Sim, eu estava fugindo.
Fugindo para longe, para que ninguém pudesse invadir a nossa casa e, por algum acidente, fazer com que ela se lembrasse de tudo. Eu temia que a memória viesse de uma vez só — brusca, violenta — e que isso a fizesse passar mal.
Daphne estava mais sensível desde que descobrira a gravidez. Ainda era a minha Daphne, mas agora vinha acompanhada de enjoos, tonturas e beijos inesperados. Pequenos gestos cheios de ternura. Ela estava tão feliz com a novidade que era impossível não sorrir ao vê-la brincar com cada detalhe, planejar o futuro, imaginar se seria menino ou menina. Às vezes, dizia “menina” duas vezes, como se o universo já tivesse decidido.
Eu me sentia em um paraíso.
Tentava empurrar para o fundo da mente o fato de que ela havia me traído de alguma forma. De que mentiu para mim. De que me enganou.
Eu queria apenas a minha Daphne.
Queria voltar ao tempo em que eu não sabia de nada e nós éramos felizes.
Mas a verdade sempre encontra um jeito de vir à tona.
E,