Mundo de ficçãoIniciar sessãoO silêncio do escritório retorna, mas agora ele parece menor. O ar está rarefeito.
Eu me levanto e vou até a janela, observando a cidade lá embaixo, uma massa de luzes e vidas que eu costumava observar como um general observa o seu tabuleiro. Mas hoje, eu não vejo o tabuleiro. Eu só vejo o reflexo dela nos vidros da copa. "Eu tenho alguém." A mentira dela é tão óbvia que dói. E o fato de ela ter se dado ao trabalho de mentir... isso significa que eu a assustei. Cheguei perto demais. Excelente. O jogo está apenas começando. E, ao contrário do que ela pensa, eu não desisti. Eu só estou mudando a estratégia. Ela quer um homem normal? Ela quer segurança? Eu vou mostrar a ela que, perto do fogo que eu tenho para oferecer, a segurança que ela tanto busca não passa de um inverno gelado e sem vida. Ela quer uma vida comum? Vou dar exatamente isso. Vou deixá-la mergulhar na monotonia, convencer-se de que está protegida, até que ela perceba, tarde demais, que a única coisa que essa tal 'segurança' proporciona é um tédio mortal. E, quando ela estiver sufocando na própria rotina, eu estarei lá para lembrá-la de como é sentir algo de verdade. DEPOIS DAQUELE BEIJOMaya
Depois daquele beijo, o ar da Albuquerque Prime mudou.
Nada aqui se transforma de verdade. As mesas continuam exatamente no mesmo lugar, alinhadas com precisão quase agressiva. Os corredores seguem impecáveis, brilhando sob uma iluminação fria demais para ser acolhedora. O som dos telefones toca em intervalos calculados, os saltos ecoam sobre o porcelanato como pequenas decisões apressadas, e as vozes continuam contidas atrás das divisórias de vidro, sempre baixas, sempre controladas. Tudo segue igual. Mas para mim, não. Para mim, o prédio inteiro parece respirar de outro jeito, como se tivesse criado um segundo pulso escondido dentro das paredes. Como se a estrutura inteira estivesse mais viva do que deveria estar. Como se qualquer corredor pudesse incendiar a qualquer momento. Como se bastasse Thomas Henrique Albuquerque erguer os olhos na minha direção para eu perder completamente a coerência interna que me mantém funcionando. Eu tento não olhar para ele. Tento, de verdade. Mas o corpo não respeita essa decisão com a mesma disciplina que a minha mente tenta fingir. Existe uma espécie de memória física que não pede permissão — ela simplesmente acontece. Um calor curto, imediato, que me atravessa quando lembro do beijo, e que me irrita por ainda existir em plena luz do dia, em pleno ambiente de trabalho, em plena realidade corporativa que deveria ser imune a esse tipo de coisa. Minha mesa, que sempre foi o meu território de controle, agora parece uma jaula bem iluminada. Tudo está no lugar. Organizado. Perfeito. E ainda assim, me sinto exposta. Eu trabalho. Ou finjo trabalhar. Os dedos se movem no teclado com uma eficiência quase automática, revisando contratos que já conheço de cor, respondendo e-mails com frases que poderiam ter sido escritas por outra versão de mim mesma, mais funcional, mais distante, mais segura. Eu retorno ligações, confiro números, reorganizo planilhas que não precisam ser reorganizadas. É um tipo de produtividade que não vem de foco — vem de fuga. Cada tarefa concluída é uma tentativa silenciosa de empurrar minha mente para longe da imagem dele. Não funciona. Porque, entre um cálculo e outro, entre uma frase e outra, ele volta. Não como presença concreta. Mas como interrupção. Como lembrança. Como se o simples fato de existir agora incluísse a possibilidade de que ele estivesse em algum lugar do mesmo prédio, respirando o mesmo ar controlado, atravessando os mesmos corredores impecáveis, e isso fosse o suficiente para desestabilizar tudo o que eu tento manter em ordem. Eu engulo em seco quando percebo o quanto estou distraída. O cursor piscando na tela parece me acusar de algo que não sei nomear. Eu tento me forçar a voltar.






