Mundo ficciónIniciar sesiónRiane sobreviveu vinte e dois anos na beira do Rio Negro sem saber o que era. Sem saber por que nenhum bicho fugia dela. Sem saber por que o toque da sua mão gelava a pele dos outros no calor de quarenta graus de Manaus. Quando Dona Nair, a única família que ela conheceu — cai morrendo com uma última ordem nos lábios, Riane descobre que a vida inteira foi uma mentira cuidadosamente guardada. E a verdade mora no Fundo da floresta. Lá, ela o encontra. O Alfa da Floresta Negra não captura por crueldade. Captura porque uma criatura sem cheiro dentro do seu território é impossível ou é uma ameaça mortal para sua alcateia. Mas quando ele a toca pela primeira vez, o impossível acontece de novo. O vínculo. Agora Riane está presa entre o que ela nunca quis ser e o homem que não vai deixá-la ir — não porque ela é sua prisioneira. Porque é sua companheira destinada. E três alcateias querem ela morta antes que ele descubra o que ela realmente é.
Leer másO maço de folhas de andiroba bateu na madeira crua da barraca com força demais.
O estalo seco cortou o ar úmido da feira, mas a mulher do outro lado da lona nem piscou. Eram seis da manhã em Manaus e o calor já grudava na pele feito cola. A blusa úmida colava nas minhas costas enquanto o cheiro de peixe frito da barraca vizinha se misturava com o amargo da copaíba que eu tinha tirado da sacola. — Tá com a cabeça onde, menina? — Dona Rita estalou a língua, segurando a sacola plástica como se eu fosse fugir com ela. — No preço do gelo, dona Rita. — Minha voz saiu arranhada. Apertei os olhos contra o sol que começava a queimar a calçada. — Dois reais de troco. Estendi as moedas. Quando o metal encostou na palma suada dela, nossos dedos se esbarraram. Dona Rita puxou a mão com um tranco bruto. As moedas bateram na lona e rolaram pro chão de terra. A velha recuou dois passos, esbarrando numa caixa de isopor rachada. A respiração ficou presa na garganta dela. — Credo, Riane... — Ela esfregou a mão na saia como se tentasse arrancar a própria pele. — Que diabo de frio é esse? Tu cruzou com defunto? Franzi a testa. O suor escorria pelo meu rosto, salgado e morno. Minha mão tava quente, fervendo debaixo daquele mormaço. — Deixa de visagem, dona Rita. Pega o troco. Ela não pegou. Virou as costas e sumiu no meio do corredor apertado da feira, murmurando reza em voz baixa. Ignorei as moedas no chão. Não era a primeira vez que alguém reagia assim ao meu toque. Tinha acontecido com o Seu Benedito da quitanda, três semanas atrás, quando eu ajudei a segurar uma caixa de manga e ele ficou olhando pra mão com uma cara de quem viu assombração. Tinha acontecido com a Marlene do mercadinho quando devolvi o troco e ela ficou com a mão suspensa no ar, parada, antes de sair andando sem dizer nada. Dona Nair sempre dizia que era coisa de gente ignorante. — Tu tem a mão fria porque tem sangue de benzedeira nas veias — ela falava, mexendo no cafezão requentado da manhã. — Não dá atenção não. Eu nunca acreditei muito nisso. Mas era mais fácil acreditar do que pensar nas outras opções. Estava arrumando os maços de tucumã quando senti. A pele atrás do pescoço formigou. Uma queimação insistente subiu até a raiz dos meus cachos volumosos. Não era o sol batendo na telha de zinco. Era peso. Aquele aviso físico, ruim, de que tinha um par de olhos cravado me observando. E não era olhar de bêbado da peixaria. Era um olhar que me media. Que calculava o espaço que eu ocupava. Pronto pra tomar tudo. Meus dedos travaram no ar. Virei devagar. A feira era um caos de movimento. Carrinho de mão rangendo, peixeiro gritando preço de tambaqui, música estourada numa caixa pirata. Varri o mar de gente. Nada. Ninguém parado. Ninguém me olhando. Mas a queimação não diminuiu. O calor