Mundo de ficçãoIniciar sessãoMelinda
Tento, pela quinta vez, ligar meu celular, mas ele parece ter desistido de vez. Suspiro, cansada. Essa já era a quarta vez que isso acontecia só neste mês.
— Ótimo! — murmuro, quando a tela pisca, treme e então morre de vez.
Passo a mão no rosto soltando um suspiro. Por mais que eu tenha algumas economias guardadas, ainda não tenho como comprar um novo. No momento, tudo o que posso fazer é aceitar mais essa pequena derrota e seguir em frente, mesmo com a sensação incômoda de estar sempre improvisando para sobreviver.
Guardo o aparelho no bolso do meu avental, como se isso pudesse salvá-lo. Não pode, mas ainda tenho esperança de que ele volte a funcionar. Apoio o cotovelo no balcão do café e suspiro, tentando ignorar o peso familiar que se instala no peito antes mesmo do dia começar.
Antes que os pensamentos pessimistas consigam se infiltrar na minha mente, mergulho de volta no trabalho. Atendo um cliente atrás do outro até que, por um descuido, sinto o líquido quente escorrer entre meus dedos. Por reflexo, solto a xícara. Ela se espatifa no chão, estilhaçando-se em vários pedaços.
— Está difícil manter o foco… ou você simplesmente não está mais interessada em trabalhar aqui? — A voz surge atrás de mim, afiada o bastante para me fazer sobressaltar. — Essa é a terceira vez só nessa semana que você comete algo assim.
Ainda de costas, aperto os olhos com força, reunindo coragem para enfrentar Karen. Ao me virar, encontro seus olhos afiados, que me analisam minuciosamente.
— Desculpe, vou limpar agora.
— Você já está no limite. Mais um desastre, e você não vai mais precisar vir amanhã.
Apenas assenti de leve, sem dar mais explicações. Há um tempo que Karen vem me observando de longe, e soltando pequenas indiretas de como pode me substituir com facilidade. E apesar de sempre tentar me defender de alguma forma, ou me desculpar, nada parece mudar a minha situação.
Termino de limpar a bagunça e sigo para o salão, sentindo o olhar dela me acompanhar como uma sombra. O café está relativamente cheio para aquele horário, o que deveria me animar, mas hoje tudo parece exigir mais esforço do que deveria.
— Tem cliente na mesa cinco, mel. — Isabelle diz ao passar por mim, indo em direção ao balcão. — Não estamos nem na metade do dia, e já estou querendo uma boa taça de vinho para relaxar. — Resmungou.
Com certeza hoje vai ser aqueles dias onde no final do dia só um banho e uma boa xícara de chocolate quente para me manter de pé. Passo os dedos pelo meu cabelo e prendo tudo com o elástico, como sempre faço em dias como esse.
— Bom dia, seu Lúcio. Como o senhor está hoje? — Digo ao me aproximar da mesa.
Ele dobra o jornal com calma e me olha por cima dos óculos arredondados.
— A saúde não está boa, mas continuo firme — diz ele, com um sorriso doce nos lábios. Ele foi um dos meus primeiros clientes quando comecei a trabalhar no café, e desde então sempre faz questão de ser atendido por mim.
— Vai querer o de sempre?
— Hoje vou trocar o croissant, por uma fatia daquela deliciosa torta de limão.
Termino de enviar o pedido para a cozinha, e continuo atendendo as mesas. O movimento aumenta, os pedidos se acumulam, e quase esqueço dos olhos que parecem me observar a cada movimento que faço. Tento ao máximo ficar focada no que tenho que fazer, para não ter problemas no final do dia, mas a cada vez que olho para o escritório vejo Karen me observando.
— Pensei que não veríamos esse movimento tão cedo. — Isabelle se aproxima do balcão, onde estou arrumando os doces.
Há pouco mais de um mês o movimento do café diminuiu. Isso afetou todo mundo, o medo de ser demitida era constante, não podia perder esse emprego. Mas então Paloma, minha chefe, decidiu colocar a filha dela na administração.
Como diziam os boatos que ela era a primeira da turma de Administração, achei que conseguiria resolver o problema. Mas tudo piorou quando decidiu substituir os ingredientes de costume por outros mais baratos. Só que não seremos nós a contar isso para a patroa.
— Acho que finalmente vamos voltar à correria.
A cafeteria não é grande, nem moderna, mas tem um aconchego gostoso. Tudo ali segue um estilo mais rústico, com tons de marrom, preto e branco. As cadeiras de madeira têm almofadas macias, mesas redondas com vasinho de flores no centro e, lá no fundo, existe um cantinho com sofás e almofadas, perfeito para quem só quer um pouco de silêncio e um bom livro.
— A cada dia, ela fica ainda mais insuportável. — Sussurra Isabelle com os olhos fixos na morena do outro lado do salão.
— Isabelle! — A repreendo. — Ela não é uma pessoa fácil de lidar — comentei, pegando um pano para limpar o balcão. — Mas o que podemos fazer? Ela também é a dona.
— Essa mulher é terrível, é gentil da sua parte falar só isso. Você é boa demais para esse lugar, sabia? Só tome cuidado. Ela não vai pensar duas vezes antes de te mandar embora. — Ela se senta no banquinho que fica atrás do balcão. — Com a crise do café, ela virou o nosso fantasma particular.
— Já lhe disse sobre esse tipo de conversa. — Olhei para trás me certificando que Karen ainda estava no celular. — Se ela pegar você falando assim, não vai ser uma advertência, e sim uma demissão.
— Só estou falando a verdade. — Deu de ombros.
— Hoje ela me deu a segunda advertência. — Murmuro. — Vou tentar ficar mais atenta, não posso perder esse emprego. Mas acredito que logo tudo vai se acalmar, e ela vai me esquecer.
