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Capítulo 3 — Entre Olhares e Sombras

Aurora acordou antes mesmo do despertador vibrar sobre o criado-mudo. O quarto ainda estava envolto pela penumbra azulada do amanhecer, e por alguns segundos ela permaneceu imóvel, encarando o teto, tentando entender por que seu corpo insistia em despertar antes da mente aceitar o novo dia.

Dormira pouco. Quase nada.

Durante a noite, o silêncio da cobertura de Ethan Vesper se tornara alto demais. Cada detalhe parecia amplificado: o som distante da cidade, o ar-condicionado quase imperceptível, o eco dos próprios pensamentos. Ela revirara na cama incontáveis vezes, presa a imagens que insistiam em se repetir — o contrato, as cláusulas friamente redigidas, as palavras calculadas com precisão cirúrgica… e o olhar dele.

O olhar de Ethan.

Não era apenas intenso. Era invasivo. Como se atravessasse as camadas que Aurora passara anos construindo para sobreviver depois da morte dos pais. Camadas de autoproteção, de silêncio, de distância emocional. Ele parecia enxergar tudo isso sem esforço, como se ela fosse um livro aberto que ele já tivesse lido antes mesmo de conhecê-la.

Aquilo era profundamente desconfortável.

E, ao mesmo tempo, impossível de ignorar.

Aurora se levantou devagar, caminhando até a ampla janela do quarto. A cidade se estendia abaixo, ainda despertando, luzes se apagando aos poucos, carros começando a ocupar as avenidas. Tudo parecia normal. Seguro. Enquanto dentro dela, tudo estava em desalinho.

Ela apoiou a testa no vidro frio, respirando fundo.

— Você só está cansada — murmurou para si mesma. — É só isso.

Mas sabia que não era verdade.

Depois de se arrumar, escolheu roupas discretas. Um vestido simples, de corte elegante, nada que chamasse atenção. Não queria parecer deslocada naquele universo de aço, vidro e poder absoluto. Nem queria parecer vulnerável.

Quando o carro parou diante do prédio da Vesper Corp, Aurora sentiu o peso da imponência antes mesmo de sair. O edifício se erguia como um monumento à ambição, refletindo o céu nublado em suas fachadas espelhadas. Havia algo intimidador naquele lugar — não apenas pelo tamanho, mas pela sensação de que tudo ali funcionava em um ritmo diferente, mais rápido, mais frio, mais estratégico.

Assim que entrou no saguão, foi envolvida por um silêncio organizado. Pessoas circulavam com passos firmes, olhares focados, cada movimento calculado. Não havia conversas desnecessárias, risadas soltas ou distrações. Era como se todos soubessem exatamente onde deviam estar — e o que poderiam perder se errassem.

A secretária pessoal de Ethan a aguardava próxima aos elevadores. Era uma mulher elegante, de postura impecável, o cabelo preso em um coque perfeito que parecia nunca sair do lugar. O olhar era profissional, treinado para observar sem demonstrar curiosidade.

— Bom dia, senhorita Delmont — disse, com um leve aceno de cabeça. — O senhor Vesper a espera.

Aurora assentiu, tentando não demonstrar o nervosismo que começava a se infiltrar em seus músculos.

O elevador subiu em silêncio absoluto. Nenhuma música ambiente. Nenhuma conversa. Apenas o movimento suave e constante rumo ao quadragésimo nono andar. Aurora sentiu o estômago se contrair à medida que os números passavam no painel.

Quando as portas se abriram, teve a clara sensação de atravessar um limite invisível.

O andar inteiro parecia outro mundo.

O escritório de Ethan Vesper era amplo, minimalista, dominado por tons sóbrios e linhas retas. Vidros translúcidos cercavam o espaço, permitindo uma visão panorâmica da cidade, distante e pequena lá embaixo. A luz natural entrava de forma controlada, criando sombras estratégicas que reforçavam a sensação de domínio.

E no centro de tudo, como se fosse parte da arquitetura, estava ele.

Ethan estava encostado à mesa de trabalho, revisando algo no tablet. As mangas da camisa branca estavam dobradas até os antebraços, revelando braços firmes, veias discretas sob a pele. O relógio no pulso era simples demais para chamar atenção, mas Aurora reconheceu imediatamente que não era algo comum.

Ele parecia perfeitamente integrado ao ambiente. Como se o escritório fosse apenas uma extensão de si mesmo.

— Aurora — disse, sem levantar os olhos de imediato. — Entre.

Ela deu alguns passos para dentro, sentindo o som dos próprios saltos ecoar no piso impecável. Fechou a porta atrás de si e respirou fundo, tentando manter o controle da postura.

