A vingança
A vingança
Por: Beatriz Lobato
Prólogo

Melinda

Enquanto muitas meninas sonhavam em ser princesas e bailarinas, eu sempre fui diferente. Ainda que por um breve tempo tenha desejado uma coroa ou rodopiar num palco, foi entre páginas e palavras que encontrei meu verdadeiro encanto. Desde cedo, os livros me chamaram mais alto do que qualquer castelo ou sapatilha de balé.

A leitura me apresentou mundos mágicos, personagens intensos e histórias que iam muito além do que eu poderia viver fora do papel. E assim, passei a sonhar com finais felizes, daqueles que surgem nos contos de fadas, onde o amor é celebrado com promessas eternas e olhares que se reconhecem no meio da multidão.

Com o tempo, meu coração passou a desejar algo mais real do que encantado: um amor verdadeiro, como aqueles dos romances que eu devorava em silêncio. Um amor que fosse fiel, profundo, e que me trouxesse paz.

Era só um sonho, como disse… Um que pensei ter finalmente realizado, mas, como sempre, a vida estava somente me pregando uma peça, e eu paguei caro… O preço foi o meu coração.

Olho para o homem que está à minha frente. O mesmo homem que há alguns meses jurei amar e ser fiel. Deixo as lágrimas descerem pelo meu rosto, não faço questão de secá-las, seria inútil! 

Assim como eu estou me sentindo nesse momento, uma inútil.

As lágrimas desse momento carregam tudo o que não consigo dizer, tudo o que se acumulou entre nós em silêncios longos demais e promessas quebradas. Meu peito aperta, não apenas pela dor do agora, mas pela lembrança do que poderíamos ter sido e que jamais seremos.

Tudo fica ainda pior quando meu olhar se fixa na mulher parada atrás dele. A mesma que ele disse que não tinha mais nada, que havia ficado em seu passado. 

O sorriso debochado que ela exibe me revira o estômago. Então meus olhos descem até o vestido amontoado na cintura, deixando-a seminua. Mas é o batom escarlate, borrado nas bordas, que me conta uma história que vai muito além do que meus olhos podem ver.

Quero desesperadamente acreditar que tudo isso é uma mentira, mas sei que não é. 

E então, meu mundo desabar, de forma lenta e cruel, sem que eu possa fazer nada.

Como fui besta!

— Saia daqui, Scarlett. Agora!

A mulher treme com o seu grito e logo passa ao meu lado, praticamente correndo, enquanto tenta arrumar a roupa. Não sei qual traição dói mais: descobrir que o meu casamento é uma farsa ou que, além disso, o meu marido vinha tendo um caso com outra, e não uma mulher qualquer, sua ex-noiva.

Sei que nosso começo foi difícil, mas nunca imaginei que chegaríamos a esse ponto. Não quero acreditar que ele seria capaz de fazer isso comigo. 

O rosto dele revela um misto de emoções, entre elas medo, desespero e angústia, mas isso não me fere como antes. Não mais. 

Nada do que ele faça agora pode me destruir, porque ele já fez isso. E o pior é que foi enquanto eu o amava e me dedicava ao nosso casamento. Aos poucos, dia após dia, ele foi tirando pedaços do meu coração, e eu, tola apaixonada, não percebi.

— C-como você pode fazer algo assim? — Pergunto num fiapo de voz, sem conseguir me controlar. — Como conseguiu ser tão baixo a esse ponto?

— Linda… — Sua voz soa como um sussurro sofrido, e então ele abre e fecha a boca como se estivesse procurando uma resposta que explicasse tudo que vi e ouvi nesse escritório. 

Mas nada que ele faça ou diga agora me convenceria do contrário. Ele tenta se aproximar, mas sou mais rápida, me afastando como se o simples toque dele me queimasse.

