Mundo de ficçãoIniciar sessãoUma semana depois...
Maya
O cheiro de café requentado e papel velho me atinge assim que entro na Imobiliária Sol Nascente.
Tudo aqui parece menor. Menor que a Albuquerque Prime. Menor que o prédio espelhado onde eu passava os dias tentando fingir que não tremia por dentro. Menor que a vida que eu tinha lá. Menor, até, do que a mulher que eu era quando ainda orbitava Thomas Albuquerque. Na Sol Nascente, não há mármore, nem vidro impecável, nem recepcionistas de salto e voz baixa. Há mesas gastas, cadeiras que rangem, pastas empilhadas até o limite do bom senso e um ventilador de teto barulhento, girando com a determinação cansada de quem já desistiu de vencer o calor de São Paulo. É a minha primeira segunda-feira ali. Minha primeira segunda-feira longe dele. Esse pensamento deveria me trazer paz. Em vez disso, só me deixa estranhamente vazia. — Você deve ser a Maya. Ergo os olhos. A mulher na recepção dobra o jornal e me encara por cima dos óculos de armação grossa. O sorriso dela é simples, sem cálculo, sem formalidade. — Sou a Dona Lúcia. Seja bem-vinda, minha filha. Minha filha. Faz tempo que ninguém fala comigo desse jeito. Sem medir o peso do meu sobrenome, da minha roupa, da minha utilidade. Ela aponta para uma mesa no canto, perto da janela. É ali. Minha nova mesa é pequena, antiga e honesta. Um computador lento, uma caneta BIC esquecida ao lado do teclado e nenhuma tentativa de parecer mais importante do que realmente é. Sento-me, e a cadeira reclama. Quase rio. Na Albuquerque Prime, até o silêncio parecia caro. Aqui, tudo faz barulho. Talvez seja melhor assim. Talvez eu precise mesmo de um lugar onde nada brilhe, nada seduza, nada me faça esquecer por um segundo porque fui embora. Liberdade. Repito a palavra dentro de mim, como se ela pudesse criar raízes à força. Foi isso que eu escolhi. Foi por isso que saí. Foi por isso que me afastei de Thomas antes que ele se tornasse mais uma parede fechando à minha volta. Ou antes que eu quisesse que ele fechasse. Dona Lúcia me apresenta aos outros corretores. Seu Adalberto, um senhor de bigode cheio e jeito afável, fala comigo como se me conhecesse há anos. Cintia, elétrica e sorridente, tem a minha idade e uma energia limpa, dessas que não pedem licença para existir. Sandra, uma garota igualmente simpática. Todos eles me recebem muito bem. Sem desconfiança. Sem formalidade. Sem aquela educação impecável e fria da Albuquerque Prime, onde até a simpatia tinha hora, tom e função. Aqui, as pessoas falam alto. Ri em alto volume. Comentam futebol, preço do pão, novela, trânsito, aluguel atrasado, calor demais para um dia só. É o tipo de vida que eu dizia querer. Uma vida comum. Uma vida segura. Uma vida onde nenhum homem pudesse me encurralar com a própria presença. E, ainda assim, enquanto escuto Carol reclamar da condução e Seu Adalberto contar a história de um cliente que desistiu de uma casa porque a vizinha “tinha cara de fofoqueira”, sinto uma inadequação quase física. Como se eu tivesse fugido do incêndio e entrado, por vontade própria, num quarto sem ar. Na hora do almoço sigo até um restaurante simples com eles e participo quando preciso. Sorrio quando esperam que eu sorria. Mas por dentro estou longe dali. Lembro dos almoços com Thomas. E odeio lembrar. Odeio porque, perto dele, nunca existia conversa pequena. Tudo ganhava densidade. Economia virava disputa. Arte virava provocação. Silêncio virava tensão. E havia o jeito como Thomas ocupava qualquer ambiente. Ele nunca precisou chamar atenção. Ela simplesmente acontecia. Era a presença. A camisa social impecavelmente dobrada até os antebraços, revelando os músculos sem qualquer intenção de exibi-los. O relógio discreto. A barba sempre aparada. Os ombros largos. A postura de quem carregava poder com tanta naturalidade que não precisava anunciá-lo. Quando sorria de lado — quase sempre depois de eu contrariá-lo — alguma coisa dentro de mim esquecia que eu era perfeitamente capaz de sustentar uma discussão. Os olhos dele eram o pior.Azuis.
Firmes. Atentos.Bonitos de um jeito perigosamente calmo.
Daquele castanho profundo que parecia escurecer quando ele me observava por tempo demais. Quando me encaravam, eu tinha a sensação incômoda de que nenhuma resposta superficial seria suficiente. Era como se ele enxergasse todas as versões de mim ao mesmo tempo. A mulher que eu mostrava. A que escondia. E a que eu ainda nem admitia existir. E eu odiava perceber que queria corresponder à expectativa daquele olhar. Não porque ele fosse meu chefe. Porque eu o admirava. Admirava a inteligência afiada. A rapidez com que resolvia problemas que deixavam salas inteiras em silêncio. A segurança de quem nunca precisava elevar a voz para ser ouvido. Admirava o homem que entrava em uma reunião e, sem dizer uma única palavra, fazia todos endireitarem a postura. A admiração veio primeiro. A atração apareceu quando já era tarde demais para fingir que eram coisas diferentes. Era impossível ignorar a forma como meu corpo reagia à presença dele. O calor que subia pela minha nuca quando ele parava perto demais da minha cadeira. A maneira como minhas pernas enrijeciam quando ele se inclinava sobre a mesa para apontar alguma cláusula de um contrato, obrigando nossos ombros a quase se tocarem. O perfume amadeirado, elegante e discreto, que permanecia no ar muito depois de ele sair da sala. O contraste entre a voz sempre controlada e as mãos grandes, marcadas por veias discretas, segurando uma xícara de café como se até os gestos mais simples carregassem intenção. E havia a pior parte de todas. Quando ele me olhava daquele jeito silencioso. Sem me tocar. Sem dizer nada. Era nesses momentos que eu mais queria que ele me beijasse. E era exatamente por isso que eu fugia. Porque desejar Thomas era perigoso.






