Mundo de ficçãoIniciar sessão
O maço de folhas de andiroba bateu na madeira crua da barraca com força demais.
O estalo seco cortou o ar úmido da feira, mas a mulher do outro lado da lona nem piscou. Eram seis da manhã em Manaus e o calor já grudava na pele feito cola. A blusa úmida colava nas minhas costas enquanto o cheiro de peixe frito da barraca vizinha se misturava com o amargo da copaíba que eu tinha tirado da sacola. — Tá com a cabeça onde, menina? — Dona Rita estalou a língua, segurando a sacola plástica como se eu fosse fugir com ela. — No preço do gelo, dona Rita. — Minha voz saiu arranhada. Apertei os olhos contra o sol que começava a queimar a calçada. — Dois reais de troco. Estendi as moedas. Quando o metal encostou na palma suada dela, nossos dedos se esbarraram. Dona Rita puxou a mão com um tranco bruto. As moedas bateram na lona e rolaram pro chão de terra. A velha recuou dois passos, esbarrando numa caixa de isopor rachada. A respiração ficou presa na garganta dela. — Credo, Riane... — Ela esfregou a mão na saia como se tentasse arrancar a própria pele. — Que diabo de frio é esse? Tu cruzou com defunto? Franzi a testa. O suor escorria pelo meu rosto, salgado e morno. Minha mão tava quente, fervendo debaixo daquele mormaço. — Deixa de visagem, dona Rita. Pega o troco. Ela não pegou. Virou as costas e sumiu no meio do corredor apertado da feira, murmurando reza em voz baixa. Ignorei as moedas no chão. Não era a primeira vez que alguém reagia assim ao meu toque. Tinha acontecido com o Seu Benedito da quitanda, com a Marlene do mercadinho. Dona Nair sempre dizia que era coisa de gente ignorante. Eu nunca acreditei muito nisso. Mas era mais fácil acreditar do que pensar nas outras opções. Estava arrumando os maços de tucumã quando senti. A pele atrás do pescoço formigou. Uma queimação insistente subiu até a raiz dos meus cachos. Não era o sol batendo na telha de zinco. Era peso. Aquele aviso físico, ruim, de que tinha um par de olhos cravado me observando. E não era olhar de bêbado da peixaria. Era um olhar que me media. Que calculava o espaço que eu ocupava. Pronto pra tomar tudo. Virei devagar. A feira era um caos de movimento. Carrinho de mão rangendo, peixeiro gritando preço de tambaqui, música estourada numa caixa pirata. Varri o mar de gente. E encontrei ele. Parado. No meio de tudo que se movia, ele era a única coisa imóvel. Gigante. Os ombros largos demais pra pertencerem a qualquer pessoa normal no centro de Manaus. A pele cobreada absorvia a luz da manhã e o rosto tava virado na minha direção com uma precisão que gelou minha espinha. Não era olhar de homem vendo mulher na feira. Era olhar de caçador que já decidiu o que vai fazer. Os olhos eram dourados. Brilhando de um jeito impossível no meio da sombra de uma barraca de frutas. A íris tinha uma luz própria, fria, selvagem, que não pertencia a nenhum ser humano que eu já tivesse visto. Ele não desviou quando nossos olhares se cruzaram. Só ficou ali, me medindo, com aquela calma de coisa que não tem medo de nada nesse mundo. A boca secou. O ar foi embora do meu pulmão de um segundo pro outro. Meus instintos nunca falhavam. Vinte e dois anos e eu só tava viva porque sabia escutar o corpo mandando recuar. Agarrei a lona da mesa num solavanco. As ervas, as raízes e os vidros de óleo desabaram pra dentro da sacola puída. Joguei a alça no ombro e dei as costas pra rua principal. Não corri, porque presa que corre chama atenção. Mas andei rápido. A pressão nas costas aumentava a cada passo, a certeza física de que aqueles olhos dourados ainda estavam cravados em mim. Me espremi dentro de um ônibus fervente. Agarrei a barra de ferro encardida. Me forcei a respirar. Quando o ônibus virou a esquina, olhei pela janela riscada uma última vez. Ele continuava no mesmo lugar. Parado. Me olhando. E mesmo com o ônibus acelerando, com o trânsito engolindo a distância entre nós, a queimação na minha nuca não diminuiu. Desci três paradas antes do normal. Fiz o resto do caminho a pé, cortando pelas ruelas que ninguém que não morava ali usava. Tava a dois quarteirões da minha rua quando parei. A janela da sala tava apagada. Dona Nair nunca apagava a luz da sala antes do almoço. Era superstição, costume, lei da casa desde que eu me entendia por gente. Hoje a janela tava escura. Fui até o portão. O metal rangeu, raspando no cimento quebrado. A casa tava silenciosa. O cheiro de café requentado e sabonete de lavanda bateu no meu rosto quando empurrei a porta. Era o cheiro da minha vida inteira. Só que hoje, escondido sob o cheiro do café, havia outro odor. Chuva pesada que ameaça cair e não cai. — Nair? Minha própria voz saiu fina demais no ar parado. Dois passos. O chão de taco gemeu sob os meus tênis. A minha garganta travou com tanta força que doeu. Dona Nair tava caída no meio da sala.