— EU CONFIEI EM VOCÊ! — grito, sentindo uma forte dor no meu peito. Lágrimas desciam na minha face como cascatas. — Você mentiu para mim, me usou, me fez acreditar em um amor que nunca existiu. — Sinto o meu corpo chacoalhar pelo choro que não consigo controlar. — Para quê? Me diz! O que você ganhou com tudo isso?

Mesmo com a vista embaçada pelas lágrimas, consigo ver o desespero em seu rosto, a forma desesperada que tenta se aproximar de mim de novo, sem sucesso. Então ele chora, um choro contido, mas que para mim não faz diferença, nada mais faz, tudo que vivi com ele foi uma farsa, não acredito em nada mais que venha dele. 

Nada foi real.

Nada.

Tudo não passou de uma grande mentira.

Tudo em que acreditei até agora não passava de uma ilusão cuidadosamente criada por ele, cada toque, cada palavra, cada promessa. Ele mentiu para mim. Me usou de uma forma tão cruel que ainda me custa aceitar o que acabei de ouvir. Sinto-me suja por ter acreditado nele com tanta ingenuidade. Por ter me entregado achando que era amor. 

Quantas vezes ele mentiu olhando nos meus olhos… e eu acreditei! Agora tudo faz sentido, o jeito como começou a me tratar depois do casamento, a forma como falava comigo. Era sempre o mesmo ciclo: me tratava mal e, logo depois, cuidava de mim como se eu fosse quebrar com um simples gesto.

— Linda, você precisa me ouvir… — ergo a minha mão, parando-o. Por mais que eu queira que ele se explique e diga que tudo não passou de um grande mal-entendido, no fundo eu sei que qualquer coisa que ele diga a partir de agora, só vai me machucar ainda mais.

 — Eu não sei como explicar para você, tudo começou de uma forma tão errada, mas eu me apaixonei por você, eu te amo!

Um tremor percorre meu corpo, e preciso me escorar na parede mais próxima para não cair. Como ele ainda ousa dizer que me ama? Não consigo mais acreditar nisso. Se tivesse dito essas palavras algumas horas antes, tudo poderia ser tão diferente…  

Mas provavelmente isso não passa de mais uma mentira.

— Não quero saber de mais nada que vem de você. Não acha que já chega de mentiras? Como você consegue fazer isso com tanta facilidade?

— Juro que não é mentira! Juro para você, só vamos conversar com calma, por favor, amor.

Amor. Uma simples palavra, mas com um significado tão grande. 

Eu esperei nas entrelinhas das suas frases, nos silêncios depois dos nossos beijos, nos olhares que pareciam dizer mais do que ele tinha coragem de falar. Esperei tanto… que comecei a acreditar que o problema era meu. Que talvez eu estivesse querendo demais. Mas não era demais. Era só eu amando sozinha.

— Não temos mais nada para conversar. Esse é o nosso fim, Will. E você foi o causador disso.

Em passos rápidos, peguei a caixa que havia levado para o escritório dele; era uma surpresa, porém quem teve a maior surpresa fui eu.

E, como num flashback, várias cenas vão passando pela minha mente: suas palavras cruéis, as inúmeras vezes em que me tratou mal sem motivos. Confrontei-o tantas vezes para entender o motivo da sua raiva, que para mim não fazia sentido.

Ouço meu nome sendo chamado várias vezes, ecoando atrás de mim, insistente, quase desesperado. Mas não paro. Não consigo. Cada passo é uma tentativa de escapar não apenas dali, mas de tudo o que ficou para trás.

Quando as portas metálicas se fecham, o som seco do impacto parece selar minha decisão. O mundo lá fora desaparece. Apoio-me no espelho, tentando me manter em pé, enquanto minhas pernas ameaçam ceder. Meu reflexo me encara de volta, frágil, perdida, irreconhecível. Respiro com dificuldade, como se o ar também tivesse se tornado pesado demais, e então sinto o baque do meu corpo contra o chão frio, e a escuridão me consome.

Dizem que a sinceridade machuca, mas, para mim, a mentira faz um estrago bem maior…

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