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Capítulo 2 — Entregue pela própria família

O tempo pareceu parar. O clima ficou pesado naquele momento.

— O senhor o quê?! — Graziele repetiu, recuou um passo, como se tivesse levado um tapa invisível. Os olhos se arregalaram, a respiração curta, o coração martelando no peito. As mãos tremiam ao se erguerem, em um gesto de incredulidade. — Como assim prometeu uma de nós? O senhor tá brincando?

Gustavo não levantou os olhos. O olhar dele permanecia fixo em uma rachadura da parede, como se buscasse nela uma saída. A voz saiu baixa, quase arrastada:

— Não, eu não estou brincando. Esse homem é muito rico. É a única forma de a gente quitar essa casa de uma vez por todas. O nome dele é Don Ruan. Um homem influente... poderoso.

Graziele levou a mão à boca, os dedos pressionando os lábios como se quisessem segurar o nó que subia pela garganta. A pele formigava, o estômago se revirava em ondas de náusea.

— Isso não importa! — gritou, a voz embargada, o corpo inteiro vibrando. — O senhor quer vender a gente? Como se fôssemos... mercadoria? Essa casa virou o quê agora? Um açougue de carnes frescas?!

O silêncio cortou como lâmina. Gustavo permaneceu imóvel, os ombros tensos, a mandíbula travada e disse:

— Já está decidido. — disse, sem emoção. — E você será a escolhida, Graziele.

Graziele cambaleou um passo para trás, como se o chão tivesse cedido.

— Eu?!... Porque... Porque eu? — A voz falhou, um sussurro rasgado. — Me diga, Por quê tem que ser eu?... — Fez a pergunta novamente sem acreditar.

Samara, a mãe, ergueu o queixo e jogou os cabelos para trás, tentando vestir uma firmeza que não alcançava os olhos.

— Sim, você mesma. E por favor, pare de discutir com seu pai.

Graziele girou o corpo, apontando para a irmã com o dedo trêmulo.

— E a Débora, mãe?! Ela vive correndo atrás de homem por ai!... Traindo o Daniel várias e várias vezes! Por que ela não pode fazer isso? hum?

Débora, recostada na cadeira, ergueu lentamente os olhos. Um sorriso leve, quase preguiçoso, curvou seus lábios. Ela passou a ponta dos dedos pelas unhas pintadas, como se aquilo fosse apenas um espetáculo tedioso.

— Porque eu tenho namorado, Graziele. Sou comprometida com o Daniel, como você sabe. E nunca traí ele. — disse com desdém, a voz melosa. — Não posso dormir com outro homem se vou me casar com meu namorado daqui a um tempo.

Samara completou, erguendo o queixo ainda mais:

— Isso mesmo. A Débora tem alguém. E pare de falar que ela trai o namorado. Que inveja é essa agora, Graziele?

— Inveja?!... — murmurou, a indignação queimando nos olhos marejados. — Não é inveja, mãe! É a verdade. Sinto pena do Daniel.

Débora se irritou.

— Para de inventar mentiras, Graziele! Eu nunca traí o Daniel. Você só está com inveja de mim, como a nossa mãe disse.

— Sua peçonhenta mentirosa. — murmurou baixo mas o suficiente para a sua irmã ouvir. Ela ouviu, mas apenas ficou com os braços cruzados e o olhar de raiva.

Samara cruzou os braços, firme como uma sentença.

— Pare vocês duas! E já chega, Graziele! — Disse perdendo a paciência. — Além disso, Graziele... eu não quero entregá-la a um homem que não vai se casar com ela. Minha filha é uma mulher de respeito.

Graziele sentiu o chão sumir. O peito arfava, o ar parecia faltar. Ela buscou nos rostos ao redor algum traço de arrependimento, mas encontrou apenas frieza.

— E eu não sou? — sussurrou, a voz trêmula, quase sem força. — Eu sou a sacrificável? Só porque não tenho um namorado ou noivo posso ser jogada nos braços de um homem que eu nunca ouvi falar?

— Chega de drama. — Samara cortou, seca. — Entenda, minha filha, sua irmã não pode dormir com um homem se já tem alguém...

Gustavo desviou o olhar, desconfortável, os dedos se enroscando nervosos no braço da cadeira. Samara manteve-se firme, como uma rocha.

— Já está decidido. Agora vá tomar seu banho e descansar. Amanhã vamos levá-la até o hotel onde Don Ruan estará hospedado.

Graziele não respondeu. Ficou ali, parada, o rosto em chamas, sentindo o mundo desabar em silêncio. O que antes era apenas cansaço agora se tornava desespero.

Ela saiu da sala com passos pesados, pegou a bolsa com raiva e bateu a porta do banheiro. A água quente escorria pelo corpo, mas não levava embora a revolta; cada gota parecia ferver junto com a indignação.

Depois do banho, vestiu uma camisola branca e se jogou no sofá do quarto. Abraçou os joelhos com força, como se quisesse se proteger do mundo. O olhar perdido no teto refletia apenas vazio.

— Eu não acredito... — murmurou, a voz quebrada. — Me venderam. Como se eu fosse um objeto. Pra um homem que eu nem conheço...

Ela fechou os olhos, tentando conter as lágrimas que vinham em ondas, misturando raiva e tristeza.

— Não dá pra acreditar nisso... Não dá.

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