Cap.3

Olhei para o meu café, vendo a superfície escura refletir a luz fraca. 

— Porque o Gabriel e a Maria nunca conheceram a família do pai. A mãe dele… bem, você sabe como é. Distante, fria. Eles só conheceram os avós do Alessandro… É a tia dele. Talvez a última chance e o Alessandro… ele não pediu, mas eu vi no olhar dele que ele queria ir, por ela.

Alice soltou um suspiro longo, misto de frustração e compreensão. Ela esticou a mão sobre a mesa e pegou a minha, apertando. 

— Eu, se fosse você, não iria. Nem a pau. Mas a gente é diferente, e você, minha amiga, tem um coração do tamanho do mundo. Sempre teve. — Ela balançou a cabeça. — Só espero que você não se arrependa.

A pressão da sua mão era um conforto. 

— Eu também espero — sussurrei, sentindo a insegurança voltar à tona.

— Olha — ela disse, sua voz ficando mais suave, mas determinada. — Vai dar tudo certo. Por um motivo simples que o Alessandro de hoje não é o de dez anos atrás. Aquele homem é um cachorrinho no seu pé, Lari. Todo mundo vê. Se alguém levantar a voz para você, se fizerem uma cara feia, ele mesmo vai dar um jeito. Pode ter certeza.

Eu ri, a imagem de Alessandro, um homem poderoso e imponente, sendo chamado de “cachorrinho” por Alice, era hilária. 

— Pare com isso.

— É verdade! E mais, você não está mais sozinha. Não é mais você contra o mundo. Vocês são um time e um time bilionário, por sinal. — Ela arregalou os olhos, fazendo graça. — Se a coisa ficar feia e alguém encher o saco, vocês dão meia-volta, pegam o jatinho particular e vão passar o Natal nas Maldivas, oras! Deixa a ‘família perfeita’ lá na praia australiana com a hipocrisia deles.

Dessa vez, minha risada saiu alta e genuína, fazendo algumas pessoas na cafeteria virarem para olhar. Só a Alice mesmo para cortar a tensão com uma solução tão extravagante e tão… Alice.

— Obrigada — disse, ainda rindo, sentindo o peso no peito aliviar um pouquinho. — Eu precisava ouvir isso.

— De nada, querida. Agora tome seu café que está esfriando. E lembre-se, jatinho nas Maldivas. Plano B sempre em mente.

***

O dia amanheceu com aquela luz cinzenta e preguiçosa típica de dezembro, mas dentro de mim era um furacão de emoções. 

As malas estavam alinhadas na entrada, como soldados prontos para uma batalha da qual eu queria desertar. 

Gabriel, vestido com uma camiseta do Homem-Aranha e uma mochila nas costas, corria de um lado para o outro, perguntando a cada dois minutos se já era hora de ir para o avião. 

Maria Eduarda, no colo da babá, observava tudo com seus olhos arregalados e sérios.

A campainha tocou e meu coração, que já estava acelerado, deu um salto. Era meu pai.

— Vovô! — Gabriel gritou, lançando-se nas pernas dele.

Alvaro sorriu, aquele sorriso calmo e seguro que sempre foi meu porto seguro. 

Ele parecia um pouco mais cansado, os cabelos grisalhos um pouco mais finos, mas os olhos eram os mesmos cheios de uma força tranquila.

— Meu guerreiro — ele disse, afagando a cabeça de Gabriel. — Vai cuidar da mamãe pra mim, hein?

— Eu cuido, vovô! E da Maria também! — Gabriel anunciou, com a pompa de um general.

Foi então que meu pai olhou para mim. E naquele olhar havia tudo, o conhecimento de cada dor que a família de Alessandro me causou, o orgulho pela mulher que eu me tornei, e uma preocupação suave que ele tentava disfarçar. 

Eu me aproximei, e ele abriu os braços. Me afundei naquele abraço de segurança.

— Se cuida, minha filha — ele sussurrou no meu ouvido, sua voz um pouco rouca. — Lembra quem você é.

Eu beijei sua bochecha áspera, sentindo uma pontada de saudade antes mesmo de partir. 

— Você também, pai. Liga se sentir qualquer coisa, tá? Qualquer coisinha. Não importa a hora.

— Vou ligar, não se preocupa — ele acenou, mas eu conhecia aquele jeito teimoso. Ele não ligaria. Não queria ser um peso.

Foi então que dona Fátima, sua companheira nos últimos anos, se aproximou. Uma mulher baixinha, de sorriso fácil e mãos que sempre pareciam ocupadas fazendo algo bom: um bolo, um tricô, um jardim.

— Minha querida — ela disse, puxando-me para outro abraço, este mais macio e cheirando a canela. — Vai com Deus e não fica ansiosa. Eu tô aqui, vou cuidar desse teimoso direitinho. — Ela cutucou o braço do meu pai, que rolou os olhos, mas sorriu. — E se eu achar que ele tá escondendo algo, eu mesma te ligo, pode deixar.

Um alívio genuíno aqueceu meu peito. 

— Obrigada, dona Fátima, de verdade. Isso me deixa muito mais tranquila.

— Ora, que é isso. Agora vai, que o Gabriel tá quase explodindo de ansiedade aí.

Ela estava certa. Meu filho puxava a barra da minha jaqueta. 

— Mãe, o pai disse que já é hora!

Alessandro apareceu na porta da sala, com a chave do carro na mão. Ele estava impecável, como sempre, mas seus olhos procuraram os meus. 

Havia uma determinação ali, um foco que dizia “estou no controle”. Ele cumprimentou meu pai com um aperto de mão firme e um aceno respeitoso para dona Fátima.

— Tudo pronto? — ele me perguntou, com sua voz baixa.

Respirei fundo. Olhei para as malas, para meus filhos, para meu pai. Era hora.

— Tudo pronto.

Com eficiência, Alessandro carregou a última mala grande, vermelha, cheia de coisas da Maria e saiu para colocá-la no porta-malas da SUV preta que nos esperava. 

A babá nos entregou Maria, já enroladinha em seu casaquinho. Segurei minha filha contra o peito, sentindo seu corpinho quente e macio. Gabriel segurou minha mão livre com uma força surpreendente.

As últimas despedidas foram um turbilhão de beijos, abraços apertados e a promessa de Gabriel de trazer uma concha muito bonita para o vovô. 

Minha garganta apertou quando fechei a porta de casa, deixando meu pai e dona Fátima na varanda, acenando.

Dentro do carro, o mundo ficou silencioso de repente. O motor ligou com um ronco suave. Alessandro ajustou o retrovisor, e então se virou, seus olhos encontrando os meus.

— Tudo bem? — ele perguntou.

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