Mundo de ficçãoIniciar sessãoNão posso continuar ali.
Não depois do que aconteceu. Não depois do que eu permiti. Não depois de descobrir, da maneira mais humilhante possível, que bastava Thomas me tocar para tudo em mim vacilar. Meu dedo paira sobre o mouse por um instante. Depois eu clico. Enviar. O som quase inaudível da mensagem partindo parece alto demais. Fico imóvel por alguns segundos, olhando para a tela como se ela pudesse voltar atrás por mim. Não volta. Passo a tarde recolhendo o pouco que era meu. Algumas canetas, dois livros, uma foto antiga dentro de um porta-retrato discreto, um cachecol esquecido no fundo da gaveta. Objetos pequenos. Leves. Mesmo assim, a caixa parece pesada demais nos meus braços. No RH, a conversa é rápida e cuidadosa. Tentam entender. Perguntam se há algum problema. Oferecem tempo, condições melhores, remanejamento. Eu recuso tudo com a calma ensaiada de quem sabe que, se abrir uma fresta, não sai mais dali. Quando deixo a sala, os papéis ainda seguem o fluxo da empresa, mas a decisão já está tomada. Eu não vou voltar atrás. O corredor até o elevador parece uma trilha infinita, e sinto olhares — a curiosidade viscosa dos colegas — roçando em mim. Não olho para ninguém. Ajusto a caixa nos braços, como se fosse um escudo, e sigo em frente. Quando as portas metálicas se abrem, o ar que escapa do elevador me atinge como um soco. Thomas está lá dentro. Sem o paletó. As mangas da camisa branca dobradas até os antebraços, revelando veias saltadas e uma tensão que ele claramente não consegue mais esconder. A gravata está frouxa, um nó desleixado que diz muito sobre o estado mental dele. Na mão direita, o papel da minha demissão está amassado, não por desleixo, mas por força bruta. Por um segundo, o mundo estanca. O elevador se torna uma câmara de pressão. Os olhos azuis, frios como o aço, descem para a caixa nos meus braços e, em seguida, traçam o caminho de volta até o meu rosto. O que vejo ali não é surpresa. Nem raiva cega. É o olhar de um homem que analisou cada variável da minha fuga, encontrou o defeito e agora está pronto para consertar o estrago. — Entra, Maya. A voz é um sussurro cortante. Controlada, mas com a periculosidade de uma lâmina oculta. Permaneço imóvel no saguão. — Eu estou saindo. — Eu sei. — Ele não se move, mas a presença dele preenche todo o espaço. — O RH recebeu o seu pedido. O modo como ele diz aquilo, como se tivesse impedido o trâmite com um simples estalar de dedos, me irrita tanto quanto me desarma. Ele tem controle absoluto sobre tudo. Inclusive sobre o meu caos. — Então me deixa passar. Thomas dá um passo à frente, ocupando a entrada. Não é um movimento brusco; é um movimento de domínio. Ele não bloqueia a porta com o corpo, ele bloqueia com a aura. — Você realmente achou que ia pedir demissão e desaparecer antes de me dar uma explicação? — Eu não te devo nada. — Talvez não devesse — ele rebate, a voz descendo uma oitava, tornando-se mais íntima, mais grave. — Se isso fosse apenas sobre o seu cargo. — É exatamente sobre o meu cargo. A sombra de um sorriso cruel toca a boca dele. — Não. Não é. O silêncio estica, elétrico. Ele ergue o papel amassado. — Isso não é uma demissão. É uma rendição. Você está fugindo porque não aguenta o que não consegue controlar. — Não me analisa. — Então pare de mentir para si mesma. A frase b**e como um chicote. Sustento o olhar dele, embora minhas pernas ameacem falhar. — Eu não estou mentindo. Ele se aproxima. Agora, estou presa entre o corredor e a parede dele. O perfume — sândalo, café e algo puramente masculino — invade meus pulmões. — Não? — ele murmura, a voz agora um desafio. — Engraçado. Porque eu verifiquei. Procurei pelo homem que você disse ter. Meu sangue gela. A audácia dele me deixa sem fôlego. — Você investigou minha vida? Ele não recua. Ele não pede desculpas. Ele assume com uma naturalidade que é, por si só, uma agressão. — Eu precisei saber se ele existia ou se era apenas um nome que você deu ao seu próprio medo. Aquilo me corta a carne. Ele desnudou a minha mentira. — Você não tem esse direito. — Eu sei exatamente o que eu não tenho. — Ele dá o último passo, invadindo meu espaço pessoal. — O que eu ainda não sei é por que você está tentando destruir a própria carreira por causa de uma única noite que ambos sabemos que foi tudo, menos um erro. — Foi um erro! — grito, a voz falhando. — Não — ele diz, a firmeza dele me anulando. — O erro foi você achar que podia fingir que aquela noite não te marcou tanto quanto me marcou. Perto demais. O calor dele é uma tentação, uma tortura. Sinto o cheiro de pele quente, vejo a pulsação no pescoço dele. Meu corpo está traindo minha mente, implorando para que ele avance. Eu odeio isso. Eu o odeio por me fazer sentir assim. — Você não pode segurar a minha vida — sinto vontade de chorar e de gritar ao mesmo tempo. — Eu não segurei. Pedi ao RH que colocasse em espera. Apenas até eu falar com você. Eficiente. Preciso. Assustador. — Eu não vou ficar. — Por que não quer? — ele inclina a cabeça, um predador observando a presa vacilar. — Ou porque sabe que, se ficar, não vai conseguir manter as mãos longe de mim? O impacto da pergunta é físico. Fico muda, com o ar preso na garganta. — Eu senti você nos meus braços, Maya — ele sussurra, a voz carregada de uma promessa perigosa. — Eu sei como você responde. — Não faz isso — suplico, a voz trêmula. — Não usa isso contra mim. — Não estou usando. Estou te lembrando de uma realidade que você está tentando apagar. Não me olhe como se eu tivesse inventado o que aconteceu entre nós.






