As velas novas já queimam quando empurro a porta do quarto. O cheiro de cera aquecida se mistura com o de um caldo leve e de pão tostado, como se o espaço inteiro tivesse sido limpo de sombras por um ritual silencioso. Rosália está sentada à mesa pequena, perto da janela, terminando o que Ana trouxe. Há migalhas miúdas no guardanapo dobrado, e, quando ela leva a colher à boca, fecha os olhos por um instante – um segundo inteiro de paz pousa nos cílios dela antes de desaparecer. É a cena mais simples do mundo, e ainda assim me prende. Eu não queria que prendesse. Mas prende.
A luz das velas deixa o quarto mais quente do que antes, e vejo melhor o que me incomoda desde que a encontrei: o corte na testa. A pele delicada interrompida por um traço vermelho-escuro, como uma assinatura de dor que alguém impôs sem meu consentimento. Eu não deveria me importar, e, no entanto, cada pulsar daquele ferimento bate dentro do meu peito. É um tambor mudo: por quê?
Aproximo-me devagar, não por receio,