Mundo de ficçãoIniciar sessão
Eu ia vender meu casamento antes mesmo de ter vivido um.
Foi o primeiro pensamento que me veio à cabeça quando acordei, às 3h17 da madrugada, com o gosto amargo de ansiedade na boca.
Mas não. Vender não era a palavra certa. Eu não ia vender nada. Eu ia comprar um marido. Como quem compra uma geladeira usada na OLX: com desconfiança, parcelado e com grandes chances de dar defeito em três meses.
O despertador tocou, mas eu já estava acordada há quarenta minutos, contando as rachaduras do teto e tentando ignorar o aperto no peito que vinha se tornando meu único companheiro de quarto.
O Lucas estava dormindo no quarto ao lado. Eu sabia que ele dormia porque não ouvia os gemidos baixos que ele tentava esconder de mim durante a madrugada. Só o som pesado de uma respiração exausta, arrastada, como se cada inspiração custasse uma moeda que ele não tinha mais.
Minhas pernas doeram quando sentei na cama. O taco do chão rangeu sob meus pés descalços quando me levantei. Eu fazia aquela rota todas as noites. Dez passos até a cozinha. Abrir o armário de MDF que já estava descascando nos cantos. Pegar os frascos na ordem exata, sem precisar ler os rótulos.
Dexametasona. Ondansetrona. Omeprazol.
Nomes que eu nunca soube pronunciar direito antes do diagnóstico e que agora saíam da minha boca como uma segunda língua.
Eu encostei na pia por um segundo, só um segundo, e fechei os olhos. O cansaço não era só do corpo. Era de fingir. Fingir o dia inteiro que eu estava no controle, que as contas iam se pagar, que o tratamento ia dar certo, que eu não estava morrendo de medo.
Minhas pálpebras pesavam. Naquele dia, especificamente, eu tinha passado onze horas fora de casa.
De manhã, uma reunião com um cliente que desistiu do projeto de reforma no meio da conversa. "O orçamento ficou alto, Isadora. A gente vê no próximo semestre." Não ia ter próximo semestre. Eu já tinha perdido três clientes nos últimos dois meses. O escritório, que nunca foi grande, agora era só eu e uma carteira vazia.
Depois, três horas no hospital. O Lucas fez a segunda sessão de quimioterapia da semana. Ele riu de uma piada que a enfermeira contou – uma piada sem graça, mas ele riu, e aquilo doeu mais do que qualquer olhar de dó que eu já tivesse recebido. Era o jeito dele de dizer "estou bem" sem usar as palavras.
No meio da tarde, uma ligação do banco. O empréstimo consignado estava com duas parcelas atrasadas. A atendente foi educada, mas aquela educação doía mais que um xingamento. Ela disse "senhora, precisamos regularizar" com uma voz tão doce que parecia melado. Eu disse "sim, semana que vem" sabendo que era mentira.
Agora eram 3h20. A madrugada cheirava a remédio e desespero disfarçado.
Entrei no quarto do Lucas com os frascos na mão. A luz do poste lá fora entrava pela cortina fina, desenhando sombras no rosto dele. Parecia tão pequeno para dezessete anos. O cabelo, que antes era cheio e cacheado, agora caía ralo sobre a testa. O braço esticado sobre o cobertor tinha marcas roxas das agulhas.
Meu coração apertou. Sempre apertava.
— Lucas — toquei de leve no ombro dele. — Hora do remédio.
Ele mexeu a cabeça, resmungou alguma coisa, mas abriu os olhos. Os olhos ainda eram os mesmos. Brilhantes, vivos, um tom de mel que puxou à minha mãe. Era o que eu mais gostava nele. Os olhos.
— De novo? — resmungou, a voz grossa de sono.
— De novo.
— Parece que eu só vivo pra tomar remédio.
Sentei na borda da cama dele. O colchão gemeu. Coloquei os comprimidos na mão dele, um por um, e ele foi colocando na boca como quem engole pedras.
— Falta quanto tempo? — ele perguntou, depois de beber água.
— Pra quê?
— Pra acabar.
O silêncio entre nós durou três batidas do meu coração.
— Falta pouco — menti. — Você vai melhorar.
Lucas me olhou. Aquele olhar que sabia demais para alguém da idade dele. O olhar de quem já tinha visto a mãe ir embora, o pai sumir no mundo, e agora via a irmã definhando aos poucos também.
