Cap.4

Gabriel, já no banco de trás em sua cadeirinha, respondou por mim 

— Tudo bem, pai! Vamos pro avião!

Eu não consegui falar. Só balancei a cabeça, tentando um sorriso. Pela janela, vi minha casa, meu porto seguro, ficando cada vez menor até virar um ponto e desaparecer quando viramos a esquina.

O caminho até o aeroporto particular foi um mar de ruas e pensamentos. O coração batia forte contra as costelas. Não era só a viagem de avião. Era a viagem de volta para um passado que eu pensei ter superado.

Quando o portão do aeroporto privativo se abriu e vi o jato branco e prateado reluzindo sob a luz fraca do inverno, a realidade caiu como um tijolo. 

Ali estava nossa rota de fuga, nosso “Plano B” que a Alice tanto brincou. E também nossa viagem direto para o coração do território inimigo.

Alessandro estacionou e, antes de sair, colocou sua mão grande e quente sobre a minha, que estava gelada no colo.

— Nós somos um time, Lari — ele disse, ecoando, sem saber, as palavras de Alice. — Sempre. Em qualquer lugar.

Olhei para ele, para aquele homem que outrora me partiu ao meio e que agora era meu maior aliado. Respirei fundo, buscando um pouco da sua firmeza.

— Um time — repeti, em um sussurro que era mais uma promessa para mim mesma.

E, com Maria no colo e Gabriel pulando de empolgação ao meu lado, dei o primeiro passo para fora do carro, em direção ao avião, em direção àquele Natal que, de uma forma ou de outra, ia mudar tudo de novo.

O ronco suave do jato era o único som na cabine, um ruído branco que tentava, sem sucesso, acalmar os meus nervos. 

Eu estava olhando fixamente pela janela, mas não via as nuvens pastel do crepúsculo. Via rostos do passado, olhares frios, sorrisos condescendentes. Podia sentir minhas mãos, entrelaçadas no colo, frias.

Gabriel, finalmente, tinha cedido ao cansaço e dormia profundamente em uma poltrona reclinada, com um cobertorzinho até o queixo. Maria Eduarda estava no quartinho privativo nos fundos da aeronave, dormindo.

 Eu deveria estar relaxando. Mas cada quilômetro que nos aproximava da Austrália era um nó a mais no meu estômago.

Senti, mais do que vi, ele se aproximar. Um movimento suave e o leve afundamento do couro da poltrona ao lado. 

O calor familiar do corpo dele invadiu meu espaço antes mesmo de ele me tocar. Então, seu braço forte envolveu meus ombros, puxando-me para perto, para o aconchego do seu lado.

Eu deixei meu corpo ceder, mas minha tensão não. Suspirei, um som que saiu carregado de todo o peso que eu carregava.

— Larissa — sua voz era baixa, um rosnado suave perto da minha orelha.

Ele não falou mais nada, em vez disso, sua mão livre veio até meu rosto e seus dedos firmes encontrando meu queixo. 

Com uma gentileza que sempre me surpreendia vindo daquelas mãos grandes, ele virou meu rosto para o dele. Meus olhos, com certeza cheios de preocupação, encontraram os seus. 

Eles não estavam frios nem distantes. Estavam… firmes. Presentes. Cheios de uma atenção absoluta que era só minha.

Sem pressa, ele se inclinou e capturou meus lábios com os dele.

Era um beijo lento. Profundo. Não era um beijo de paixão ardente, era um beijo de afirmação. 

De posse, sim, mas daquele tipo bom, que diz “você é minha e eu sou seu, e é assim que vai ficar”. 

Seus lábios eram quentes e familiares, e algo dentro de mim, uma corda esticada ao limite, simplesmente se partiu. 

Um tremor percorreu meu corpo e eu me derreti contra ele, minhas mãos saindo do colo para se agarrarem à sua camisa, como se ele fosse minha única âncora naquele mar de ansiedade.

Quando ele se afastou, faltou ar no meu peito. Ele ficou com a testa encostada na minha, seus olhos claros vasculhando os meus.

— Escuta — ele disse, sua voz ainda era um sussurro rouco, mas cada palavra clara como cristal. — Você não está voltando para o passado e sim, indo para um lugar novo, comigo, ao lado dos nossos filhos. Você é a Larissa Moratti, minha esposa, a mãe dos meus filhos, a mulher que construiu um império do meu lado. Esquece a garota assustada que eles conheceram. Ela não existe mais.

Ele fez uma pausa, seu polegar acariciando minha bochecha.

— E eu estou falando sério agora. Se, por um segundo sequer, as coisas não forem boas… Se alguém olhar torto, se fizerem você se sentir pequena, ou a atmosfera ficar pesada… nós viramos as costas. Eu pego você,  Gabriel e Maria, e entramos nesse jato de volta. Não importa se é no meio da ceia, se é na troca de presentes. A gente vai embora na mesma hora. Você me ouviu?

As palavras dele não eram apenas conforto. Eram um decreto, um plano de ação. 

E a firmeza absoluta com que ele falou dissipou um pouco do frio que habitava meu peito. Um sorriso pequeno, mas verdadeiro, tocou meus lábios, ainda formigando do beijo.

— Eu ouvi — sussurrei de volta.

— Não é só pra ouvir. É pra acreditar — ele insistiu, seus olhos ainda presos nos meus.

— Eu acredito — eu disse, e dessa vez senti que era verdade. Apertei sua camisa com mais força. — Obrigada, Ale. Por… por estar aqui. Desse jeito.

Ele respondeu com outro beijo, mais rápido, mas igualmente doce, no canto da minha boca.

— Não tem outro jeito de estar — ele murmurou, acomodando-me melhor contra o ombro dele. — Agora tenta descansar. Faltam algumas horas, eu fico de vigia.

E eu fechei os olhos, afundada no calor dele, no som constante do motor, e nas palavras que agora ecoavam dentro de mim como um escudo. 

“A gente vai embora na mesma hora.” Pela primeira vez desde que a ligação chegou, respirei fundo e senti, não paz, mas uma coragem emprestada. 

Uma coragem que vinha do homem ao meu lado.

O pouso foi suave, mas o baque no meu estômago foi violento. 

Estávamos aqui. O sol do hemisfério sul batia forte, com um calor úmido e estranho para um dezembro, que me fez tirar o casaquinho na mesma hora. 

Tudo era verde, intenso, e o ar cheirava a sal e algo floral que eu não conhecia.

Meu coração martelava contra as costelas, num ritmo acelerado e descompassado. 

Segurei a mão de Gabriel com uma força que devia estar desconfortável, mas ele não reclamou, só olhava para tudo com aquela curiosidade infinita. 

Alessandro carregava Maria, que tinha cochilado um pouco no final do voo e agora estava acordando, boquiaberta com a luz, seus dedinhos agarrados ao colarinho do pai.

Esperamos em silêncio, sob aquele sol que parecia me julgar, enquanto o motorista e outros funcionários colocavam as malas no porta-malas de uma SUV prateada. 

— Vamos, amor — Alessandro disse, abrindo a porta para mim. Seu olhar encontrou o meu por uma fração de segundo, buscando confirmação. Eu só consegui fazer um aceno mínimo.

Eu entrei no banco de trás com os dois pequenos. Alessandro foi para a frente, ao lado do motorista. O isolamento físico, aquele espaço entre os bancos, parecia um abismo. 

A viagem de carro foi um mar de estradas ladeadas por eucaliptos altos e, depois, pela costa. O mar aparecia em flashes de um azul turquesa hipnotizante. 

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