Márcio Diniz
Acordei antes do despertador.
Isso não era comum. Meu corpo sempre respeitou rotina. Horários. Disciplina. Mas naquela manhã, havia um peso estranho no peito, como se algo estivesse desalinhado desde a noite anterior. Fiquei alguns segundos olhando para o teto, tentando identificar a origem da inquietação.
Não precisei pensar muito.
Ela estava ali.
Não como imagem nítida, mas como sensação. Um incômodo silencioso, persistente, que não desaparece quando se muda de posição.
Levantei-me, tomei banho, vesti um terno novo. Escolhi a gravata com mais cuidado do que o normal, como se isso pudesse restaurar algum tipo de controle. Enquanto me observava no espelho, percebi algo que me irritou profundamente: eu estava atento demais a mim mesmo.
— Chega — murmurei.
No caminho até a empresa, revisei mentalmente reuniões, contratos, metas. Me forcei a pensar em números. Em decisões objetivas. Em tudo aquilo que sempre funcionou como antídoto para qualquer ruído emocional.
Funcionou…