Mundo de ficçãoIniciar sessãoO sol de Manaus não nasce. Ele invade.
Quando a primeira luz entrou pela fresta da janela de madeira, o quarto já tava abafado. Eu passei a noite inteira torta naquela cadeira de plástico. Minhas costas pareciam uma tábua. Na cama, Dona Nair não abriu os olhos de novo. A respiração dela continuava ali, fraca, arrastada, como se cada puxada de ar desse trabalho. A palavra que ela sussurrou de madrugada continuava batendo dentro da minha cabeça. Vai. Vai pra onde? Fazer o quê? A mulher que me criou tava deitada num colchão torto, quase apagando, e a última coisa que fez foi me mandar embora. E ainda me deixou com aquela outra frase roendo meu juízo. Não deixa eles te marcarem... O teu cheiro é a tua proteção. Eu esfreguei o rosto com as duas mãos e puxei o ar perto do meu pulso. Sabonete barato. Suor seco. Medo. Só. Eu não tinha cheiro de proteção. Tinha cheiro de cansaço. Levantei da cadeira devagar. O taco rangeu alto debaixo do meu pé, mas Nair não se mexeu. Ela sabia de alguma coisa. E escondeu de mim a vida inteira. Passei anos ouvindo a mesma resposta torta. Que a água do rio tinha me trazido. Que Deus escrevia certo por linha errada. Que o passado só servia pra puxar gente viva pra dentro de buraco. Eu engoli tudo porque tinha comida, tinha teto, tinha ela. Agora não bastava mais. Fui até o guarda-roupa velho no canto do quarto. Agarrei o puxador da primeira gaveta e puxei com força. A madeira, inchada de umidade, resistiu. Puxei de novo, jogando o peso do corpo pra trás. A gaveta soltou com um estrondo seco. Cheiro de mofo e naftalina bateu no meu rosto. Joguei tudo no chão. Roupa velha. Terço quebrado. Santinho amassado. Passei a mão no fundo da gaveta. Nada. Fui pra segunda. Lençol puído. Toalha fina. Pano guardado sem utilidade. Nada. Na última, escondida debaixo de um cobertor pesado, achei uma caixa de lata de biscoito toda enferrujada. Forcei a tampa até ela chiar. Linha preta. Agulha grossa. Botão de camisa. Conta de luz velha. E só. Nenhuma certidão de nascimento. Nenhum papel de hospital. Nenhuma foto. Nenhum nome. Eu não existia em lugar nenhum. Duas décadas morando naquela casa, e a minha vida inteira cabia num vazio. O ódio subiu tão rápido que minha vista escureceu por um segundo. Bati a caixa no chão com força. As linhas rolaram pelo taco. Os botões se espalharam. — O que foi que tu escondeu de mim, Nair? Minha voz saiu baixa, mas saiu tremendo. Um barulho na cozinha me fez virar de uma vez. Não pensei. Peguei a tesoura de costura grande no meio da bagunça e fui pro corredor com o coração batendo na garganta. A porta dos fundos tava aberta. A claridade da manhã entrava estourada, recortando uma silhueta parada perto da mesa de fórmica. Pai Benedito. Hoje ele não estava de branco. Usava camisa de algodão cru, calça de brim, cara fechada. As mãos no bolso. Como se já soubesse que eu tava por um fio. Abaixei a tesoura perto da perna, mas não larguei. — A porta tava encostada — eu falei. Minha voz saiu áspera. Ele virou devagar. Os olhos fundos caíram na tesoura e subiram pro meu rosto. Não recuou. — Veio fazer o quê? — eu fui pra cima antes que ele abrisse a boca. — Dizer de novo que ninguém pode ajudar ela? Benedito não discutiu. Não se ofendeu. Só andou até a mesa e tirou uma das mãos do bolso. Deixou um envelope pardo, pequeno e amassado, em cima do plástico xadrez. — Ela me entregou isso no dia de finados do ano passado. Olhei pro envelope. Minha boca secou. — Me chamou no terreiro. Disse que, se a sombra batesse na porta de vocês, era pra eu te entregar. — Que sombra? — A que chegou. Aquilo me deu mais raiva do que resposta. — Para de falar assim comigo. Ela tá morrendo naquele quarto. Não tem um papel com meu nome nessa casa, não tem nada. Se tu sabe de alguma coisa, fala logo. Ele me encarou por um tempo curto demais pra ser conforto e longo demais pra ser indiferença. Depois falou: — Eu sei que tu não é humana de todo, menina. O ar da cozinha pareceu sumir. Eu não respondi. Não consegui. Ele apontou com o queixo pro envelope. — E sei que o que a Nair escondeu cansou de esperar. Virou as costas e saiu pelo quintal. Só isso. Nem explicação. Nem reza. Nem pena. O som do sapato dele na terra foi sumindo, e eu fiquei parada, olhando pro envelope como se ele fosse me morder. Não é humana de todo. Joguei a tesoura na pia de qualquer jeito e fui até a mesa. Rasguei a ponta do envelope com os dedos tremendo. Virei de boca pra baixo. Uma pedra preta caiu na fórmica. Junto dela, um pedaço de papel dobrado. A pedra era opaca, porosa, do tamanho de uma ameixa. Feia. Estranha. Meu corpo mandou recuar. Minha mão foi mesmo assim. Encostei a ponta do dedo nela. O calor subiu na mesma hora. Não era choque. Era pior. Parecia pele viva, quente demais, febril. O calor entrou pelo meu dedo, tomou minha mão inteira e apertou meu peito por dentro. A pedra pulsou. Tum. Depois de novo. Tum. Puxei a mão num tranco. Meu peito doeu. Fiquei olhando praquilo parada, respirando curto, como se a pedra fosse levantar da mesa a qualquer momento. Não levantou. Peguei o papel com a outra mão e abri. Era a letra da Dona Nair. Tremida. Feita a lápis. Só duas linhas. Fundo do Rio Negro. Clareira da Samaúma. Meu ar travou. O Fundo. A parte da floresta onde ninguém entrava. Onde mateiro se perdia. Onde bússola falhava. Onde o mato fechava em cima de quem pisava errado. E era exatamente lá que eu entrava desde os doze anos pra buscar cipó pra Nair. Sozinha. E nunca tinha me perdido. Virei o rosto pro corredor escuro do quarto. Vai. Agora eu entendi. Não era pedido. Não era conselho. Era porque o tempo tinha acabado. Peguei a pedra de novo, engolindo o calor que subiu pela minha palma. Se a resposta tava no Fundo, eu ia entrar. E dessa vez eu já sabia que não tava entrando como antes.






