no pacote."
Não tinha foto. Não tinha nome. Só isso.
Arrepiei. Denunciei. Bloqueei. Rezei.
Eram 9h47 da manhã. Eu estava exausta de ler mensagens e já tinha perdido a fé na humanidade três vezes.
A xícara de café estava vazia. O Lucas ainda dormia – as sessões de quimioterapia sempre deixavam ele moído no dia seguinte. A pilha de contas na mesa da sala olhava para mim como um tribunal me julgando.
Você realmente vai casar com um desconhecido? – elas pareciam perguntar.
Sim, eu pensava. Se ele tiver todos os dentes e não morar com a mãe.
Rolei a página. Faltavam ainda nove mensagens para ler. Nove. Eu já estava no limite.
Passei os olhos por cima. Mais golpes. Mais senhores. Mais fotos de sunga.
Até que cheguei na mensagem #42.
E tudo mudou.
De: Theo
Assunto: Casamento por contrato
"Bom dia, Isadora.
Li seu anúncio com atenção. Meu nome é Theo. Tenho 29 anos, sou solteiro, sem vícios, sem filhos, sem ex-mulheres problemáticas nem sogra inclusa.
Tenho boa aparência – não sou modelo, mas nunca assustei ninguém. Tenho disponibilidade imediata para mudança e não faço perguntas invasivas sobre sua vida particular.
Proposta: R$ 500 mil pelo ano de contrato, com 20% adiantados para despesas iniciais de locomoção e instalação. Exijo moradia inclusa – um quarto é suficiente. Discrição absoluta.
Não vou enviar foto agora por razões de segurança. Mas podemos nos encontrar pessoalmente. A senhora escolhe o lugar. Levarei documentos.
Aguardo sua resposta.
Theo"
Eu li uma vez.
Depois duas.
Depois três vezes.
A mensagem era... normal. Educada. Profissional. Sem foto de sunga, sem pedido de Pix adiantado, sem gato no colo, sem ameaça de morte.
O normal, depois de quarenta e uma mensagens bizarras, parecia extraordinário.
"Por razões de segurança" – o que significava isso? Quem não envia foto por razões de segurança?
Gente escondida. Gente com problemas. Gente que eu provavelmente deveria evitar.
Mas eu não estava em posição de escolher. Eu estava em posição de aceitar o menos pior.
Olhei para o calendário. 29 dias.
Olhei para a conta do hospital. Vencia amanhã.
Olhei para o quarto do Lucas. Ele ainda dormia, e eu podia ouvir, lá do fundo do corredor, a respiração cansada dele.
Eu vou dar um jeito, eu tinha dito.
Não disse que seria um jeito bonito.
Respondi o Theo em cinco minutos.
"Theo,
Seu perfil parece sério. O que me incomoda um pouco, porque gente séria demais geralmente esconde coisa pior que foto de sunga.
Dito isso, topo conversar.
Café Cultura, Praça das Flores. Amanhã, 15h.
Leve documento. Eu levo a vergonha na cara.
Isadora"
Apertei "Enviar" antes que minha ansiedade me convencesse do contrário.







