CAPÍTULO 2 — A SOMBRA E A FEBRE

Dona Nair convulsionava como se alguma coisa dentro dela quisesse arrancar o resto de vida que ainda tinha.

Eu me joguei no chão ao lado dela e segurei os ombros estreitos com força. Não adiantou. O corpo inteiro tremia, duro, fora de controle.

— Nair! Fica comigo!

A boca dela espumava um pouco. Os olhos continuavam virados. Eu enfiava o braço por baixo da nuca dela pra proteger a cabeça da madeira, mas o corpo não obedecia.

A convulsão parou tão bruto quanto começou.

Ela amoleceu toda de uma vez contra o chão.

O ar saiu dos pulmões num chiado comprido.

Meu peito travou.

Passei a mão no pescoço dela. O pulso estava lá. Fraco. Rápido. Incerto. A pele fervia. Quente demais. Um calor ruim, de febre brava.

— Eu vou pegar o cipó-pucá. Aguenta.

Me levantei num solavanco. As pernas tremiam. Bati na quina da mesa e quase derrubei o copo que estava em cima. Nem parei pra olhar. Corri pra cozinha.

A panela de alumínio já estava no fogo. Peguei os potes do armário sem pensar muito. Cipó-pucá. Folha de algodão. Andiroba. Eu conhecia aquilo de cor. Soca, ferve, mistura, reza depois.

Machuquei as ervas no pilão com força demais. O baque seco ajudou a segurar o pânico no lugar.

*Agora não. Depois eu desabo.*

Voltei pra sala com a xícara fumegante queimando as pontas dos dedos.

Ajoelhei de novo ao lado da velha e encostei a borda nos lábios rachados dela. O líquido escuro escorreu um pouco pelo queixo de Nair.

Ela engasgou.

A mão dela subiu num espasmo violento e agarrou meu pulso com uma força que não combinava com aquele corpo quase apagado. As unhas afundaram na minha pele.

Os olhos de Nair abriram uma fresta.

Turvos. Perdidos. Mas abertos.

Ela me puxou pra baixo, a boca colando perto do meu ouvido.

— Não deixa... não deixa eles te marcarem antes da hora.

Meu corpo inteiro gelou.

— Tu tá delirando. Solta meu braço pra eu te dar o chá.

— O teu cheiro...

As unhas apertaram mais.

— O teu cheiro é a tua proteção.

O estômago caiu.

*Que cheiro? Que marca?*

— Dona Nair, para com isso. Olha pra mim.

Mas ela já tava indo embora de novo. A mão afrouxou, a cabeça tombou pro lado e o corpo pesou de volta no chão.

Foi aí que eu gritei.

— Socorro! Alguém! Dona Margarete!

A vizinha da frente entrou primeiro, assustada, com o bobe de cabelo ainda torto na franja. Dois outros vizinhos apareceram logo atrás no portão. A sala virou um caos. Chinelo arrastando no taco. Voz por cima de voz. Reza. Pressa. Medo.

— Riane, valha-me Deus! — Dona Margarete se ajoelhou do outro lado. — Tem que chamar o SAMU! Eu vou ligar!

— Não vai adiantar.

A voz veio da porta.

Cortou a sala no meio.

Levantei os olhos.

Pai Benedito tava parado no batente.

O terno branco dele tava limpo demais pra quem tinha acabado de atravessar a rua de terra do bairro. Ele não olhava pro caos. Os olhos fundos estavam cravados em mim.

Meu estômago apertou.

Manaus era imensa. Ele não tava ali por acaso.

Benedito atravessou a sala devagar.

Os vizinhos abriram espaço sem ele pedir.

Ele se abaixou ao lado de Nair e encostou dois dedos na testa dela. Não parecia checando febre. Parecia testando outra coisa.

— O SAMU não acha o que procurar nela, filha.

Minha mandíbula travou.

— Então você acha. Fala o que tá acontecendo com ela.

Ele me olhou por um segundo.

Mas não respondeu.

— O que ela precisa agora é que você segure a mão dela.

Eu quis gritar com ele. Sacudir aquele terno branco até arrancar uma explicação. Mas não adiantava.

Com a ajuda tremida de Dona Margarete, eu arrastei Nair pro quarto pequeno e deitei ela no colchão de mola que afundou sob o peso frágil dela.

A tarde foi se arrastando.

O calor não deu trégua. Eu fiquei numa cadeira de plástico ao lado da cama, a blusa grudada de suor, segurando a mão dela.

Os dedos foram esfriando aos poucos.

A febre baixou, mas levou a força junto.

A respiração virou um fio raso. Engasgava. Voltava. Sumia quase de novo.

Ela tava viva. Mas por um fio.

Foi na madrugada que os olhos dela abriram uma fresta.

A febre tinha ido embora por um instante. O olhar tava claro. Mais claro do que eu queria ver.

Nair virou o rosto no travesseiro murcho e me achou com os olhos.

Eu me aproximei.

Ela não falou que me amava. Não fez discurso. Não deu lição.

Só abriu a boca e sussurrou:

— Vai.

Os olhos dela fecharam logo depois.

O peito ainda subia devagar, fraco, insistindo. Mas a ordem já tinha sido dada.

E eu não sabia pra onde.

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