desceu pras minhas costelas. A boca secou de um segundo pro outro, e um gosto amargo subiu na base da língua. O ar ficou pesado, quase faltando oxigênio num raio de vinte metros. Meus instintos nunca falhavam. Vinte e dois anos e eu só tava viva porque sabia escutar o corpo mandando recuar. Agarrei a lona da mesa. Num solavanco seco, puxei tudo de uma vez. As ervas, as raízes cortadas e os vidros de óleo desabaram pra dentro da sacola puída. — Já vai, Riane? — gritou o Zé da peixaria, limpando as mãos sujas de sangue no avental. — Nem armou a barraca direito! — Acabou o expediente. Joguei a alça da sacola no ombro e dei as costas pra rua principal. Não corri, porque presa que corre chama atenção. Mas andei rápido, cortando pelo meio das caixas de isopor empilhadas, desviando das poças de água barrenta. A cada passo, a pressão nas costas aumentava. A certeza física era uma só: se eu olhasse pra trás, ia dar de cara com um muro de músculos e sombra. O ponto de ônibus tava lotado e sufocante. Quando finalmente consegui me espremer dentro de um ônibus fervente, o motorista arrancou com um tranco. Me segurei na barra de ferro encardida e olhei pela janela riscada, encarando a calçada da feira que ficava pra trás. Por uma fração de segundo, no meio da multidão, eu vi. Um homem. Gigante. Os ombros largos demais pra pertencerem a qualquer pessoa normal no centro de Manaus. A pele cobreada absorvia a luz da manhã, e o rosto tava perfeitamente virado na direção do ônibus. A poeira escondeu as feições, mas os olhos... Dourados. Brilhando de um jeito impossível debaixo da lona rasgada de uma barraca de frutas. O ônibus virou a esquina com uma arrancada brusca, e a imagem sumiu engolida pelo trânsito. Apertei a barra de ferro até a mão doer. Engoli em seco. Coisa da minha cabeça. O calor derreteu meu juízo. Desci três paradas antes do normal. O formigamento na nuca já tinha sumido, mas o estrago no sistema nervoso tava feito. Fiz o resto do caminho a pé, cortando pelas ruelas que ninguém que não morava ali usava. Muro descascado com limo verde descendo das telhas. Portão de grade com ferrugem que enchia a mão. O som abafado de televisão vindo de uma janela aberta. Andava rápido, mas a cabeça não parava. Olhos amarelos não existem assim. E ninguém daquele tamanho some na multidão. Tava a dois quarteirões da minha rua quando parei. A janela da sala tava apagada. Fiquei parada na calçada, sacola pesada no ombro, olhando pra janela como se ela tivesse me dito alguma coisa errada em voz alta. Dona Nair nunca apagava a luz da sala antes do almoço. Era superstição, costume, lei da casa, o rádio ligado e a luz acesa desde que o dia clareava. Espanta coisa ruim, ela dizia sempre. E chama gente boa. Hoje a janela tava escura. Fui até o portão. O metal rangeu, raspando no cimento quebrado. A casa tava silenciosa. Um silêncio pesado e estranho, que não combinava com aquele lugar. O cheiro de café requentado e sabonete de lavanda bateu no meu rosto quando empurrei a porta da sala. Era o cheiro da minha vida inteira. Só que hoje, escondido sob o cheiro do café, havia aquele odor que costuma aparecer antes de uma tempestade. Cheiro de chuva pesada que ameaça cair e não cai. — Nair? Minha própria voz saiu fina demais no ar parado. Deixei a sacola de ervas escorregar pelo braço e bater no chão. O baque soou como um tiro na sala. Dois passos. O chão de taco gemeu sob os meus tênis. — Dona Nair, não brinca não que eu não tô com paciência pra... A minha garganta travou com tanta força que doeu. Dona Nair tava caída no meio da sala.Eu não dormi. Impossível apagar o cérebro quando o seu corpo sabe que virou caça. O colchão fino da cela fedia a mofo e suor seco, e a madeira de cedro da parede parecia encolher um palmo a cada hora que