CAPITULO 5

✦✦POV: Lorraine ✦✦

A mansão Valenti era menos uma casa e mais uma fortaleza.

Muros altos. Câmeras em cada ângulo. Homens de preto circulando pelos jardins com uma precisão militar que beirava o sobrenatural.

A limusine atravessou dois portões eletrônicos antes de estacionar diante de uma escadaria de mármore branco. O prédio em si era antigo — séculos de história em cada pedra — mas a tecnologia que o protegia era de ponta.

— Bem-vinda ao seu novo lar — disse Angelo, abrindo a própria porta antes que o motorista pudesse fazê-lo.

Lar.

A palavra ecoou estranha em minha mente. Eu nunca tivera um lar. Tivera quartos. Tivera espaços alugados dentro de casas de outras pessoas. Mas nunca um lugar onde eu fosse mais do que uma intrusa tolerada.

— Acomode-se — continuou Angelo, subindo os degraus sem olhar para trás. — Amanhã discutiremos os termos do contrato.

Contrato.

Certo. Era isso que éramos. Um contrato. Um acordo de negócios entre um homem poderoso e uma mulher desesperada.

Por que, então, meu coração apertou ao ouvir aquela palavra?

Uma empregada — morena, olhos castanhos, aproximadamente quarenta anos — me aguardava no topo da escada. Ela curvou a cabeça em uma reverência que parecia mais respeito do que obrigação.

— Senhora Valenti, vou levá-la aos seus aposentos.

Senhora Valenti.

Outro nome que não me pertencia.

— Por favor, me chame de Lorraine — pedi, com um sorriso cansado.

A mulher hesitou. Seus olhos deslizaram na direção em que Angelo havia desaparecido.

— O Don prefere que a tratemos pelo título adequado.

Claro que prefere.

Não insisti. Já aprendera que naquele mundo, escolhas eram luxos que pessoas como eu não podiam pagar.

Os aposentos ficavam no terceiro andar. Uma suíte enorme, mobiliada com móveis antigos e tecidos caros. Uma cama de dossel. Uma lareira acesa. Flores frescas em um vaso de cristal.

Minhas malas — poucas, humildes — já estavam arrumadas no guarda-roupa aberto.

— Há um banheiro privativo à esquerda — informou a empregada, mantendo os olhos no chão. — Se precisar de algo, basta tocar o sino ao lado da cama.

Ela saiu antes que eu pudesse agradecer.

Fiquei sozinha.

O silêncio da suíte era ensurdecedor. Nenhum som de carros, de vizinhos discutindo, de crianças correndo. Apenas o crepitar da lareira e o bater distante do meu próprio coração.

Sentei-me na beirada da cama.

O relicário de prata ainda estava em minha mão. Abri o fecho. Tirei a rosa vermelha, agora murcha, as pétalas manchadas de sangue seco.

— O que você fez, Lorraine? — sussurrei para a flor. — O que você aceitou?

Não havia resposta.

Claro que não.

Havia apenas o silêncio e a vastidão daquele quarto e o peso de um contrato que eu ainda não havia lido.

Bati na porta do escritório de Angelo às onze da noite.

Não porque quisesse. Porque não conseguia dormir. A cama era macia demais, o quarto silencioso demais, a solidão familiar demais para ser suportável.

— Entre.

A voz dele atravessou a madeira grossa como se fosse papel.

Empurrei a porta.

O escritório era uma biblioteca particular. Paredes cobertas por livros antigos, capas de couro, páginas amareladas. Uma lareira maior do que a minha aquecia o ambiente. Angelo estava atrás de uma escrivaninha de mogno, óculos de leitura no nariz, examinando um documento.

Ele não usava o paletó. Apenas a camisa branca, mangas arregaçadas até os cotovelos, revelando antebraços musculosos e veias salientes.

— Não consegue dormir. — Não era uma pergunta.

— Não.

Ele tirou os óculos. Guardou-os em um estojo de couro.

— Sente-se.

Apontei a cadeira diante da escrivaninha. Angelo balançou a cabeça.

— Não ali. Aqui.

Ele apontou para o sofá de couro próximo à lareira.

Obedeci. Não porque era submissa — eu nunca fora —, mas porque naquele momento, exausta e desorientada, obedecer parecia mais fácil do que pensar.

Angelo se levantou. Caminhou até o sofá. Sentou-se na ponta oposta, deixando espaço entre nós.

Distância.

Sempre distância.

— Quer saber o que está escrito no contrato? — perguntou.

— Quero saber o que espera de mim.

Ele me estudou por um longo momento.

— Proteção. Discrição. Lealdade.

— E em troca?

— Meu nome. Meu império. Minha proteção.

— Nada mais?

— Nada mais.

A frase ecoou entre nós. Nada mais. Sem amor. Sem toque. Sem a expectativa de que algo entre nós fosse além do comercial.

— E se eu quiser mais? — testei.

Os olhos de Angelo escureceram. Por um momento, jurei ter visto algo selvagem brilhar em suas íris.

— Não queira, Lorraine.

A advertência foi suave. Quase gentil.

Mas por baixo da gentileza, havia algo duro. Algo que me dizia que aquele homem guardava segredos. Segredos que poderiam me destruir.

— Amanhã — continuou ele, retomando o controle —, você vai se encontrar com meu advogado. Vai assinar os documentos. E depois, vamos nos casar.

— Tão rápido?

— Não há motivo para esperar.

Não havia mesmo.

O que eu esperaria? Um pedido de namoro? Flores? Declarações?

Aquilo não era um romance. Era um acordo comercial.

E eu, Lorraine, filha de ninguém, nunca tivera o luxo de escolher.

Continue lendo este livro gratuitamente
Digitalize o código para baixar o App
Explore e leia boas novelas gratuitamente
Acesso gratuito a um vasto número de boas novelas no aplicativo BueNovela. Baixe os livros que você gosta e leia em qualquer lugar e a qualquer hora.
Leia livros gratuitamente no aplicativo
Digitalize o código para ler no App