Mundo ficciónIniciar sesiónAgora estou no calor.
No barulho. No empurra-empurra. E, mesmo cercada pela vida que escolhi, alguma coisa continua procurando outra. Talvez seja isso que mais me assuste. Não sentir falta da Albuquerque Prime. Nem do apartamento. Nem do carro. Sentir falta do homem de quem passei semanas tentando me convencer que precisava escapar. Porque, se esse vazio não é medo... Então vou ter que dar outro nome para ele. E ainda não estou pronta para fazer isso.Thomas
A sala está exatamente como sempre.
As janelas de vidro espelhado devolvem uma São Paulo cinza e imponente. O aço escovado reflete a luz com precisão cirúrgica. A mesa, impecável. Os relatórios alinhados. O silêncio é caro, interrompido apenas pelo som distante de passos no corredor e pelo toque abafado de telefones em outras salas. Nada muda. Ainda assim, no instante em que entro, eu sei. Falta alguma coisa. Meu olhar vai direto para a mesa dela, do lado de fora da minha sala. Vazia. Não há a garrafa de água pela metade. Nem o caderno onde Maya anotava tudo com aquela letra firme, ligeiramente inclinada, como se até a caligrafia tivesse urgência. Não há o casaco jogado sobre a cadeira. Não há a voz dela discutindo com Murilo sobre um contrato. Não há o perfume discreto que, às vezes, ficava no corredor depois que ela passava. Não há Maya. E a ausência dela é grande demais para caber naquele espaço. Fico parado por alguns segundos. É só uma mesa. Uma cadeira. Uma funcionária pediu demissão. A lógica diz exatamente isso. Mas meu corpo não acredita na lógica. Porque Maya não levou apenas a própria presença. Levou o único pedaço da minha rotina que fazia meus dias parecerem diferentes uns dos outros. Solto a chave sobre a mesa e afrouxo o nó da gravata. O gesto não alivia nada. — O senhor tem reunião com os investidores em vinte minutos — Murilo informa da porta, cauteloso. — E chegou o pedido formal de desligamento da Maya Menezes. Assinto sem olhar para ele. — Deixa aí. Ouço o envelope pousar sobre a mesa. Murilo sai logo depois, com a inteligência de quem entende que existem silêncios que não admitem companhia. Olho para o papel durante alguns instantes. O texto é exatamente como ela: objetivo, elegante, cuidadoso. Maya agradece a oportunidade, menciona motivos pessoais e formaliza a saída sem deixar espaço para perguntas. Ela sempre soube fechar portas com delicadeza. O que nunca percebeu é que deixava janelas abertas. Meu olhar para na assinatura. Maya Menezes. Quatro sílabas. E nenhuma delas deveria ter o poder de desorganizar um homem como eu. Mas têm. Porque não é a partida que dói. Pessoas vão embora. Contratos acabam. Empresas seguem funcionando. Eu mesmo já encerrei negociações que movimentavam milhões sem perder uma noite de sono. O que me corrói é a impotência. É imaginar Maya convicta de que precisa fugir de mim para encontrar paz. Vou até a janela com o envelope ainda nas mãos. Lá embaixo, São Paulo continua indiferente. Carros. Buzinas. Pessoas atravessando ruas. A vida acontecendo como se nada tivesse mudado. E, dezenas de andares acima, um homem acostumado a controlar crises, mercados e decisões estratégicas descobre que não sabe o que fazer com a ausência de uma única mulher. Tenho dinheiro suficiente para ignorar qualquer custo. Influência para encurtar qualquer caminho. Experiência para perceber quando alguém mente, hesita ou tenta esconder a verdade. Maya faz as três coisas. E, por mais que eu tente entender, não consigo encontrar a chave desse enigma. Ela me olha e, no instante seguinte, desvia. Me deseja e, logo depois, ergue um muro inteiro entre nós. Como alguém pode buscar a proximidade com tanta sede e, no segundo seguinte, recuar como se a própria felicidade fosse um erro?






