Mundo de ficçãoIniciar sessão✦✦POV: Lorraine ✦✦
O nome De Angelo nunca me pertenceu de verdade.
Eu aprendi isso antes de aprender a amarrar os sapatos. Antes de aprender a ler. Antes de aprender que o mundo não foi feito para pessoas como eu.
— Ela é só uma bastarda.
Foi a primeira frase que ouvi sobre mim mesma. Eu tinha seis anos e estava escondida atrás da porta da sala de meu pai — não, não meu pai, o homem que doou o esperma que me trouxe ao mundo. Giulio De Angelo conversava com seu consigliere naquele dia, e eu só queria saber se ele lembraria do meu aniversário.
Não lembrava.
Nunca lembrava.
Agora, vinte e quatro horas após a humilhação no Palácio Ricci, eu estava sentada no banco de couro preto de uma limusine que atravessava as ruas de Palermo. Angelo Valenti ocupava o banco à minha frente, imóvel como uma estátua, olhos fixos na paisagem urbana que deslizava para trás do vidro fumê.
Não trocamos uma palavra desde que saímos do salão.
A rosa vermelha ainda estava comigo. Eu a colocara dentro da meu relicário, com espinhos e tudo. Não sabia por quê. Talvez para lembrar. Talvez para nunca esquecer.
— Seu pai ligou — disse Angelo, quebrando o silêncio.
Minha espinha se endireitou automaticamente.
— Giulio não é meu pai.
A declaração saiu mais amarga do que eu pretendia. Angelo não reagiu. Apenas continuou olhando pela janela, como se o comentário fosse irrelevante.
— Ele ligou para exigir explicações. — A voz de Angelo era calma. Monótona. Assustadoramente controlada. — Quer saber com que direito eu pedi sua mão sem consultá-lo primeiro.
Ri. Um som seco, sem humor.
— Consultá-lo? Giulio nunca me consultou para nada. Por que começaria agora?
Finalmente, Angelo virou o rosto na minha direção. Seus olhos escuros me avaliaram da mesma forma que na noite anterior. Como se eu fosse um problema matemático complexo e ele estivesse resolvendo em sua mente.
— Conte-me sobre sua família.
Não era um pedido. Era uma ordem.
E o mais assustador era que eu queria obedecer.
— Minha mãe se chamava Kimi — comecei, surpreendendo a mim mesma. — Era japonesa. Veio para a Sicília para estudar arte. Conheceu Giulio em uma galeria. Ele já era casado. Ela não sabia.
As palavras saíam como água de uma barragem rompida. Coisas que eu nunca havia dito em voz alta para ninguém.
— Ele a engravidou. Prometeu que se separaria. Que construiria uma vida com ela. — Outra risada amarga. — Promessa de homem da máfia. Vale menos que o papel em que não foi escrito.
Angelo não interrompeu. Não ofereceu falsas simpatias. Apenas ouviu.
— Minha mãe esperou sete anos. Sete anos vivendo em um apartamento pago por ele, visitada nas caladas da noite, apresentada como "amiga da família" em eventos onde eu não podia chamá-la de mãe. — Minhas mãos tremiam. Apertei os dedos com força no colo. — Até que um dia ela simplesmente… foi embora.
— Deixou você? — A primeira pergunta de Angelo. Direta. Crua.
— Me deixou. — A dor ainda era fresca, mesmo depois de dezoito anos. — Disse que não podia mais viver na sombra. Que merecia mais. E ela merecia. Só que… no final, ela escolheu a si mesma. E eu fiquei.
Fiquei com o homem que nunca me quis. Com a madrasta que me tratava como empregada. Com a meia-irmã que me chamava de "aquilo" quando achava que eu não estava ouvindo.
— E nunca tentou encontrá-la? — perguntou Angelo.
— Não. — A resposta foi imediata. Final. — Ela fez a escolha dela. Eu fiz a minha.
Silêncio.
A limusine parou em um sinal vermelho. O motor roncava baixo, uma vibração constante sob meus pés.
— Você é mais forte do que aparenta, Lorraine De Angelo.
— Não sou De Angelo — corrigi, com os dentes cerrados. — De Angelo é o nome que me deram para lembrar que pertenço a alguém que não me quer. Prefiro não ter nome.
Angelo inclinou a cabeça. Seus olhos, pela primeira vez, pareciam ver algo além da superfície.
— Então como quer ser chamada?
A pergunta me pegou desprevenida.
Ninguém nunca me perguntara isso.
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