Marcio Diniz
Cheguei em casa mais tarde do que o normal.
O apartamento estava exatamente como eu havia deixado pela manhã: silencioso, organizado, impessoal. Vidros amplos, concreto aparente, linhas retas. Tudo ali tinha sido escolhido para não exigir nada de mim além de presença. Nenhuma fotografia. Nenhuma lembrança fora do lugar. Nenhum passado me encarando das paredes.
Afrouxei a gravata e a deixei cair sobre o balcão da cozinha. O gesto foi automático, quase agressivo. Sirvi um uísque sem gelo, mais por hábito do que por vontade, e caminhei até a janela. A cidade se estendia lá embaixo, viva, indiferente à minha irritação mal resolvida.
Era para o dia ter acabado no escritório.
Mas ela veio comigo.
— Ridículo — murmurei, levando o copo aos lábios.
Uma estagiária. Uma noviça. Uma garota que tropeça com café quente. Não havia lógica nenhuma em permitir que aquilo ocupasse espaço na minha cabeça. E ainda assim, minha mente insistia em voltar ao mesmo ponto.
O momento exato em que levantei os olhos e a vi.
Não foi o café. Nem o susto. Foi o contraste.
O hábito simples em meio aos ternos caros.
O olhar assustado que não era fraco.
A postura contida de alguém acostumada a obedecer… sem ser submissa.
Linda.
O pensamento surgiu sem aviso, e isso me irritou mais do que qualquer coisa dita naquele dia.
Ela não era bonita no sentido óbvio. Não havia maquiagem marcante, nem cabelo cuidadosamente arrumado, nem aquele esforço calculado para chamar atenção. Mas havia algo na forma como ela ocupava o próprio corpo — como se estivesse inteira ali, mesmo querendo desaparecer.
Aquele tipo de beleza que não pede atenção.
E exatamente por isso, a rouba.
Dei outro gole no uísque, sentindo o líquido queimar na garganta.
— Você perdeu a cabeça, Mormente — falei em voz baixa.
Caminhei pelo apartamento, tentando afastar a imagem dela ajeitando o véu, os dedos levemente trêmulos, a respiração controlada demais. Eu conhecia aquele gesto. Já tinha visto antes. Em pessoas que aprenderam cedo a não demonstrar fraqueza.
Não era distração.
Era tensão.
Sentei no sofá e abri o notebook, mais para me ocupar do que por real necessidade. Meus dedos se moveram antes que eu pensasse. O arquivo abriu rápido demais.
Maria Carolina Corrêa.
Reli o dossiê com mais atenção do que pela manhã. Orfanato desde a infância. Bolsa integral. Mérito acadêmico impecável. Nenhuma menção a família. Nenhuma exceção disciplinar.
Claro.
Ela não sobreviveria a um orfanato sendo desastrada de verdade.
O café tinha sido um acidente.
Minha reação, não.
Fechei o notebook com força e o deixei de lado. Passei as mãos pelo rosto, sentindo o cansaço finalmente se impor.
Por que aquilo me incomodava tanto?
Não era culpa. Eu não funcionava assim. Não era arrependimento. Muito menos curiosidade profissional. Eu já tinha visto centenas de estagiários entrarem e saírem daquela empresa sem deixar rastro.
Mas ela deixou.
Talvez fosse o fato de que ela não tinha me olhado com admiração. Nem com medo real. Quando eu fui grosseiro, havia dor naquele olhar, sim — mas também dignidade. Como se ela tivesse aprendido a suportar coisas piores do que um CEO irritado.
Como se aquilo não fosse o pior que já tinha enfrentado.
— Isso não é problema seu — falei para o apartamento vazio.
Mas era.
Porque pessoas assim quebram expectativas. E eu odiava quando o mundo não seguia o roteiro que eu escrevia.
Voltei à janela. A cidade continuava ali, alheia. Pensei em como tudo naquela vida tinha sido construído para evitar exatamente aquele tipo de incômodo. Distância emocional. Regras claras. Relacionamentos funcionais. Nada que exigisse fé, entrega ou vulnerabilidade.
E então surgiu outra imagem, indesejada.
Ela segurando o copo de café com cuidado exagerado. O corpo levemente rígido. O esforço visível para não errar.
Como alguém que passou a vida inteira tentando não incomodar.
— Linda e desastrada — murmurei, com ironia amarga. — Ótima combinação para um desastre.
Sorri sem humor.
Ela representava tudo o que eu evitava: fé, vocação, escolhas feitas sem garantias. Pessoas que acreditam em algo maior do que si mesmas sempre me deixaram desconfortável. Porque, em algum ponto da vida, eu tinha parado de acreditar.
Terminei o uísque e deixei o copo sobre a bancada. Fui até o quarto, apaguei as luzes, deitei.
Mas o sono não veio fácil.
A imagem do café descendo pelo terno, o cheiro, o calor, o olhar dela encontrando o meu — tudo voltou, insistente.
Abri os olhos no escuro.
— É só uma estagiária — repeti, como um mantra.
Mas a palavra “só” já não parecia tão convincente.
Virei de lado, respirando fundo.
Pela primeira vez em muito tempo, algo tinha passado pela minha vida sem pedir permissão.
E deixado marca.