Meus passos soam como martelos nas tábuas do corredor e a governanta nem precisa olhar para saber quem caminha, pois o som já acorda antes mesmo da luz se espalhar. Ela se ergue do leito com o lençol ainda embolado nas mãos, os olhos arregalados, a face marcada pelo susto. Nunca vinha a esta ala da Mansão e isso, por si só, já dizia tudo aos servos que vivem com medo de meus humores.
— Sr. Bonanno. As palavras escapam dela pequenas, inúteis, como se um pedido pudesse anular o que eu sinto. Eu não respondo de imediato. Deixo meus passos ecoarem até o ponto em que o corredor se apaga e só resta o som do meu próprio fôlego. A presença dela me reprime por um instante, porque Ana sempre foi um ponto de calma na minha vida, uma lembrança de que alguém cuidou de mim quando eu era menor. Mas hoje não há calma que baste.
— Está tudo bem? Ela pergunta, como se esperasse uma resposta paternal. Sua voz é trêmula.
— Não está tudo bem. Eu digo, e cada sílaba rasga o ar com a precisão de um açoit