A PARANOIA E O LABIRINTO DE MAYA

Maya

O silêncio do apartamento da minha tia, que durante tanto tempo tem sido meu abrigo, naquela noite me recebe como uma acusação.

Tranco a porta do meu quarto e fico parada por um segundo. A testa encostada na madeira, os olhos fechados, o corpo ainda vibrando como se não tivesse entendido que acabou. Como se uma parte de mim ainda estivesse lá.

No escritório. No sofá. Debaixo das mãos dele.

Solto o ar devagar, mas ele volta preso no meu peito. Meu Deus. O cheiro de Thomas ainda está em mim. Na minha pele. No meu cabelo. Na seda da blusa amassada contra o meu corpo. Em lugares que a água não alcança.

Aquilo me atinge com tanta força que preciso apertar a maçaneta para não perder o equilíbrio.

O que foi que eu fiz? Como foi que eu deixei isso acontecer?

Caminho até o banheiro quase às cegas e ligo o chuveiro no máximo, como se a água quente pudesse desfazer a noite, apagar o que meu corpo aprendeu e me devolver a mulher que entrou naquele escritório horas antes. Fico debaixo do jato até a pele arder, até os cabelos pesarem nas costas, até o vapor encher tudo.

Não adianta. Ainda consigo senti-lo.

A firmeza da mão dele na minha cintura. A voz baixa no meu ouvido. A maneira absurda como meu corpo respondeu antes mesmo que eu pudesse pensar.

Antes do medo. Antes da culpa.

Antes que o nome de Rafael atravessasse minha cabeça como uma sentença.

Fecho os olhos com força. Rafael começou assim.

Não com gritos. Não com violência. Não com ameaças. Começou com atenção. Com presença. Com a ilusão sufocante de ser vista, protegida, escolhida. Começou ocupando espaço devagar, com tanto cuidado que, quando percebi, já não existia um canto da minha vida que não tivesse sido invadido por ele. Quando percebi, respirar sozinha já parecia traição.

E agora, Thomas.

Thomas, que é maior em tudo. Maior em poder. Maior em presença. Maior no estrago que pode causar.

Apoio as mãos frias na pia e ergo os olhos para o espelho embaçado. Mal me reconheço. Meu rosto está corado demais. A boca inchada demais. Os olhos abertos demais. Eu pareço exatamente o que passei anos jurando que nunca mais seria: uma mulher abalada por um homem.

Uma mulher que cedeu. Uma mulher burra o bastante para esquecer, por alguns minutos, tudo o que a vida já lhe ensinou da pior maneira.

— Idiota — sussurro para meu próprio reflexo.

Porque não foi fraqueza de um segundo. Foi pior. Eu quis.

Quis quando ele me olhou. Quis quando ele se aproximou. Quis quando tentei me convencer a sair e decidi ficar. Quis quando devia ter lembrado quem ele era, quem eu era, onde nós estávamos.

Meu chefe.

Essa palavra cai dentro de mim como uma pedra.

Meu chefe.

Levo a mão à boca e rio uma vez, sem humor nenhum, quase em desespero. Perfeito, Maya. Depois de tudo, depois de Rafael, depois de reconstruir cada pedaço de si com unha e sangue, depois de conquistar o próprio espaço, o próprio nome, a própria independência... você vai lá e transa com o homem que assina sua folha de pagamento.

No escritório dele. Na empresa dele. Na merda da empresa onde todo mundo olha para ele como se ele fosse intocável.

Sinto o estômago virar. Porque não é só sobre desejo. Não é só sobre vergonha. É sobre trabalho. Sobre dignidade. Levei tanto tempo para construir uma imagem profissional e a destruí por causa de uma única noite.

Como é que eu vou olhar para ele amanhã? Como é que eu vou entrar naquela sala? Como é que eu vou me sentar em uma reunião, falar de contratos, de clientes, de imóveis, como se a minha boca não soubesse exatamente o gosto da pele dele?

A simples ideia faz meu coração acelerar em um pânico seco.

Olho para o celular sobre a pia. A tela está apagada. Nenhuma mensagem. Nenhuma ligação. Nada.

E, ainda assim, não consigo desviar os olhos. Porque o silêncio do aparelho não acalma; só prolonga a tortura. A expectativa é pior do que qualquer notificação. Fico esperando o toque como quem espera um disparo. Como se, no instante em que o nome dele aparecer na tela, alguma coisa irreversível fosse começar.

Pego o celular. Largo. Pego de novo. Nada.

Talvez ele esteja me dando espaço. Talvez esteja esperando. Talvez esteja fazendo exatamente o que homens como ele fazem: deixando que a certeza do poder trabalhe por eles.

Meu peito aperta. Mas a verdade mais humilhante me atinge logo em seguida, cruel e limpa: uma parte de mim queria que ele mandasse mensagem. Queria alguma coisa. Uma palavra. Uma ordem. Um "chegou bem?". Qualquer prova de que não fui a única a sair de lá em ruínas.

Fecho os olhos, enojada comigo mesma. É isso que me apavora. Não é só o que Thomas pode fazer. É o que eu queria deixar que ele fizesse.

Volto para a sala com a toalha apertada ao redor do corpo, mas o frio já não vem da pele. Sento-me no sofá e puxo os joelhos para cima, encarando a porta de entrada como se ela pudesse se abrir a qualquer segundo.

O apartamento está quieto. Seguro. E, pela primeira vez em muito tempo, isso não basta para me acalmar.

Porque Thomas não entrou aqui. Mas entrou em mim de um jeito muito pior. Entrou no lugar que passei anos fortificando. No espaço onde eu guardava o que restou da minha lucidez, da minha disciplina, da mulher que aprendeu a não precisar, a não confiar, a não se entregar.

E eu deixei. Não, pior que isso. Eu abri.

Lembro da forma como ele me olhou, como se me visse inteira e não tivesse medo de nada do que encontrasse. Lembro da voz dele baixa, firme, me conduzindo sem pressa, como se já soubesse o tempo exato em que eu quebraria. Lembro da segurança absurda das mãos dele, do cuidado que não era delicado, mas atento. Do jeito como ele percebeu cada hesitação antes que ela virasse recuo.

Lembro, e meu corpo responde com uma violência que me faz sentir raiva de mim mesma. Porque foi arrebatador. Essa é a palavra que eu não queria admitir nem morta.

Não foi um erro frio. Não foi um impulso vazio. Não foi uma fraqueza sem vontade. Foi desejo. Desejo bruto, inteiro, antigo. Como se eu tivesse passado um ano à beira de um precipício e, na primeira vez em que ele estendeu a mão, eu tivesse escolhido cair.

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