A capela nos devolveu um silêncio novo desses que parecem esculpidos a mão, camada por camada, até virar pedra. Eu conheço silêncios. Alguns escondem e este anunciava. O que vinha agora não era sedução, era gramática de poder. E, ainda assim, não me iludo o poder sem cuidado é alergia letal. Eu cuido do que possuo, eu cuido do que assumo. Rosália é ambas as coisas.
A vela queimava em linha reta, quase teimosa, como se tivesse feito voto de não se apagar. No reflexo do metal que pendia no pescoço dela, a chama duplicou-se em duas luzes finas, dois riscos de fogo, duas possibilidades. Minha mão encontrou, de novo, a cintura. Não apertei mais do que o necessário, aprendi na infância que força que sobra vira ofensa. A outra mão subiu pela espinha, devagar, como quem faz leitura em Braille de uma história antiga que a pele não sabe dizer em palavras.
— Você acha que isso me torna dócil? Ela falou sem olhar para mim, mirando um ponto perdido na madeira do altar.
— Eu não quero docilidade,