— Você que pensa, ela não esquece as coisas assim. — Resmungou. — Não me olhe assim, só digo a verdade. Você já viu alguma amiga dela?
— Não, mas acredito que, como ela está trabalhando, não queira que as amigas venham até aqui.
— Não acredito que seja isso. Além do mais, com esse humor de cão, ninguém quer ser amiga dela. — riu despreocupada.
Antes que eu consiga responder, o sino da porta toca, anunciando mais um cliente. Me viro e pego apenas um relance de um homem de terno entrando. Ele caminha até a mesa mais afastada com passos leves e confiantes, como se nada ao redor fosse digno de atenção. Em um gesto rápido, puxa a cadeira e se senta de costas para o balcão.
— Bom dia. O que você vai querer? — pergunto ao me aproximar da mesa.
No ar, um cheiro diferente de tudo que já senti pairava, com toques fortes e, ao mesmo tempo, suaves. Respiro fundo, tentando identificar de onde vinha o aroma.
É então que meus olhos se cruzam com aqueles, tão expressivos, do homem sentado à minha frente, que me olha com tanta intensidade que parece querer me falar algo.
É dele.
O perfume vem dele.
Não consigo descrever a vergonha que sinto ao ter sido pega em um momento tão embaraçoso como esse. Sorrio sem jeito e, quando coloco minha franja para trás da orelha, os olhos azuis seguem meu movimento, deixando-me ainda mais constrangida.
O homem desconhecido permaneceu por longos minutos apenas me encarando, enquanto eu sustentava um sorriso congelado no rosto, completamente sem graça diante daqueles olhos azuis, quase cinza.
— Vou querer apenas um café preto, sem açúcar. — A voz grossa preencheu meus ouvidos me causando um leve arrepio. Antes que eu pudesse reagir, ele sorriu.
É por mais que isso parecesse bobagem, eu nunca tinha visto um sorriso tão encantador quanto aquele.
Senti o calor subir às minhas bochechas. Ele me passava uma sensação que eu não conseguia descrever naquele instante. Sua beleza era tão impressionante que parecia de outro mundo: a barba bem aparada, os cabelos escuros como a noite, a pele levemente bronzeada e os traços fortes do rosto formavam uma presença impossível de ignorar.
Enquanto o atendo e entrego seu pedido, percebo seus olhos me seguindo o tempo todo, o que só intensifica meu desconforto. Era a primeira vez que o via, mas parecia que ele me conhecia. Ao limpar a mesa, encontro um bilhete com a caligrafia firme: “Até breve, Melinda.”
Isso me deixou ainda mais nervosa e assustada. De onde o conheço? Tenho a certeza de que nunca o vi. Poderia dizer que ele me confundiu com outra pessoa, mas isso não explicaria meu nome no bilhete.
— Elle, você conhece aquele homem? — Pergunto, me aproximando dela.
— Não, mas ele costuma passar aqui na frente em um carro luxuoso. Por quê? — Mostro o recado para ela, que me olha confusa. — Você o conhece?
— Não. É a primeira vez que o vejo.
— Estranho. Talvez você já tenha esbarrado nele em alguma ocasião e só não se lembra. — Dá de ombros.
Mas tenho certeza: nunca o vi. Um homem como ele é impossível de esquecer.
Tento deixar os pensamentos de lado e voltar ao trabalho, mas a todo momento me pego pensando nele. No homem misterioso de olhos cinzentos e no bilhete que ainda queima em minhas mãos.
*****
Passo a mão pelo ombro, sentindo a fisgada aguda que ficou ali depois de horas de trabalho, e prendo a respiração por um instante. Depois do almoço, o movimento do café caiu, mas nem o salão quase vazio foi suficiente para me dar trégua.
Karen não me deixou respirar. Primeiro veio a vidraça inteira, o pano deslizando pelo vidro já limpo até meus braços começarem a arder. Em seguida, a estufa de doces, quente e grudenta, exigindo um cuidado além da minha paciência já esgotada. Por último, os banheiros, com o cheiro forte de produto de limpeza e as costas reclamando a cada vez que eu me abaixava.
Isabelle tentou me ajudar mais de uma vez, mas bastava o olhar atento de Karen para ficar claro: aquela sequência de tarefas tinha um único destino. Eu. E nenhuma de nós ousaria questionar.
Jogo o esfregão no balde com água, sem o menor cuidado. O barulho ecoa alto demais no espaço quase vazio. Olho para o relógio na parede, mais de uma hora além do meu horário. Como sempre.
Sem forças para mais nada, tiro meu avental e pego minha bolsa do cabide, na sala dos funcionários. Tudo que mais quero é chegar em casa, e poder tomar um bom banho e tirar o cheiro de gordura que parece ter impregnado no meu cabelo.
Sigo para a porta o mais rápido que consigo, com o medo velado de perder o ônibus, se eu tiver que esperar pelo próximo, terei que andar uns dois quarteirões até chegar em casa e sei que nesse momento meu corpo não aguenta mais.
Ao chegar na porta, algo me chama a atenção, um pequeno post-it azul colado no vidro. Ainda confusa, pego o papel.
“Amanhã. No seu horário. Sem atrasos.”
A letra cursiva e bem desenhada trazia mais que uma simples mensagem, era como uma ameaça silenciosa. Suspiro, amassando o pequeno pedaço de papel entre os dedos.
Abro a porta sentindo o vento gélido da noite me atingir, fazendo meu corpo se arrepiar. Não posso perder esse emprego, então vou fazer como todos os dia, vou erguer a cabeça e enfrentar o dia de amanhã.







