O JOGO DE ESQUIVA

Enterro o rosto nas mãos. Que burrice monstruosa.

Eu sabia quem ele era. Sabia o efeito que ele tinha sobre mim. Sabia que me aproximar demais dele era brincar com fogo em um galpão encharcado de gasolina. E mesmo assim fui. Mesmo assim fiquei. Mesmo assim deixei que ele me tocasse como se meu corpo pertencesse àquilo havia muito tempo.

Agora eu tenho Thomas na pele, Rafael na memória e a sensação insuportável de ter acabado de destruir o único lugar da minha vida que ainda obedecia a alguma lógica.

Trabalho. Rotina. Controle.

Se eu tiver o mínimo de juízo, amanhã eu vou entrar naquela empresa e me comportar como se nada tivesse acontecido. Se eu tiver o mínimo de instinto de sobrevivência, vou erguer uma parede entre nós tão alta que nem ele vai conseguir atravessar. Porque se eu der espaço, se eu deixar a porta entreaberta, se eu permitir que aquela noite vire precedente, eu já sei onde isso termina.

Não em paz. Nunca em paz.

Passo a madrugada acordada no sofá, com a luz apagada e o celular virado para baixo sobre a mesa de centro, como se não olhar para ele fosse o mesmo que impedir o mundo de mudar.

A cada ruído do prédio, meu corpo se retesa. A cada farol que atravessa a janela, meu coração dispara.

Sou uma sobrevivente. Aprendi a sair viva. Aprendi a reconhecer o perigo. Aprendi a fugir antes que a porta se feche. Mas o trauma é um fantasma covarde. Ele não precisa de provas. Não precisa de fatos. Não precisa nem que Thomas faça alguma coisa.

Basta a lembrança do que senti. Basta saber o quanto quis.

E, deitada ali, encarando a escuridão do teto, eu entendo a parte mais devastadora de todas: o verdadeiro perigo não é Thomas Albuquerque me perseguir.

É eu não ser forte o suficiente para fugir dele de novo quando ele vier.

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Maya

Na manhã seguinte, eu decido que a única maneira de sobreviver é a distância.

Chego à Albuquerque Prime cedo demais, como se pudesse vencer o dia no cansaço. Escondo as marcas da noite anterior sob camadas generosas de corretivo e me atiro no trabalho com uma disciplina quase violenta. Respondo e-mails. Reviso contratos. Faço ligações. Confiro cláusulas que eu já decorei há meses.

Qualquer coisa para não pensar.

Qualquer coisa para não lembrar da boca de Thomas na minha.

Do peso da mão dele na minha cintura.

Da forma como meu corpo cedeu como se já estivesse esperando por aquilo havia muito tempo.

Quando escuto os passos dele no corredor, meu corpo inteiro se enrijece.

É ridículo.

Bastam passos.

Nem preciso vê-lo.

Meu coração o reconhece antes de mim.

Eu o evito.

Quando ele passa pela minha mesa, mantenho os olhos fixos na tela, embora a única coisa que eu veja seja o reflexo escuro dele no monitor. Quando me chama para uma reunião, invento uma visita urgente a um imóvel. Quando manda mensagem, respondo apenas o estritamente necessário.

Objetiva.

Profissional.

Fria.

Como se nada tivesse acontecido.

Como se eu não tivesse passado os últimos anos orbitando aquele homem com uma mistura humilhante de medo e desejo.

Como se a noite anterior não tivesse partido alguma coisa dentro de mim — ou aberto.

Mas Thomas Albuquerque não é um homem distraído.

E definitivamente não é um homem que aceita ser apagado.

No terceiro dia, estou sozinha na copa, esperando o café terminar de cair na xícara, quando sinto.

A presença dele.

Atrás de mim.

O ar muda primeiro. Depois o silêncio. Depois eu.

Fecho os olhos por um segundo, porque meu corpo já reagiu antes que minha cabeça pudesse montar defesa. Cada músculo meu parece lembrar exatamente o que fez quando ele me encostou.

— Maya.

A voz vem baixa.

Controlada.

Mas não intacta.

Viro devagar.

E encontro um Thomas diferente do homem que domina salas, contratos e pessoas com a mesma precisão brutal. Ele ainda está impecável, ainda é perigoso de olhar, ainda ocupa espaço como se o mundo tivesse sido desenhado para acomodá-lo.

Mas há alguma coisa rachada ali.

Frustração.

Talvez raiva.

Talvez algo pior.

Forço o queixo a se erguer.

— Sr. Albuquerque.

O maxilar dele trava.

— Para com isso.

Meu coração tropeça dentro do peito.

— Com o quê?

Ele dá um passo na minha direção. Não o suficiente para me tocar. O suficiente para eu sentir o perfume dele e odiar o efeito que isso tem em mim.

— Com essa porra de “Sr. Albuquerque”.

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