— Isa — ele falou devagar, como se estivesse ensaiando aquilo há dias —, e se a gente... parar?
Meu peito congelou.
— Parar o quê?
— O tratamento. Eu sei que tá caro. Eu sei que você não tá dormindo. Eu ouço você andando de um lado pro outro de madrugada. Eu sei que a gente não tem dinheiro. E eu tô cansado. Não é mais fácil...
— Não fala isso. — Minha voz saiu mais cortada do que eu queria. — Nunca mais fala isso.
Ele abaixou os olhos. Na penumbra, vi uma lágrima escorrer pelo rosto magro dele.
— Eu não quero ser um peso pra você.
Eu segurei a mão dele. A mão fria, os dedos finos, as unhas roxeadas.
— Você não é peso. Você é a única razão. — Apertei os dedos dele. — Eu vou dar um jeito. Sempre dei. Confia em mim?
Ele não respondeu na hora. Ficou me olhando, procurando alguma coisa no meu rosto que justificasse a confiança. Eu não sabia se ele achou. Mas no fim ele assentiu, devagar, e fechou os olhos.
— Vou ficar bem — ele sussurrou, mais para si mesmo do que para mim.
— Vai.
Esperei ele pegar no sono de novo. Só então levantei, voltei para a cozinha, guardei os frascos no armário. Encostei as mãos na pia fria. Olhei para o relógio do micro-ondas: 3h46.
Amanhecia em algumas horas. Mais um dia de tentar. Mais um dia de quase.
O telefone tocou às 9h14 da manhã.
Eu estava na sala, com uma xícara de café que já tinha esfriado fazia uma hora, tentando recalcular um orçamento para ver se sobrava algum centavo para o aluguel que vencia na semana seguinte. Não sobrava.
O número não estava na minha agenda. Atendi com desconfiança.
— Alô?
— Isadora Mendes?
— Sou eu.
— Meu nome é Dr. Sérgio Alencar. Sou advogado. Represento o espólio de sua tia-avó, Guiomar Mendes.
Eu precisei de três segundos para processar. Guiomar. A tia-avó que eu via uma vez por ano, nas festas de fim de ano, que chegava com um periquito no ombro e falava sozinha. Ela tinha morrido?
— Meus pêsames — eu disse, automático. — Eu não sabia...
— Faleceu há duas semanas. Cremação foi restrita, como ela desejava. Mas o motivo do meu contato é outro. A senhora foi lembrada no testamento.
O coração deu um pulo. Lembrada. Testamento. Eu nunca tinha recebido nada de ninguém. A ideia de herança parecia coisa de novela das seis.
— Quanto? — saiu antes que eu pudesse filtrar. — Desculpa, eu não queria parecer...
— Não precisa se desculpar. É uma pergunta legítima. — Houve uma pausa. — A herança é de vinte milhões de reais.
Eu larguei a caneta.
Vinte milhões.
Não era possível. Gente como eu não recebe vinte milhões. Gente como eu conta moeda pra comprar pão. Gente como eu tem nome no Serasa e dorme com o estômago roncando. Vinte milhões era um número que eu só via em sorteio da Mega-Sena.
— Vinte... — minha voz saiu trêmula. — É sério?
— É sério. Sua tia-avó acumulou uma fortuna considerável ao longo da vida. Investimentos, imóveis, ações. Ela não tinha filhos. A senhora era a parente mais próxima.
Eu comecei a chorar. Não foi um choro bonito, de novela. Foi um soluço feio que saiu do fundo do peito, mas eu nem me importei.
Vinte milhões. O tratamento do Lucas. As contas. O aluguel. Poder comprar um tênis novo pra ele sem ter que parcelar em dez vezes.
— Isadora? A senhora está bem?
— Sim — eu engoli o choro, limpei o nariz com a mão, nem me importei. — Sim, estou. Muito bem. O que eu preciso fazer?
O silêncio do advogado durou dois segundos. Dois segundos que eu deveria ter percebido como um aviso.
— Há uma condição.
As palavras chegaram como água fria.
— Que condição?
— Sua tia-avó era... peculiar. Ela acreditava que o matrimônio é a base da maturidade feminina. O testamento é claro: para receber a herança integral, a senhora precisa estar casada até seu 28º aniversário.
O mundo parou.
— Até meu... o quê?
— Seu 28º aniversário. Que, segundo meus registros... — ouvi o som de páginas sendo viradas — ...ocorre daqui a trinta dias.







