Mundo ficciónIniciar sesiónEla achava que era só um contrato. Ele sabia que era destino. Lorraine sempre foi a filha invisível. Humilhada publicamente no dia em que ganhou a rosa vermelha – a flor da rejeição –, ela aprendeu cedo que não podia contar com ninguém. Até que Angelo Valenti, o temido Don da máfia siciliana, aparece com uma proposta: casamento político em troca de proteção e poder. Ela aceita. Três anos se passam. Três anos de um casamento frio. Três anos em que ele a protege de todos, mas nunca a toca. Três anos em que Lorraine se convence de que é apenas um contrato descartável. O que ela não sabe: Angelo não é apenas um homem. Ele é o Alfa Supremo de uma matilha ancestral. E desde o primeiro dia, seu lobo já a reconheceu como companheira destinada. Mas há um problema. Humanas raramente sobrevivem à marca de um Alfa. E Angelo não pode arriscar matar a mulher que seu coração – e seu lobo – escolheram. Então ele espera. Protege em silêncio. Observa de longe. Até que Lorraine, agora uma estrategista implacável que destruiu o império do próprio pai, pede o divórcio. O contrato está quebrado. O lobo não aceita. E Angelo Valenti vai ter que decidir: Deixá-la ir… ou finalmente reivindicá-la – mesmo que isso destrua tudo o que ele construiu.
Leer más✦POV: Lorraine✦
A música ecoava pelo salão como uma promessa de felicidade que eu sabia, no fundo, não ser para mim.
Vestidos de seda e ternos sob medida preenchiam cada canto do Palácio Ricci. Cristais pendiam do teto como lágrimas congeladas, refletindo a luz dos candelabros em mil fragmentos dourados. O cheiro de champanhe e flores frescas flutuava no ar, misturado ao perfume caro das famílias mais poderosas da máfia siciliana.
E eu estava ali. No centro de tudo. Como um peixe fora d'água que aprendeu a nadar em águas traiçoeiras.
— Está nervosa? — perguntou minha madrasta, sem esconder o sorriso de canto.
Não respondi. Apertei a embreagem prata entre os dedos e mantive o queixo erguido. Aos vinte e cinco anos, eu já havia aprendido que demonstrar fraqueza era o mesmo que assinar a própria sentença de morte naquele mundo.
O noivado de Bruno Ricci com uma mulher da família Valenti era o evento do ano. Não porque alguém se importasse com amor — aquela palavra não existia no vocabulário da Cosa Nostra —, mas porque alianças significavam poder. E poder significava sobrevivência.
Bruno era herdeiro de uma das cinco famílias mais antigas da Sicília. Trinta e cinco anos, cabelos escuros brilhando com óleo, sorriso ensaiado que nunca alcançava os olhos. Ele havia me cortejado por três meses. Flores. Jantares. Promessas que eu sabia serem vazias, mas que aceitei porque, na minha posição, recusar não era uma opção.
Eu era Lorraine.
Filha ilegítima de Giulio De Angelo, um Don decadente que nunca me reconheceu publicamente. Minha mãe foi sua amante por sete anos, até o dia em que cansou de esperar um anel e simplesmente desapareceu. Eu fiquei. Não por escolha, mas porque o sangue de Giulio corria em minhas veias, e na máfia, sangue é dívida.
Bruno me via como um prêmio secundário. Algo útil para agradar ao meu pai biológico, para ganhar acesso a territórios e negócios. Eu via Bruno como um meio de deixar de ser invisível.
Naquela noite, porém, algo estava errado.
Senti antes de ver. A forma como as pessoas desviavam o olhar. Os sussurros que morriam quando eu me aproximava. O sorriso de minha madrasta, largo demais, afiado demais.
— O que está acontecendo? — perguntei baixo, sem me dirigir a ninguém em específico.
Minha meio-irmã, Caterina, apenas deu de ombros com indiferença calculada. Ela sempre me odiou. Não porque eu tivesse feito algo, mas porque minha existência manchava a legitimidade dela aos olhos do pai.
O mestre de cerimônias bateu a bengala no chão três vezes. O silêncio se espalhou como óleo sobre água.
— Senhoras e senhores, é com grande honra que anunciamos o momento mais aguardado da noite. A escolha de Bruno Ricci.
Meu coração bateu uma vez. Depois outra. Depois parou.
Escolha?
Ninguém havia falado em escolha.
Bruno subiu ao pequeno palco montado no centro do salão. Lindo como um anjo caído. Perigoso como uma serpente bem alimentada. Ele carregava duas rosas em suas mãos — uma branca, uma vermelha.
