MINHA DEMISSÃO

Voltar ao trabalho. Voltar ao controle. Voltar a ser apenas Maya — a versão que não treme por dentro com lembranças que não deveriam ter espaço aqui.

Mas não importa o quanto eu me concentre, uma parte de mim permanece presa no intervalo entre ontem e agora.

E esse intervalo, infelizmente, não para de crescer dentro de mim.

O toque do telefone me sobressalta. Atendo com uma agilidade exagerada, a voz soando mais estridente do que pretendo. É um fornecedor, falando sobre prazos, mas eu não absorvo nada. Minhas palavras saem ensaiadas, robóticas, mecânicas. Enquanto finjo escutar, meus olhos, traidores, buscam involuntariamente a parede de vidro do escritório dele.

Ele está lá. Thomas não trabalha; ele comanda. Ocupa a cadeira de couro com uma naturalidade que beira a insolência. Ele não olha para mim — não agora. Está curvado sobre algum papel, a mão forte apoiada na testa, a sombra da barba por fazer desenhando uma linha de cansaço que, estranhamente, o deixa ainda mais perigoso.

Sinto o peso daquele olhar, mesmo que ele não esteja virado na minha direção. É um peso físico. Uma gravidade que puxa cada fibra do meu ser em direção à sala dele.

É um jogo de resistência silencioso. Eu me concentro na planilha à minha frente. Ele se concentra na empresa. E, no entanto, entre a minha mesa e a dele, o ar estala, denso, saturado de tudo o que dissemos — e, principalmente, de tudo o que silenciamos.

Eu não posso permitir que ele veja. Não posso deixar que a rachadura na minha fachada se torne um abismo. Mas, a cada segundo que passa, o vidro da sala dele parece mais fino. O ar, mais rarefeito. E a distância entre nós, cada vez mais uma mentira insustentável.

Eu abaixo a cabeça e forço os dedos contra o teclado. Preciso respirar. Preciso esquecer o gosto daquela boca.

Mas ele está ali. E só o fato de ele respirar o mesmo ar que eu parece ser o suficiente para desmantelar qualquer barreira que eu tente erguer.

As palavras que eu tinha atirado contra ele na copa — eu tenho alguém — continua ecoando dentro de mim como uma sentença que eu mesma assinei.

Foi mentira quando saiu da minha boca.

Mas ontem, quando encontrei Vinícius no corredor do prédio e ele me convidou, pela terceira vez, para um vinho, eu sorri e disse sim antes que o bom senso pudesse me puxar de volta.

Foi rápido. Fácil. Limpo.

Exatamente o oposto do que eu sentia quando estava perto de Thomas.

Vinícius me levou a um lugar pequeno, agradável, iluminado demais. Conversou sem me pressionar. Riu com facilidade. Tocou a minha mão como quem pede licença até para existir. Quando me beijou, eu deixei.

Porque precisava deixar.

Porque precisava transformar a mentira em alguma coisa concreta antes que Thomas olhasse para mim de novo e percebesse a verdade estampada em cada centímetro do meu corpo.

Então comecei alguma coisa com Vinícius.

Não porque estivesse apaixonada.

Não porque estivesse pronta.

Mas porque o medo também sabe escolher caminhos.

E, naquele momento, Vinícius parecia um caminho possível.

Ao meio-dia, meu celular vibra sobre a mesa.

O nome dele acende na tela.

Atendo no segundo toque.

— Oi — digo, baixando a voz sem necessidade.

A voz de Vinícius chega leve, morna, sem peso escondido, sem perigo por trás de cada sílaba.

— Almoça comigo?

Fecho os olhos por um segundo.

Há algo de quase vergonhoso no alívio que sinto.

Vinícius não me desestabiliza.

Não me lê demais.

Não me faz sentir que estou sempre a um passo de um precipício.

Ele é simples.

E, naquele dia, simplicidade parece a forma mais próxima de salvação.

— Quero, sim.

Combinamos de nos encontrar no restaurante da esquina, o de sempre, aquele onde os almoços são rápidos e os clientes da região entram e saem sem prestar atenção em ninguém.

Assim que desligo, olho para a tela do computador.

O e-mail de demissão ainda está aberto.

Leio uma última vez.

Objetivo. Polido. Irreversível.

Não posso continuar ali.

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