Cap.2

O dia no escritório tinha sido uma loucura. Só queria me desligar e por isso, saí do prédio e na mesma hora, o ar quente da cidade bateu no meu rosto, mas o cansaço era maior. 

E a cafeteria na esquina parecia um santuário.

Puxei a porta e o cheiro de café fresco e croissant amanteigado me envolveu como um abraço. 

O barulho baixo das xícaras, o burburinho das conversas. Já ia direto no balcão quando vi que a mesa no cantinho, perto da janela, estava livre. 

Enquanto me sentava, o garçon, um menino novo que já me conhecia, surgiu com um sorriso.

— O de sempre, Dona Larissa?

— O de sempre, João. Muito obrigada.

Café preto, forte e sem açúcar. Meu combustível nos últimos meses. 

Enquanto esperava, tirei o casaco e fiquei observando a rua,e as luzes de Natal começando a piscar nas árvores. A ansiedade pelo encontro com a família de Alessandro era um peso no peito que não saía.

A campainha da porta tilintou e virei a cabeça, então um sorriso imediato tomou meu rosto. 

Ali, emoldurada na porta, com um vestido rosa que parecia abraçar sua silhueta redonda, estava Alice. Ela procurava com os olhos, e quando me viu, seu rosto se abriu num sorriso gentil. 

Era impossível não sorrir de volta.

Ela veio caminhando com cuidado, uma mão na lombar, a outra apoiando a enorme, linda e redonda barriga. Era uma visão de maternidade plena e radiante.

— Oi, flor! Desculpa a demora, o trânsito estava infernal e esse menino aqui não para de chutar minhas costelas — ela disse, ofegante, enquanto eu me levantava para ajudá-la a se sentar.

— Deixa, deixa, eu consigo — ela riu, mas aceitou minha mão no cotovelo. Sentou-se com um suspiro profundo de alívio. — Ah, meu Deus. A cada dia que passa, sentar e levantar é uma missão impossível.

— Como você está? — perguntei, genuinamente adorando vê-la assim. A gravidez parecia brilhar nela.

— Cansada. Pesada. Feliz — ela respondeu, acariciando a barriga. — Mas sério, o Gael está com pressa. Acho que ele quer conhecer a tia Lari logo.

Meu coração derreteu um pouco. 

— Eu também quero conhecê-lo. Mas que espere a data certinha, hein? Não adianta ter pressa.

O garçon se aproximou e Alice fez seu pedido com a segurança de quem conhece o cardápio de cor.

— Um suco de laranja natural, bem gelado, por favor. E um pão de queijo. Não, melhor dois. O bebê está com fome.

Quando ele foi embora, ela apoiou os cotovelos na mesa e soltou outro suspiro, mas esse era de exasperação. 

— Falando em filhos… O Diogo está me enlouquecendo. 

— O que houve? — perguntei, já imaginando alguma excentricidade do meu amigo.

— É o Lucas. O melhor amigo dele agora foi para o colégio interno, aquele São Bento, sabe? E o Lucas, do nada, decidiu que quer ir também. Vai fazer a prova de admissão e tudo.

— Mas, isso é ótimo! O colégio é maravilhoso — comentei, imaginando meu sobrinho adolescente se tornando um jovem estudioso.

— Para mim e para você é! Mas para o Diogo é o fim do mundo. Ele diz que o filho dele não vai morar longe, que vai ficar traumatizado, que é muito novo e que eles já passaram muito tempo longe… Está fazendo um drama digno de Oscar. Quer proibir e o Lucas, claro, está se rebelando. A casa virou um campo de batalha. 

Não pude evitar de rir. A imagem do Diogo, o homem mais controlador e protetor do planeta, tendo seu coração despedaçado pela independência do filho, era ao mesmo tempo fofa e previsível. 

— Diogo vai ter que entender que faz parte, Alice. Vai ser bom para o Lucas. Ele precisa espalhar as asas.

— É o que eu digo! — ela exclamou, erguendo as mãos. — Mas tenta argumentar com um pai coruja ferido. Impossível.

Nesse momento, nossos pedidos chegaram. O café preto e fumegante para mim, o suco dourado e os pães de queijo quentinhos para ela. Ela deu um longo gole no suco, fechando os olhos de prazer. 

— Nossa, salvou minha vida.

Ficamos um minuto em silêncio, eu tomando meu café, ela saboreando o pão de queijo. Mas eu sentia o seu olhar em mim, aquele olhar de amiga que vê tudo.

— E você? — ela perguntou, mordendo outro pedaço. — Parece que carrega o mundo nas costas. O que foi?

O sorriso fugiu dos meus lábios. Coloquei a xícara no pires com um leve tilintar. 

— É… não estou muito bem, não.

— Fala.

Respirei fundo. 

— Alessandro recebeu uma ligação de uma tia dele que mora na Austrália. Ela está doente, e parece sério. Quer a família toda reunida para o Natal na casa de praia dela.

Alice parou de mastigar e sua expressão mudou imediatamente, ficando séria, protetora. 

— A família toda dele? Aquela corja de esnobes que te tratou feito lixo quando você mais precisava?

Meu estômago embrulhou só de ouvir. 

— Essa mesma.

— É simples, não vai. Você não é obrigada a se submeter a ambiente tóxico nenhum. Ponto final — Sua voz era firme, de quem já tinha dado esse discurso antes. — E o Alessandro? Ele está te obrigando?

Um sorriso pequeno e triste surgiu. Esse jeito brigão de Alice, direto ao ponto, era uma das coisas que mais amava nela. 

— Não, pelo contrário. Ele disse que se eu não me sentir confortável, a gente não vai. Que a prioridade somos nós, as crianças, a nossa paz. Ele sabe como foi… sabe como eles são.

Alice franziu a testa, parecendo um pouco surpresa, mas satisfeita. 

— Bom, pelo menos o cara aprendeu alguma coisa. Então tá resolvido. Não vão.

— Eu disse que íamos.

Agora ela ficou completamente confusa. 

— Por quê, pelo amor de Deus? Larissa, você não deve nada a essa gente!

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