— Temos muito a resolver — continuou ele, finalmente erguendo o olhar e caminhando em sua direção. — Mas antes disso, quero entender uma coisa.

Aurora sentiu o instinto de se armar, mas ergueu o queixo, recusando-se a parecer intimidada.

— O quê?

Ethan parou diante dela, a uma distância perigosamente curta. Aurora sentiu o perfume dele antes mesmo de perceber o quanto estavam próximos — algo amadeirado, frio, sofisticado. Um aroma que não pedia permissão, não buscava agradar. Apenas existia.

— Por que estava tão nervosa ontem?

Ela soltou uma risada curta, tensa, que não enganou nem a si mesma.

— Eu não estava nervosa.

Ethan inclinou levemente a cabeça, observando-a com atenção quase clínica. Seus olhos percorriam cada detalhe do rosto dela, como se desmontasse uma armadura invisível, peça por peça.

— Você mente mal — murmurou.

O tom não era acusador. Tampouco agressivo. Era provocante. Calculado. Como se ele estivesse testando limites.

Aurora desviou o olhar, sentindo o rosto esquentar. Mesmo sem encará-lo diretamente, percebeu o leve curvar dos lábios dele — um sorriso discreto, quase imperceptível, que ela suspeitava não ser comum no mundo dos negócios.

— Quero começar pelo que realmente importa — disse ele, afastando-se e caminhando até a mesa. — Sua herança foi colocada em risco.

A frase atingiu Aurora como um golpe seco.

— Como assim? — perguntou, sentindo o estômago se contrair.

— Alguém dentro da sua família falsificou documentos.

O impacto foi imediato. O ar pareceu mais pesado.

— Quem? — a pergunta escapou em um sussurro.

Ethan se aproximou novamente, desta vez com passos lentos, controlados, como se soubesse exatamente o efeito que causava.

— Ainda não posso dizer — respondeu. — Mas posso garantir uma coisa.

Ele parou a poucos centímetros dela.

— Ninguém vai tirar nada seu enquanto você estiver sob minha proteção.

Proteção.

A palavra se alojou em sua mente de forma desconfortável.

É perigoso, ela pensou. Ele é perigoso.

Mas havia algo naquele perigo que fazia seu coração acelerar de um jeito que ela não conseguia ignorar.

Ethan passou ao lado dela para pegar um arquivo sobre a mesa. Ao fazê-lo, sua mão roçou levemente na dela. Um contato breve. Quase casual.

Mas o choque foi imediato.

Aurora sentiu a eletricidade subir pelo braço, quente, involuntária, como se aquele toque tivesse despertado algo que ela preferia manter adormecido.

Ethan parou.

Olhou primeiro para o ponto onde os dedos haviam se tocado. Depois, lentamente, para o rosto dela.

— Está tremendo? — perguntou, em voz baixa.

— Não estou — ela respondeu, mesmo sabendo que mentia.

Ele sorriu.

Não foi um sorriso aberto. Foi lento, contido, quase imperceptível — e ainda assim devastador.

— Vai mentir assim o tempo todo? — disse, inclinando-se levemente. — Porque posso ensinar você a mentir melhor.

Aurora piscou, tentando entender se aquilo era uma provocação ou um desafio direto.

— Não preciso das suas aulas — murmurou.

— Não? — Ele deu mais um passo, reduzindo o espaço entre eles ao mínimo possível. — Eu acho que precisa.

Ela sentiu o rosto esquentar, mas manteve a postura, mesmo com o coração completamente fora de ritmo.

— Eu vim aqui para resolver a herança — disse, firme. — Não para… isso.

Ethan arqueou uma sobrancelha, visivelmente entretido.

— “Isso”? — repetiu, com um leve sorriso nos lábios. — Não sabia que tínhamos… “isso”.

Ela quase engasgou.

Ele soltou um riso baixo, breve — e voltou para trás da mesa como se nada tivesse acontecido, retomando a postura profissional com a facilidade de quem sabia exatamente quando avançar e quando recuar.

Mas Aurora sabia.

Algo havia mudado.

Os flertes não eram óbvios. Eram sutis. Escondidos nos silêncios prolongados, nas pausas calculadas, nos olhares que duravam um segundo a mais do que o necessário. Perigosos justamente por isso.

Enquanto Ethan explicava detalhes técnicos sobre a situação da herança, Aurora tentava se concentrar. Tentava ouvir. Tentava entender. Mas parte de sua mente permanecia presa àquele jogo invisível que se estabelecia entre eles.

Ela não tinha medo de Ethan Vesper.

Tinha medo do que estava começando a sentir.

E isso, ela sabia, era muito mais perigoso.

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