Capítulo 1 — Capítulo 1— Depois de um dia de trabalho, uma surpresa.
Graziele entrou em casa arrastando os pés, cada passo pesado como se carregasse o dia inteiro nas costas. O corpo curvado denunciava o cansaço, e o suspiro que escapou de seus lábios ao largar a bolsa no sofá parecia um desabafo contido há horas. Com um gesto brusco, tirou os sapatos, que caíram no chão com um som seco, e soltou os longos cabelos ruivos. As mechas deslizaram pelos ombros como uma cortina, escondendo por um instante o rosto marcado pela exaustão. Ela se afundou no estofado, fechou os olhos e deixou a cabeça pender para trás, desejando apenas o silêncio e o calor de um banho.
Mas a paz foi interrompida.
— Graziele… — A voz da mãe cortou o ar, suave mas firme, como uma lâmina que não sangra, mas fere.
Ela estava parada no corredor, braços cruzados contra o peito, o semblante sério. O olhar fixo transmitia algo que não se revelava por completo.
— Precisamos conversar. Eu e seu pai temos algo importante pra te dizer.
Graziele ergueu o rosto devagar, visivelmente cansada. A testa se franziu, e os olhos pesados de cansaço encontraram os da mãe, que a fitava com uma expressão indecifrável. Ela se endireitou no sofá, contrariada, os dedos tamborilando no braço do estofado.
— Mãe, tem que ser agora? — A voz saiu áspera, mais do que ela pretendia. — Tô exausta. Meu chefe tava impossível hoje. Só queria um banho e cama.
A mãe ajeitou a saia justa com um gesto automático, como se buscasse manter a compostura diante da tensão.
— Tem que ser agora, sim — respondeu, firme. — Vamos! Se converta nesse sofá, menina...
Nesse instante, Gustavo, o pai de Graziele, surgiu na sala. Os passos eram lentos, mas carregavam uma decisão silenciosa. O rosto trazia uma gravidade que fez o coração de Graziele acelerar. Ele passou a mão pelo queixo, hesitante, antes de falar.
— Como você e sua irmã já sabem… — começou, a voz baixa, pausada. O olhar buscou Débora, que vinha da cozinha com um copo d’água. Ela parou ao lado da mãe, ergueu uma sobrancelha e bebeu um gole, como se quisesse ganhar tempo.
— Sabemos o quê, pai? — perguntou Graziele, impaciente, os braços cruzados com força. — Só se a Débora souber. Até porque eu sempre sou a última a saber das coisas aqui nessa casa.
Gustavo suspirou, o som pesado preenchendo a sala.
— Ainda temos metade da casa pra pagar.
Graziele se levantou de súbito, o rosto corado de indignação. Ela sabia disso, por isso trabalhava duro todos os dias.
— Eu sei disso! É por isso que eu tô me matando de trabalhar! — A voz dela ecoou, vibrante. — Saio antes do sol nascer e chego agora, quase oito da noite!
O pai desviou o olhar, encarando o chão como se buscasse coragem nas linhas do piso. A mãe apertou as mãos uma contra a outra, nervosa. Débora mexeu nos cabelos, inquieta, o copo d’água tremendo levemente em sua mão.
— O problema não é só esse, filha… — Gustavo ergueu os olhos, finalmente encarando Graziele. — O que você ganha não é suficiente. Não dá pra pagar a casa e sustentar tudo aqui dentro. Eu e a sua mãe também não ganhamos muito... Mesmo juntando tudo, não é o suficiente.
Graziele avançou um passo, os punhos cerrados.
— Eu entendo, pai. Mas e a Débora? Ela trabalha só três horas por dia naquele escritóriozinho! Por que eu tenho que carregar tudo nas costas?
Débora bufou, largando o copo sobre a mesa com força. Cruzou os braços, o olhar estreito e cortante.
— Isso não é da sua conta! Eu faço a minha parte, sim!
— Ah, faz? — Graziele riu, amarga, inclinando o corpo para frente. — E que parte seria essa, hein? Ficar no celular o dia inteiro? Vocês tratam essa menina como se fosse de porcelana!
A mãe explodiu. A voz dela atravessou a sala como um trovão.
— Já chega! — Os olhos marejados brilhavam sob a luz fraca da sala, mas o tom era firme. — Chega dessa palhaçada! Vocês duas! — Ela respirou fundo, apertando o braço da filha mais nova como se quisesse contê-la. — Deixem o pai de vocês terminar de falar.
O silêncio caiu como uma cortina pesada. Graziele e Débora se entreolharam, os rostos tensos, os corações acelerados.
Gustavo se colocou entre as filhas, o rosto fechado, duro. Samara, no canto da sala, cruzava os braços e evitava encarar qualquer um deles. O silêncio pesava, como se todos esperassem por um golpe inevitável.
Ele respirou fundo, a voz firme, mas carregada de tensão:
— Eu... prometi uma de vocês a um homem.
Graziele arregalou os olhos, o choque estampado no rosto. Débora deixou o copo cair, a água se espalhando pelo chão. Samara fechou os olhos, uma lágrima escorrendo.
— Pai... — murmurou Débora, os olhos arregalados, a voz trêmula como se buscasse piedade. As mãos se ergueram até o peito, dedos crispados, num gesto teatral. — Está louco... Eu tenho noivo. O que vão pensar de mim?
Graziele estreitou os olhos, o sangue fervendo. Avançou um passo brusco, afastando a irmã. O toque foi firme, quase ríspido, denunciando a raiva contida.
— Chega de fingimento, Débora! — cortou o drama da irmã — Eu sei muito bem que você não é santa. Para de fingir na frente dos nossos pais!
Ela então girou o corpo, agora encarando o pai com intensidade. O peito arfava, os punhos cerrados ao lado do corpo, como se lutasse contra o impulso de bater na mesa.
— Eu não entendi direito... o senhor o quê?! — exclamou, avançando mais um passo, o rosto em chamas. — Você não pode estar falando sério!