Mundo de ficçãoIniciar sessão— Com essa porra de “Sr. Albuquerque”.
Engulo em seco. — Estamos no trabalho. A risada que ele solta é curta e sem humor nenhum. — Nós sempre estivemos no trabalho. A frase me atinge com força porque é verdade. Tudo aconteceu aqui. A tensão. Os olhares demorados. O silêncio carregado. A espera enlouquecedora. O jeito como cada reunião parecia uma espécie de guerra privada entre nós. Dou um passo para o lado, tentando passar por ele. — Eu preciso voltar. — Não. A palavra sai firme, mas não fria. Não é uma ordem. É quase um pedido dito por um homem que não sabe pedir. Aquilo me desarma mais do que qualquer tom autoritário seria capaz. Thomas passa a mão pela nuca, como se estivesse tentando se segurar dentro da própria pele. — Três dias, Maya. Franzo a testa. — O quê? — Faz três dias que você mal consegue olhar pra mim. Meu peito aperta. — Eu não estou evitando você. Dessa vez ele ri de verdade, só que sem gentileza alguma. — Não? O olhar dele prende o meu, duro, preciso, íntimo demais. — Você sai de toda sala em que eu entro. Cancela reunião. Encerra ligação. Responde minhas mensagens como se eu fosse um cliente qualquer. Ele inclina levemente a cabeça. — E o pior é que você está fazendo isso como se eu não fosse perceber. Meu sangue esquenta de vergonha, raiva e pânico. Porque ele percebe. Thomas sempre percebe. — O que aconteceu não deveria ter acontecido. As palavras saem secas, mas por dentro eu sinto como se estivesse arrancando carne com a unha. Ele fica em silêncio. Por um segundo longo demais. — Foi isso que você decidiu? Eu o encaro, mesmo sabendo que estou mentindo antes de abrir a boca. — Foi um erro. Vejo o golpe acertá-lo. É rápido. Quase invisível. Um endurecimento no olhar. Uma sombra cruzando o rosto. A respiração dele parando por um segundo. Mas eu vejo. E teria sido mais fácil se não visse. Muito mais fácil odiar um homem arrogante do que suportar um homem ferido. — Você realmente acredita nisso? — ele pergunta, baixo. Desvio os olhos. Por que não. Não acredito. Não por um segundo. Aquilo não tinha sido erro nenhum. Tinha sido inevitável. E era justamente esse o problema. — Precisamos ser profissionais. — Nó continuaremos sendo profissionais — ele rebate, ainda calmo, e isso só piora tudo. — Mas não apaga o que aconteceu. Meu coração b**e tão forte que sinto nas têmporas. — Eu não consigo fazer isso. O olhar dele escurece. — Fazer o quê? Levanto os olhos para ele, e talvez esse seja meu erro. Porque o que encontro ali não é só desejo. É presença. É escolha. É uma intensidade tão inteira que quase me falta ar. — Ficar perto de você. O silêncio entre nós se estende. Pesado. Elétrico. Vivo. Thomas me observa como se estivesse tentando decidir qual versão da verdade vai me entregar. Quando fala, a voz sai mais baixa. Mais perigosa. — Você está com medo de mim... ou do que acontece com você quando está comigo? A pergunta me acerta como um tapa. Abro a boca. Fecho de novo. Porque essa é a verdade que eu não posso dizer. Não tenho medo dele. Tenho medo da facilidade absurda com que meu corpo o reconhece. Tenho medo do jeito como ele entra em mim sem tocar. Tenho medo de querer. Pior: tenho medo de querer justamente o homem que tem tudo para me destruir. — Você está arrependida? — ele pergunta. E ali está. A pergunta que realmente importa. Não o trabalho. Não a empresa. Não a reputação. Aquilo. Nós. Meu corpo inteiro grita não. Eu não estava arrependida. Nem um pouco. Se ele me encostasse naquele instante, eu provavelmente esqueceria meu nome, meus traumas, meu juízo e tudo o que jurei a mim mesma. Mas dizer isso seria abrir uma porta que eu talvez nunca mais conseguisse fechar. Então faço a única coisa covarde o bastante para me salvar. Minto. — Eu tenho alguém. Thomas fica imóvel. Não apenas quieto. Imóvel. Como se a frase tivesse atravessado direto o osso. Pela primeira vez desde que o conheci, ele parece um homem pego desprevenido. Não poderoso. Não inalcançável. Só... atingido. — Tem? — ele pergunta, quase num sopro.






