Início / Romance / CAMINHO TRAÇADO: ESCOLHI ELE PARA FUGIR DE VOCÊ / Quando Thomas me olhou, uma parte de mim quis levantar e ir atrás dele.
Quando Thomas me olhou, uma parte de mim quis levantar e ir atrás dele.

Vinícius sustenta o olhar. Não há hostilidade aberta, mas há cautela agora. Uma percepção começando, ainda sem forma.

— E você costuma almoçar com todos os funcionários que pedem demissão?

A pergunta é educada.

Mas vem afiada.

Pela primeira vez desde que se sentou, Thomas fica em silêncio por um instante visível.

Então ergue a xícara e toma um gole de café antes de responder.

— Não.

Só isso.

Sem explicação.

Sem desculpa.

Sem mentira.

A honestidade me desarma mais do que qualquer justificativa faria.

Vinícius entende o peso daquela resposta.

Talvez não tudo.

Mas o suficiente.

Ele recua meio centímetro na cadeira. Nada dramático. Só o mínimo ajuste corporal de alguém que acabou de perceber que entrou em uma conversa que começou antes dele.

Meu peito aperta.

Thomas pousa a xícara no pires e fala comigo outra vez.

— Sua mesa continua sua.

Não é uma ordem.

Não é um pedido.

É pior.

É a declaração calma de um homem acostumado a fazer o mundo abrir espaço para a própria vontade.

Eu sustento o olhar dele com dificuldade crescente.

— Eu ainda não decidi.

A mentira sai fraca.

Thomas percebe.

Mas, em vez de me pressionar, apenas se levanta.

Ajusta o punho da camisa. Depois o relógio.

Gestos precisos. Econômicos. Como se estivesse recolocando cada parte de si no lugar antes de sair.

Então apoia a mão no encosto da minha cadeira.

Não em mim.

No encosto.

Ainda assim, o calor da proximidade me atravessa inteira.

Quando ele fala, é baixo o suficiente para parecer profissional. Íntimo o suficiente para não ser.

— Pense com calma.

Meus dedos se apertam uns contra os outros sob a mesa.

Ele então olha para Vinícius e inclina a cabeça em despedida.

— Foi um prazer.

Vinícius responde no mesmo tom.

— Igualmente.

Thomas volta os olhos para mim uma última vez.

E ali está.

Tudo o que ele não disse.

A raiva contida.

A certeza.

A recusa em me perder com facilidade.

E alguma coisa muito mais perigosa do que posse bruta: convicção.

Depois ele vai embora.

Sem pressa.

Sem olhar para trás.

Mas levando o ar do restaurante com ele.

Eu só percebo que estava prendendo a respiração quando ele atravessa a porta de vidro e some na claridade da rua.

Vinícius exala devagar, como quem sai debaixo d’água.

— Uau.

A palavra escapa dele com uma mistura de surpresa e desconforto.

Baixo os olhos para o prato intacto diante de mim.

— Desculpa.

— Não. — Ele balança a cabeça. — Não precisa pedir desculpa.

Há uma pausa.

— Seu ex-chefe é... intenso.

Solto uma risada curta, cansada.

— É.

Vinícius passa o polegar pela lateral do copo, pensativo.

— Ele fala de você como quem não quer perder a melhor funcionária da empresa. Mas olha para você como se a conversa não fosse só sobre trabalho.

Meu coração erra uma batida.

Ergo os olhos lentamente.

Vinícius não me encara com acusação. Nem ciúme. Só com uma sinceridade desconfortável.

— O que houve lá, Maya?

A pergunta vem sem cobrança, mas pesa mesmo assim.

Eu poderia mentir.

Dizer que Thomas é apenas controlador. Dizer que o ambiente me sufocou. Dizer que ele não aceita ser contrariado.

Nada disso seria exatamente falso.

Mas também não seria a verdade inteira.

A verdade inteira tem mãos firmes, voz baixa e um beijo que ainda vive no meu corpo como se tivesse sido há minutos.

Engulo em seco.

— Ele é exigente demais — respondo, porque é o máximo que consigo oferecer sem desmontar na frente dele. — E eu... não estava conseguindo separar as coisas.

Vinícius me observa por alguns segundos.

Talvez esperando mais.

Talvez entendendo que não vou dar.

Então ele apenas assente.

— Tá.

Simples assim.

Sem pressão.

Sem invasão.

Sem me encurralar dentro da minha própria resposta.

E é exatamente por isso que a culpa cresce.

Porque Vinícius é gentil onde Thomas é avassalador.

É seguro onde Thomas é risco.

É claro onde Thomas me transforma em labirinto.

Mas, enquanto Vinícius pega o cardápio de novo e tenta salvar a leveza do almoço, tudo o que consigo pensar é que Thomas Albuquerque acabou de se sentar à nossa mesa, mediu o homem que está diante de mim e saiu sem recuar um único centímetro por dentro.

Rafael tinha tido tempo. Tempo para entrar na minha vida, transformar presença em hábito e confundir amor com vigilância, cuidado com domínio. 

Thomas, não. 

Thomas não teve tempo.

 Eu cortei antes, saí antes, pedi demissão antes. 

Mas, enquanto fito a porta por onde ele desapareceu, uma pergunta gelada se instala em mim com a delicadeza de uma lâmina: e se o perigo nunca tiver dependido de tempo? 

E se bastar um homem me ver da forma certa demais para tudo começar de novo?

O medo volta, mas agora vem misturado a algo muito mais perigoso: a consciência do que eu estou tentando esconder. A lembrança insuportavelmente viva de que, quando Thomas me olhou, uma parte de mim quis levantar e ir atrás dele. Eu quis segui-lo porque, em comparação à segurança insossa que eu tento construir com Vinícius, o Thomas é o único que me faz sentir, mesmo que seja o medo. Eu quis ir atrás dele porque, por um segundo, a ideia de fugir pareceu muito mais aterrorizante do que a ideia de me render.

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