O protocolo era antigo. Quase medieval. O homem entrega a rosa vermelha à mulher que deseja tomar como esposa. A rosa branca significa rejeição pública. Uma humilhação que atravessa gerações, que ecoa por décadas nos corredores do poder.
E eu vi, no momento em que seus olhos encontraram os meus, que a rosa vermelha não era para mim.
✦POV: Lorraine✦Os convites foram enviados numa terça-feira.Papéis de algodão branco, bordô e preto, com o brasão da família Valenti estampado em ouro no canto superior direito. Cada palavra foi escolhida a dedo, cada vírgula posicionada para transmitir poder sem arrogância, convite sem súplica."A Família Valenti tem a honra de convidar Vossa Excelência para um jantar em comemoração à união do Don Angelo Valenti e da Senhora Lorraine Valenti."No rodapé, em letras miúdas: *"Traje formal. Segurança pessoal limitada a dois acompanhantes."*A última linha era uma mensagem disfarçada. Uma declaração de que os convidados estariam em território Valenti. Nas minhas regras. Sob meu teto.Vittorio entregou os envelopes pessoalmente. Não confiaria a tarefa a ninguém menos.— Giulio recebeu o seu — informou, ao retornar. — Ele perguntou se poderia trazer a esposa e a filha.— Pode.— Bruno Ricci também respondeu. Quer saber se Perla Savino está incluída no convite.— Está.— A senhora tem cert
✦POV: Lorraine✦Na noite do sétimo dia, o silêncio voltou.Não o silêncio de Angelo — aquele tinha sido quebrado. Era o silêncio da casa. O silêncio que vinha antes das tempestades.Acordei no meio da noite com um calafrio.Não sabia o que havia me acordado. Um som? Um pressentimento? Algo nas bordas da consciência que gritava perigo?Levantei da cama.Vesti um roupão.Desci as escadas em silêncio, os pés descalços no mármore frio.O escritório de Angelo estava vazio. A biblioteca também. A sala de jantar, deserta.Mas havia luz no saguão principal.Uma luz que não deveria estar acesa.Aproximei-me devagar.Angelo estava encostado na parede, braços cruzados, olhando para a porta da frente.Não estava sozinho.Um homem estava ajoelhado diante dele. Terno rasgado. Rosto ensanguentado. Mãos amarradas nas costas.— Quem é? — perguntei.Ambos se viraram para mim.O homem ajoelhado tinha olhos arregalados, cheios de medo. Angelo tinha olhos dourados.— Volte para o quarto, Lorraine.— Quem
✦POV: Lorraine✦O silêncio de Angelo Valenti era diferente do silêncio de outros homens.Outros homens silenciavam por medo, por covardia, por falta do que dizer. O silêncio de Angelo era ativo. Era uma escolha. Uma arma.Ele usava o silêncio como outros usavam punhos ou palavras.E na semana seguinte à minha confissão — depois que ele descobriu meu plano de destruir Giulio, depois que se ajoelhou diante de mim, depois que disse "você não está sozinha" —, o silêncio entre nós se tornou ensurdecedor.Ele desapareceu.Não fisicamente. Angelo estava na mansão. Eu o via durante as refeições, o via passar pelos corredores, o via no escritório com as luzes acesas até altas horas.Mas ele não falava comigo.Não me ignorava ativamente — respondia quando eu fazia perguntas, atendia quando eu batia na porta do escritório. Mas suas respostas eram monossilábicas. Seu olhar passava por mim como se eu fosse uma sombra.O Alfa estava em silêncio.E eu não sabia por quê.— Ele está bravo? — perguntei
✦POV: Lorraine✦Dois meses depois, o império de Giulio De Angelo estava em frangalhos.As armas pararam de chegar. Os cassinos foram fechados um a um. As imobiliárias fantasmas entraram na mira das autoridades — uma denúncia anônima, bem formulada, entregue no Ministério Público.Giulio não sabia o que estava acontecendo.Ninguém sabia.Para o mundo exterior, parecia azar. Uma sequência de infortúnios que poderia acontecer com qualquer um.Eu sabia a verdade.Era eu.Cada movimento. Cada jogada. Cada ruína.Eu estava destruindo meu próprio pai.E não sentia absolutamente nada.— O Don quer falar com você — anunciou Vittorio, entrando no meu quarto sem bater. Algo que ele só fazia em emergências.— Sobre o quê?— Sobre o que a senhora andou fazendo nas últimas semanas.Meu coração disparou, mas meu rosto permaneceu impassível.— Onde ele está?— No escritório. E está… irritado.Desci as escadas em silêncio.Angelo estava atrás da escrivaninha, os olhos fixos em uma pilha de documentos.
Último capítulo