passava. Fiquei sentada no escuro, as costas apoiadas na quina fria do quarto, abraçando os joelhos. Em Manaus, a madrugada é barulhenta. Tem som de moto cortando giro na avenida, cachorro latindo pra sombra, sirene de polícia longe e brega calypso vazando de algum bar do porto. O barulho de gente te avisa que o mundo tá normal. Mas aqui, no meio daquela fortaleza engolida pelo mato, o silêncio era uma mentira absoluta. A mata não dorme. Ela só muda o turno dos assassinos. Fechei os olhos e fiz o que eu fazia desde piveta pra não surtar: comecei a mapear o espaço pelo som. Eu não precisava ver pra entender a rotina daquele lugar. A janela gradeada nas minhas costas deixava o vento entrar, carregando informação. Ouvi o estalo de lenha queimando — a fogueira principal devia fi
POV CARUÃ O cadeado bateu na madeira de cedro e o som correu pelo corredor vazio. Tirei a chave do latão e enfiei no bolso da calça. A palma da minha mão direita ainda formigava. Fechei o punho com força. Os ossos estalaram. Não adiantou. Aquela porra de calor continuava ali, presa no centro da minha mão, no mesmo lugar em que toquei a nuca dela na Samaúma. Fui até o bebedouro no fim do corredor e afundei a mão num balde de água de chuva. A água gelada escorreu pelo meu pulso. Nada. O calor ficou. Aquilo me deixou puto. Sequei a mão na calça e saí pro pátio da fortaleza. O fim de tarde já tinha pesado em cima do território. O barro escuro, a fumaça dos fogos, o som de machado, água correndo no igarapé, gente andando rápido sem falar mais do que o necessário. Do jeito que tinha que ser. Mas o ar tava errado. Tava cheio de agitação. Confusão. Medo mal escondido. A alcateia inteira já tinha sentido que eu arrastei problema pra dentro dos portões. Juma me esperava no pé da
Eu comi. O orgulho grita, mas a fome fala mais alto. Raspei o prato de barro com a mão suja mesmo, empurrando o beiju e a carne pra dentro até não sobrar farelo. Eu ia precisar de força pra correr ou pra apanhar. Barriga vazia não ajuda em nenhuma das duas coisas. Limpei a boca na manga da blusa e empurrei o prato pro canto. Voltei pra cama e sentei no colchão duro. A sombra debaixo da porta continuava lá. Imóvel. O cadeado de latão estalou. A chave girou no metal. A porta pesada de cedro abriu pra fora, rangendo na dobradiça seca. Ele entrou. O homem da clareira já não tava nu. Vestia calça de lona escura enfiada no coturno gasto e uma blusa preta de algodão esticada nos ombros largos. Vestido, ele parecia ainda maior. O quarto encolheu. Não fechou a porta. Só encostou no batente, cruzou os braços no peito e ficou me olhando. A luz amarela do corredor batia no rosto dele. O olho dourado continuava lá. Não era jogo de sombra da mata. A íris brilhava num tom frio, metálico. O
Não sei quanto tempo a gente andou. O relógio na minha cabeça tinha quebrado no momento em que eu vi a espinha daquele bicho estalar pra fora. O caminho no meio do mato foi um silêncio forçado. O homem magro, aquele que quase engasgou tentando me cheirar, andava uns dez passos atrás, pisando torto, com medo até do próprio vento que batia em mim. O outro cara da corda vinha do lado, cobrindo minha lateral. E o gigante cobreado ia na frente. As costas largas dele, ainda nuas e manchadas de barro, abriam caminho no meio das folhas de palmeira. Eu pisava onde ele pisava. Não por obediência. Por pura cautela. Num lugar que eu não conhecia, se o chão aguentava o peso de um bicho daquele tamanho, aguentava o meu. O ar foi mudando. O cheiro de mato podre e umidade virou fumaça de lenha, carne assada e couro. A floresta abriu de uma vez. E mostrou uma cidade que não devia existir. Parei no susto. Minha bota travou numa raiz grossa. As Samaúmas centenárias não eram mais só árvores esp
Último capítulo