A frase entra na minha pele como agulha.

A garçonete retorna, pergunta se ele deseja alguma coisa. Thomas dispensa o almoço e pede um café, como se estivesse ali para uma conversa trivial entre colegas. Como se não tivesse acabado de atravessar o meu almoço como uma lâmina.

— Foi uma surpresa imagino...Maya ter pedido demissão. — Vinícius comenta.

Thomas demora um segundo a mais do que o necessário.

— Sim.

Não há ironia. Nem dramatização. Só verdade seca.

Ele cruza os dedos diante de si.

— A Maya é uma profissional rara. Inteligente, intuitiva, extremamente eficiente sob pressão. Tem um tipo de leitura de mercado que não se ensina. E, além disso... — os olhos dele voltam para os meus — ela sabe negociar sem se vender, o que hoje em dia é quase uma anomalia.

O elogio me acerta de forma desconfortável.

Porque não vem carregado de charme barato.

Vem carregado de precisão.

Vinícius sorri de lado, como se uma parte dele ficasse orgulhosa por mim.

— Eu já imaginei que ela fosse boa. Mas você fala dela como se fosse insubstituível.

Thomas sustenta o olhar dele com a mesma elegância cortante.

— Algumas pessoas são.

O silêncio cai entre nós com o peso de uma frase que, tecnicamente, é profissional — mas não inteiramente.

Vinícius recosta um pouco na cadeira, os dedos ainda perto dos meus sobre a mesa. Não me segura. Não me exibe. Não recua. Há algo de discretamente protetor nisso.

Thomas nota.

Nada no rosto dele muda.

Mas eu noto que ele nota.

— Se ela decidiu sair, imagino que tenha tido motivos — Vinícius diz, agora com mais cuidado. — A Maya não me parece impulsiva.

Thomas quase sorri.

Quase.

— Não. Ela não é. — Então ele me encara. — O que me faz acreditar que talvez essa decisão tenha sido tomada sob tensão, e não com a frieza que normalmente caracteriza tudo o que ela faz muito bem.

A frase entra na minha pele como agulha.

Vinícius volta-se para mim.

— Foi isso?

Abro a boca, fecho.

Thomas me observa como se pudesse ver exatamente onde a minha defesa começa a ceder.

— Eu só precisava de espaço — respondo, por fim.

Minha própria voz me soa distante.

— Espaço? — Vinícius repete.

Thomas recosta minimamente na cadeira, sem me poupar.

— O ambiente da Albuquerque Prime é exigente. Pode ser demais para algumas pessoas em determinados momentos.

Aquilo me irrita.

Porque é elegante.

Porque é calculado.

Porque, por trás da frase perfeitamente aceitável, eu escuto tudo o que ele não está dizendo.

Demais para algumas pessoas.

Demais para você.

Demais depois do que aconteceu.

Levanto os olhos para ele.

— Não foi o ambiente — digo, firme. — Fui eu.

Thomas inclina a cabeça, atento.

— Como assim? — Vinícius pergunta.

Pego o guardanapo, desdobro, dobro de novo.

— Eu estou cansada. Saturada. Precisando sair antes que comece a me perder... dentro daquilo tudo.

A última parte é mais verdade do que deveria.

Thomas entende.

Vejo no jeito quase imperceptível com que o olhar dele endurece.

O café chega. Ele agradece sem sequer olhar para a xícara.

— Você construiu muita coisa lá dentro — ele diz, ainda para mim. — E não estou falando apenas de números, Maya. Estou falando de espaço, respeito, influência. Você levou tempo para conquistar tudo isso. Seria uma pena jogar fora por causa de algo que ainda pode ser... reorganizado.

Reorganizado.

Meu pulso acelera.

Porque, outra vez, a escolha de palavras dele é impecável demais para ser inocente.

Vinícius franze levemente a testa.

— Algo?

Thomas finalmente desvia os olhos de mim para olhar diretamente para ele.

— Toda saída tem contexto. Eu não costumo desistir de bons profissionais sem entender o contexto.

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