Mundo ficciónIniciar sesiónA reunião é um sucesso. Como todas as outras. Antecipamos objeções. Fechamos números. Recebo elogios. Assino documentos. As pessoas saem convencidas de que eu encontrei a melhor solução. Talvez tenham razão.
Só que, entre uma apresentação e outra, Maya continua aparecendo. No reflexo da tela desligada do notebook. Na cadeira vazia da sala de reuniões onde ela costumava se sentar. Na lembrança da forma como franzia a testa quando descobria um erro antes de todo mundo. É isso que me desorganiza. Não o desejo. O desejo é simples. Direto. Administrável. Eu conheço o desejo. O que sinto por Maya nunca foi apenas isso. Começou muito antes de eu admitir que a queria. Começou no dia em que ela me enfrentou sem elevar a voz. No dia em que desmontou uma estratégia minha com três perguntas certeiras e, quando percebeu que eu tinha gostado da discussão, ficou irritada por ter gostado também. Começou quando percebi que ela não fazia questão de me impressionar. E justamente por isso me impressionava o tempo inteiro. Passei meses observando pequenos detalhes que ninguém mais via. A forma como mordia a tampa da caneta enquanto pensava. Como escondia o riso quando alguém dizia alguma bobagem na reunião. Como defendia clientes que nem conhecia porque acreditava que justiça era uma coisa que não dependia de conveniência. Eu me apaixonei antes mesmo de perceber que estava apaixonado. Foi devagar. Silenciosamente. Sem espetáculo. E talvez tenha sido isso que tornou tudo irreversível. No fim do expediente, passo pela mesa que foi dela. A nova assistente organiza papéis com cuidado. Quando me vê, sorri. Espero, por um segundo absurdo, que seja Maya. Não é. Nunca é. Sigo andando. No elevador, observo meu reflexo. Continuo sendo o mesmo homem. Terno escuro. Postura reta. Expressão controlada. As pessoas olham para mim e enxergam alguém que sempre sabe exatamente o que fazer. Se soubessem. No carro, o motorista pergunta: — Para casa, doutor? Penso em responder que sim. Em terminar o dia. Abrir um uísque. Esperar que o tempo faça o trabalho dele. Mas o tempo parece ter parado exatamente no instante em que Maya atravessou a porta da empresa pela última vez. — Dirija. — Algum destino? Olho pela janela. — Ainda não. São Paulo desfila diante de mim. Restaurantes. Prédios. Faróis. O mundo continua oferecendo tudo aquilo que passei anos construindo. E, pela primeira vez, percebo que existe uma diferença brutal entre poder ter qualquer coisa... e desejar apenas uma. Eu quero Maya. Quero a mulher que me desafia. A que discorda. A que me faz rir quando acha que está sendo séria. Quero dividir o café da manhã. As discussões. As vitórias. As derrotas. Quero saber como foi o dia dela antes de contar como foi o meu. Quero vê-la chegar em casa cansada. Ouvi-la reclamar de clientes. Dormir ao lado dela. Acordar ao lado dela. Quero conhecer todas as versões de Maya. As fortes. As inseguras. As corajosas. As que ela esconde do mundo. Não é posse. É permanência. É a vontade absurda de construir uma vida onde ela nunca mais precise fugir. Chego em casa tarde. A cobertura está impecável. Silenciosa. Grande demais para um homem sozinho. Sirvo um uísque. Nem provo. Vou até a varanda. Lá de cima, a cidade parece pequena. Controlável. Só existe uma coisa que eu não consigo controlar. O espaço que Maya ocupa dentro de mim. Fecho os olhos. E lembro. Da noite em que finalmente aconteceu. Da forma como ela me beijou. Não foi impulso. Foi escolha. As mãos dela nas minhas costas não pertenciam a alguém confuso. Pertenciam a uma mulher que, por alguns minutos, não tentou me manter à distância. A voz dela dizendo meu nome ainda existe dentro de mim. E é essa lembrança que torna o dia seguinte incompreensível. Porque a mulher que me beijou naquela noite não desapareceu. Ela apenas voltou a se esconder atrás de uma barreira que eu não sei como derrubar. Quando me disse que havia outro homem... Quando pediu demissão... Quando passou a me olhar como se tudo tivesse sido um erro... Alguma parte de mim recusou acreditar. Não porque eu me ache irresistível. Mas porque eu senti. Senti a verdade no beijo dela. Na forma como seu corpo respondeu ao meu. Na entrega que nenhum arrependimento consegue inventar. Ela pode negar para mim. Pode negar para si mesma. Mas aquela noite existiu. E eu nunca vou acreditar que fui o único a sair dela transformado. É por isso que dói. Não perder Maya. Mas vê-la fugir de algo que também a fazia feliz. Meu celular vibra. Murilo. "Localizamos a nova imobiliária. Sol Nascente. Quer que eu aprofunde?" Meu primeiro impulso é responder imediatamente. Sim. Descubra tudo. Onde ela mora. Com quem trabalha. Como está. Apago a mensagem. Devagar. Porque o amor não pode se transformar em vigilância. Não se parece com isso. Se eu mandar investigar Maya, deixo de ser o homem que ela talvez pudesse amar e me torno a sombra que a faz correr. Digito outra resposta. "Não. Só garanta que ela receba tudo o que é dela. Sem pressão." Envio. Apago as luzes da sala. Permaneço sentado no escuro. A cidade brilha do lado de fora. Passei a vida inteira acreditando que tudo tinha uma explicação. Toda escolha obedecia a uma lógica. Todo problema podia ser resolvido. Maya não. Ela não é um problema a ser resolvido; é um mistério. Ela é o quebra-cabeça cujas peças não se encaixam, não importa o quanto eu tente forçá-las. E, pela primeira vez, o caos não é algo que eu possa controlar; é uma ferida que eu não tenho permissão para tocar.






