CAPÍTULO 2

✦POV: Lorraine✦

O tempo desacelerou.

Bruno desceu do palco com passos firmes. A multidão se abriu diante dele como o Mar Vermelho diante de Moisés. Todos queriam ver. Todos queriam testemunhar a queda ou a coroação.

Eu não me movi.

Minha espinha permaneceu ereta. Meus olhos não piscaram. Por fora, gelo. Por dentro, um furacão de vergonha e fúria que ameaçava me consumir viva.

Ele passou por mim.

Bruno Ricci passou por mim como se eu fosse uma cadeira, um lustre, um objeto sem importância. Seu perfume amadeirado invadiu minhas narinas por um segundo, e então ele continuou andando.

Em direção a ela.

Perla Savino.

Loira, olhos verdes, quadrilhar de modelo. Filha legítima de um consigliere aposentado. Rica. Conectada. Aceitável.

Bruno parou diante de Perla. Sorriu — aquele sorriso que eu pensava ser meu. E estendeu a mão.

A rosa vermelha deslizou de seus dedos para os dela como se sempre tivesse pertencido ali.

— Perla Savino — anunciou Bruno, com voz que ecoou por todo o salão —, você aceita ser minha esposa?

Ela aceitou. Claro que aceitou.

O salão explodiu em aplausos. Palmas. Gritos de felicitações. Alguém abriu uma segunda garrafa de champanhe.

E eu fiquei ali. No meio de todo aquele júbilo alheio. Segurando a embreagem prata com tanta força que meus nós dos dedos embranqueceram.

Foi quando senti um toque em meu ombro.

Um dos criados — rapaz novo, olhos castanhos cheios de pena mal disfarçada — segurava uma bandeja de prata. Sobre ela, uma única flor.

Rosa vermelha.

A minha rosa.

Ele não disse nada. Não precisava. As regras eram claras. A rosa havia sido preparada para mim, mas não foi entregue. Agora eu a recebia como resto, como sobra, como lembrete de que nunca fui a primeira escolha de ninguém.

Tremendo — não de frio, mas de uma raiva tão pura que doía fisicamente —, estendi a mão e peguei a flor.

Os espinhos perfuraram minha pele. Gotas de sangue escorreram entre meus dedos, vermelhas como a própria rosa.

Ninguém notou.

Todos estavam ocupados demais celebrando Perla.

Eu olhei para o lado e vi minha madrasta sussurrando algo ao ouvido de Caterina. As duas riram. Olharam para mim. Riram mais alto.

Meu pai, Giulio De Angelo, estava encostado em um pilar próximo, um copo de uísque na mão. Ele me viu. Ele viu a rosa. Ele viu o sangue.

E desviou o olhar.

Naquele momento, algo dentro de mim se partiu. Não foi meu coração — isso já estava em pedaços há anos. Foi minha ilusão. A última, pequena, miserável esperança de que um dia alguém naquela família me enxergaria como mais do que um erro.

A música voltou a tocar. Mais alta. Mais alegre.

E eu fiquei parada, no meio da festa, com uma rosa ensanguentada na mão, sentindo o peso de todos os olhares que agora me encaravam.

Não com ódio.

Não com raiva.

Pior.

Com pena.

Como se eu fosse uma peça descartável. Algo quebrado que ninguém tinha coragem de jogar fora, mas que ninguém queria consertar.

Foi aí que eu decidi.

Naquela noite. Naquele momento. Com sangue escorrendo entre meus dedos e o som de aplausos para outro amor ecoando em meus ouvidos.

Eu nunca mais seria a coitada.

Eu nunca mais seria a filha ilegítima.

Eu nunca mais dependeria da boa vontade de homens que me viam como objeto.

— Senhorita De Angelo?

A voz era grave. Estranhamente calma em meio ao caos da celebração.

Virei-me.

Um homem estava diante de mim. Não alto como uma montanha, mas com uma presença que fazia as montanhas parecerem colinas. Terno preto impecável. Cabelos grisalhos nas têmporas. Olhos escuros que pareciam enxergar dentro da minha alma.

Ao lado dele, outro homem. Mais jovem. Postura de guarda-costas. Mãos cruzadas à frente do corpo.

— Angelo Valenti — o homem mais velho se apresentou, como se o nome explicasse tudo.

E explicava.

Angelo Valenti. Don da família Valenti. O homem mais temido de toda a Sicília. Diziam que ele nunca perdia. Diziam que ele nunca negociava. Diziam que ele já havia matado com as próprias mãos mais homens do que a peste negra.

— O que o Don Valenti quer comigo? — Minha voz saiu mais firme do que eu esperava.

Ele me observou por um longo segundo. Seus olhos percorreram meu rosto, a rosa ensanguentada, minhas mãos trêmulas. Não havia desejo em seu olhar. Nem pena.

Havia avaliação.

Como se ele estivesse diante de um diamante bruto, decidindo se valia a pena lapidar.

— Uma proposta — respondeu ele, simples assim.

E então, na frente de todos que haviam acabado de me descartar, Angelo Valenti estendeu a mão.

Não para me salvar.

Para me oferecer algo muito mais perigoso.

Vingança.

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