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Capítulo 2 — O Preço de Pertencer ao Segredo

O silêncio que se seguiu às palavras de Ethan Vesper não foi apenas desconfortável. Foi denso, opressor, como uma parede de vidro prestes a estilhaçar. Ninguém se movia. Ninguém ousava respirar fundo demais. A revelação pairava no ar como uma ameaça invisível.

Aurora sentiu cada olhar cravado em sua pele. Os tios a observavam com indignação mal disfarçada; Lena parecia genuinamente chocada, ainda que os olhos brilhantes denunciassem curiosidade; Dante estava rígido, prestes a explodir, como uma bomba armada. Mas nenhum desses olhares a atingia com tanta força quanto o de Ethan.

Ethan Vesper não parecia surpreso com a reação de ninguém. Ele a fitava com calma absoluta, como se já a conhecesse por inteiro — como se tivesse previsto cada batida acelerada de seu coração, cada pensamento confuso que se atropelava em sua mente.

O advogado pigarreou, desconfortável, tentando resgatar alguma formalidade naquele cenário prestes a ruir.

— Conforme estipulado no testamento — disse ele, abrindo a pasta com cuidado excessivo —, a herdeira, Aurora Delmont, deverá cumprir um período de convivência sob supervisão direta do Sr. Ethan Vesper para ter acesso à totalidade da herança.

Ele fez uma pausa curta, pesada.

— Incluindo… toda a documentação relacionada ao acidente de seus pais.

O coração de Aurora pareceu encolher dentro do peito.

Acidente.

A palavra sempre lhe soara errada. Artificial. Uma explicação simplificada demais para algo que a perseguava há anos como um eco mal resolvido. Um pano jogado sobre uma verdade feia demais para ser exposta.

Ela ergueu os olhos lentamente até Ethan.

— Meu pai confiou em você — murmurou, a voz embargada, quase infantil. — Por quê?

Ethan não desviou o olhar nem por um segundo.

— Porque eu era o único que podia protegê-la dos inimigos dele.

A frase caiu como uma explosão silenciosa.

Marise levou a mão ao peito, arfando. Élio franziu o cenho, o rosto ruborizado, como alguém que fora desmascarado. Dante fechou as mãos em punhos, os músculos do braço saltando sob o terno.

— Isso é completamente absurdo! — Dante explodiu, avançando um passo. — Você não tem nenhum direito de se meter na vida da Aurora!

Ethan virou o rosto lentamente em direção a ele. O movimento foi controlado, quase preguiçoso. Mas havia algo em seus olhos que silenciava qualquer ousadia.

— Tenho todo o direito — respondeu, frio. — Porque seu pai tentou contestar o testamento três vezes nos últimos dez anos. E perdeu todas.

A sala pareceu murchar.

Aurora sentiu o impacto daquela informação como um golpe direto no estômago. Virou-se para os tios, incrédula.

— Vocês tentaram… tirar minha herança?

Marise empalideceu. A voz saiu trêmula, ensaiada demais.

— Nós só queríamos proteger seu futuro, querida…

Mas Aurora enxergou com clareza pela primeira vez.

Não havia amor ali.

Havia medo. Ganância. Interesse. Talvez até culpa.

Ethan se aproximou.

Não tocou nela. Não precisou. Sua presença era esmagadora, como se a empurrasse contra uma parede invisível. Aurora sentiu o ar rarear ao redor.

— Arrume suas coisas — disse ele, sem margem para negociação. — A partir de hoje, você vem comigo.

Lena arregalou os olhos.

— Você vai morar com ele? — perguntou, quase em um sussurro. — Na cobertura dele?

Aurora sentiu a língua pesar.

— Eu… não sei se quero…

Ethan inclinou-se levemente em sua direção. O suficiente para que apenas ela ouvisse. Sua voz era baixa, firme, perigosa.

— Não é uma escolha, Aurora. É o único caminho para descobrir o que realmente aconteceu com seus pais.

O estômago dela afundou.

Porque ele estava certo.

E ela sabia disso.

Horas depois, o céu já escurecia quando Aurora entrou no carro preto que aguardava diante da mansão. O motorista abriu a porta com precisão impecável. Ethan já estava sentado ao lado, a postura intacta, como se o caos emocional da casa jamais tivesse o tocado.

O carro deslizou pela estrada, afastando-se dos portões de ferro. Aurora observou a mansão desaparecer pelo retrovisor. Não sentiu alívio. Sentiu ruptura.

— Como meu pai confiaria tanto em você? — perguntou, encarando a paisagem pela janela.

Ethan permaneceu alguns segundos em silêncio.

— Seu pai descobriu algo que não deveria — respondeu por fim. — E me pediu que cuidasse de você caso ele… não tivesse tempo.

Ela virou-se para encará-lo.

— Você fala como se tivesse certeza de que a morte deles não foi um acidente.

Ethan virou o rosto. Pela primeira vez, algo diferente atravessou seu olhar. Não era frieza. Era algo mais duro. Mais humano.

— Não foi.

A respiração de Aurora travou.

— E o que você sabe sobre isso?

— Tudo o que você não sabe — respondeu. — E tudo o que poderia destruí-la, se descobrisse sozinha.

Um frio percorreu seu corpo.

Não era medo.

Era antecipação.

— Por que meu pai confiaria você com algo tão grande? — insistiu.

Ethan desviou o olhar, os dedos fechando-se sutilmente sobre o próprio joelho.

— Porque antes de ser CEO… eu fui a única pessoa capaz de salvá-lo uma vez.

— Salvá-lo… de quê?

— De quem queria a fortuna dele.

— Quem?

Ele não respondeu.

O carro entrou na garagem subterrânea de um prédio altíssimo de vidro negro. A cobertura de Ethan Vesper.

Aurora engoliu em seco.

Quando Ethan desceu e abriu a porta para ela, estendendo a mão, algo dentro dela vacilou. Aquela mão não oferecia apenas apoio. Oferecia poder. Controle. Perigo.

Aurora hesitou.

Ethan semicerrou os olhos.

— Você está prestes a entrar no meu mundo — disse, num tom baixo, quase íntimo. — E meu mundo vai mudar o seu. Para sempre.

Ela colocou a mão na dele.

E sentiu.

Sentiu que aquele homem poderia ser sua destruição.

E, de alguma forma inexplicável…

a única chance que ela tinha de sobreviver.

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