Ela reunia cada fio como se recolhesse fragmentos de si mesma, mas o que me chamou a atenção não foram as mãos, foram os olhos. Novamente, Rápidos, furtivos, tentando medir até onde eu estava observando.
— O que foi? — perguntei, sem pressa, a voz cortando o silêncio.
Ela desviou, voltou à tarefa. Fingiu que não tinha ouvido.
— O gato comeu sua língua? — insisti, inclinando-me para frente, um meio sorriso zombeteiro nos lábios.
Isabel parou por um instante, erguendo o rosto para mim com surpresa genuína. O olhar dela denunciava a estranheza. “Gato comeu sua língua” era uma gíria muito brasileira, que não fazia sentido ali, muito menos dita por alguém que supostamente era da laia de Gregor.
Por dentro, amaldiçoei a lembrança repentina. Alexei sempre cuspia essa frase para provocar Laura, e Laura, com aquela boca insolente, a repetia até o cansaço. Dois idiotas apaixonados que acabaram enfiando o mau hábito dentro da minha cabeça. E agora, eu era o idiota que tinha deixado isso esc