Início / Lobisomem / CAPTURADA PELO ALFA DA FLORESTA NEGRA / CAPÍTULO 6 — PRISIONEIRA DO ALFA
CAPÍTULO 6 — PRISIONEIRA DO ALFA

A pergunta dele cortou o silêncio da floresta.

— Como você entrou aqui sem deixar rastro?

Minha garganta tava tão ressecada que a voz não quis subir na primeira tentativa. O homem na minha frente engolia todo o ar em volta. Ele não tava ofegante pela transformação. Não tremia de frio. A umidade da mata escorria pela pele cobreada dele como se batesse em pedra dura.

— Rastro de quê? — consegui rosnar de volta, apertando o cabo de osso da minha faca até a mão doer de verdade. — Da minha bota?

Ele deu mais um passo. O pé descalço e largo achatou o barro. Zero barulho.

— Cheiro. Você não tem cheiro nenhum.

— Eu tomo banho. — O sarcasmo saiu cuspido no automático. Instinto puro de quem cresceu na feira: se abaixar a cabeça, apanha. — Quer farejar bicho morto, vai pra lixeira do porto, porra. Não me enche.

Os olhos dourados dele nem piscaram. Nenhuma raiva. Nenhum desaforo absorvido. A luz na borda da íris parecia engolir o resto de claridade que tinha debaixo da Samaúma.

— Você passou pela minha fronteira — ele falou, a voz grossa vibrando no próprio peito antes de chegar no meu ouvido. — Pisou no fundo do meu território. E ninguém sentiu você chegar. Pra nós, uma coisa sem cheiro é uma ameaça.

— Eu só vim buscar cipó. — Endureci o pescoço, segurando a mentira enquanto meu estômago revirava. — O mato não tem dono. Pego erva aqui desde piveta.

— Aqui, tem.

Ele veio pra cima.

Não pulou. Não deu o bote desesperado de bicho com fome. Foi um movimento contínuo, liso e rápido demais pra um cara daquele tamanho.

Joguei o peso na bota e rasguei o ar com a faca. Mirei direto no peito dele, um golpe bruto de quem abre saco de fibra no mercado todo dia. A lâmina não chegou a um palmo da pele.

A mão dele cruzou o ar e bateu no meu pulso direito. Não foi um soco, foi um pedaço de ferro me atingindo. O impacto secou meu braço na hora. A faca escorregou dos meus dedos dormentes e afundou na lama preta.

Tentei recuar tropeçando pra trás, mas ele foi mais rápido.

A mão imensa e calosa espalmou direto na base do meu pescoço. Ele me puxou pela nuca e me prensou contra o tronco retorcido da árvore. O baque das minhas costas na madeira arrancou o resto do ar do meu pulmão.

Mas não foi a pancada que me desarmou. Foi a pele dele.

No segundo exato que a mão fervendo fechou na minha nuca, um estalo estourou dentro da minha cabeça. Uma corrente elétrica — quente, grossa — desceu rasgando pela minhas costas A queimação não ardia na carne, mas derreteu a força dos meus joelhos. O calor escorreu pras costelas, despencou pro pé da barriga, desmanchando a tensão dos meus músculos à força. Meu corpo amoleceu contra a árvore.

Ele travou na minha frente.

O maxilar dele apertou. O tendão do pescoço saltou sob a pele suada. Ele sentiu o tranco também. Eu vi o susto passar rápido no fundo do olho dourado, uma falha que durou menos que um piscar, antes de ele fechar a cara de novo.

O calor da mão dele continuava queimando a minha nuca. Corpo encostado no corpo.

— Me solta! — Chutei a canela dele. Empurrei o peito duro com a mão boa, jogando o quadril largo pra frente pra tentar tirar ele do eixo.

Ele não saiu do lugar. A força dele anulava a minha como se eu fosse de papel.

— Fica quieta.

A voz raspou no meu ouvido. Sem grito. Sem ameaça. Só uma ordem de quem nunca ouviu um não na vida.

— Vai pro inferno! — Arranhei o braço dele. Minha unha cavou fundo na pele escura.

Ele não soltou um som. Não apertou mais o meu pescoço. Ficou ali, me segurando, esperando a minha energia acabar e eu entender que brigar não servia de nada.

Parei de bater. Fiquei esmagada entre a árvore centenária e o calor insuportável dele, puxando o ar pesado da mata.

O mato estalou. Barulho de bota pisando em galho.

Virei o rosto o pouco que deu. Dois homens saíram das sombras fechadas do Fundo. Vestiam só bermuda velha, os troncos sujos de barro e marca de cicatriz. Um tinha o cabelo raspado, o outro era magro, com os músculos todos repuxados. Olho castanho normal. Mas o jeito de andar... Igualzinho ao do gigante me prensando. Bicho caçando.

Ele finalmente me soltou.

A falta daquele calor elétrico me deixou com um frio esquisito na nuca. Uma falta do toque que me subiu uma raiva cega na mesma hora.

Ele recuou um passo, virando de lado pra mim sem nenhum medo de que eu fosse tentar pegar a faca no chão.

— Ela vai com a gente. — O tom dele cortou o ar. Seco. — Levem pra cela.

O cara do cabelo raspado tirou uma corda fina do bolso e veio na minha direção.

— Não precisa amarrar porra nenhuma.

Me empurrei da árvore. Arrumei a alça da blusa suja de barro e esfreguei meu pulso doendo. Levantei o queixo. Meu estômago era uma pedra de gelo e a perna tremia, mas eu não ia dar o troféu de me ver arrastada no mato.

— Eu ando.

O cara parou. Olhou pro gigante. O gigante cobreado cruzou os braços no peito e segurou meu olhar. Eu não desviei. Foram uns cinco segundos pesados demais. Ele fez um movimento quase invisível com a cabeça. Negando a corda.

— Bora logo — o homem magro rosnou, dando um passo enviesado pro meu lado.

Ele chegou perto. Inclinou o corpo, invadindo meu espaço, abrindo bem as narinas. Puxou o ar grosso ao redor do meu pescoço, tentando sentir meu suor, mapear meu sangue. Instinto puro tentando ler quem eu era.

Quando o rosto dele bateu a um palmo de distância de mim, o ar na clareira pareceu estourar.

O homem recuou num tranco violento. Foi jogado pra trás como se tivesse metido a cara num fio desencapado. Tropeçou no próprio pé e caiu de costas na lama preta. Começou a tossir, ofegando, esfregando o nariz com a mão suja, o olho arregalado de pânico. Ele se encolhia no chão, sentindo dor física só pelo esforço de tentar me cheirar.

A floresta calou. O cara da corda deu um passo pra trás, assustado.

Eu travei no lugar.

Virei o rosto devagar pro gigante cobreado.

Ele tava parado na mesma posição, os braços cruzados, assistindo o próprio homem engasgar na lama. O rosto dele não mudou uma linha, mas o olho dourado queimava em mim com um peso que revirou meu intestino.

Ele não se assustou. Ele já sabia que ia acontecer.

Minha vida de feirante tinha ficado pra trás. E aquele homem era a corda invisível amarrada no meu pescoço.

Continue lendo este livro gratuitamente
Digitalize o código para baixar o App
Explore e leia boas novelas gratuitamente
Acesso gratuito a um vasto número de boas novelas no aplicativo BueNovela. Baixe os livros que você gosta e leia em qualquer lugar e a qualquer hora.
Leia livros gratuitamente no aplicativo
Digitalize o código para ler no App