Mundo de ficçãoIniciar sessãoNão apenas por ele.
Mas pelo que despertava em mim. Ele me olhava como se eu sempre fosse capaz de ir além. E, pior, como se soubesse exatamente o ponto em que eu começaria a ceder. Então penso em Vinícius. Como ele é diferente. Com ele, tudo é leve. Fácil. Gentil. Vinícius não disputa espaço comigo. Não transforma uma conversa em duelo. Não me desafia a cada frase. Ao lado dele, eu não sinto meu coração acelerar porque preciso me defender. Mas, às vezes... A leveza tem gosto de ausência. Esse é o tipo de pensamento que me faz sentir culpa. Porque Vinícius é bom. Bom de um jeito raro. Bom de um jeito que deveria bastar. Talvez o problema esteja em mim. Talvez, depois de tantos anos aprendendo a sobreviver ao caos, eu tenha desaprendido a reconhecer a paz sem confundi-la com vazio. À tarde, dona Lúcia deixa uma pilha de fichas de imóveis sobre a minha mesa. Casas térreas. Apartamentos antigos. Sobrados simples em bairros onde ninguém está tentando impressionar ninguém. Imóveis para gente que quer morar, não performar poder. Folheio os papéis devagar. Na Albuquerque Prime, eu vendia sonhos embalados em vidro, concreto e vistas privilegiadas. Ali, vendemos cabimento. Um lugar onde uma família possa apertar as contas e, ainda assim, dormir tranquila. Um apartamento perto da escola das crianças. Uma casa com um quintal pequeno, um muro alto e espaço suficiente para um cachorro correr. Gente procurando um lugar para recomeçar sem precisar provar nada para ninguém. Eu deveria gostar disso. Talvez eu goste. Mas ainda não sei se pertenço. E então, como acontece toda vez que o silêncio dura mais do que deveria, Thomas volta. Não em carne e osso. Pior. Na memória. Basta um segundo sem fazer nada para meu pensamento encontrar o caminho de volta até ele. Fecho uma ficha. Abro outra. Mas já não estou lendo o nome do cliente. Estou revivendo o jeito como ele me olhava. A firmeza da voz. A paciência que eu insistia em chamar de insistência. Meu estômago aperta. Porque uma dúvida, pequena no começo, começa a crescer. Eu sempre disse que fui embora para me proteger. E fui. Disso eu não abro mão. Só que, quando repasso tudo na cabeça, encontro uma diferença que antes me recusava a enxergar. Rafael me fazia menor. Cada escolha precisava passar por ele. Cada opinião minha era tratada como exagero. Cada "não" acabava virando negociação. Até que, um dia, eu já não sabia mais onde terminava a vontade dele e começava a minha. Thomas... Thomas nunca me pediu isso. Ele discordava. Provocava. Insistia. Às vezes, até ultrapassava o limite do que eu conseguia suportar. Mas, quando eu fui embora... Ele deixou que eu fosse. Não usou a empresa para me prender. Não ameaçou minha carreira. Não transformou dinheiro em chantagem. Não apareceu exigindo explicações. Pelo contrário. Pagou o que era meu. Respeitou meu silêncio. Foi embora quando eu pedi espaço. Aperto a ficha entre os dedos. Talvez o problema nunca tenha sido perceber semelhanças entre eles. Talvez tenha sido parar de procurar as diferenças. Meu medo fez isso. Pegou qualquer homem capaz de ocupar muito espaço e o colocou na mesma moldura. Era mais seguro. Mais simples. Se todos fossem iguais, eu nunca precisaria correr o risco de confiar outra vez. O pensamento me irrita. Porque não desfaz o que vivi. Mas também não me deixa continuar fingindo que Thomas é apenas uma repetição do meu passado. Fecho a pasta com força maior do que o necessário. Meu coração acelera. Não por causa dele. Por minha causa. Porque eu saí. Porque precisei sair.Porque, mesmo assim, descobri que fugir de um lugar é infinitamente mais fácil do que fugir da mulher que esse lugar revelou.
Baixo a cabeça e volto ao trabalho. Organizo imóveis por bairro. Faixa de preço. Perfil de cliente. Empilho pastas. Alinho papéis. Como se fosse possível colocar a vida em ordem com etiquetas. Como se bastasse trocar de emprego para reorganizar o que continua fora do lugar dentro de mim. No fim do expediente, despeço-me dos colegas e caminho até meu Onix preto. Paro por um instante antes de destravar as portas. Sorrio. Quando comprei aquele carro com o dinheiro do meu trabalho, achei que o melhor presente não eram as quatro rodas. Era a liberdade. Pela primeira vez na vida, eu tinha um carro que era só meu. Podia sair. Voltar. Mudar de caminho. Dirigir sem avisar ninguém. Sem pedir permissão. Escolhi a cor preta porque queria discrição. Nunca imaginei que, algum dia, carros pretos também aprenderiam a me assustar. Ainda assim, o cansaço que carrego não é o da pressão. É o de sustentar uma decisão que ainda espera se transformar em paz. A rua está cheia. Casais dividem sacolas de mercado. Crianças reclamam de fome. Homens afrouxam a gravata. Mulheres equilibram bolsa, pressa e exaustão no mesmo ombro. É a vida comum. A vida que eu dizia querer. Durante tanto tempo, observei tudo isso do lado de dentro de um carro blindado, como se o mundo existisse atrás de um vidro.






